quarta-feira, 15 de abril de 2009

Entre Amigos

Há entre amigos um algo de muito peculiar. Um que de unicidade, que não vai nas outras coisas. Amigos entendem o indizível. Criticam o sagrado e cospem nas suas próprias escrituras. Amigos reescrevem a vida. Eu e alguns amigos estamos com um projeto para espocar dentro em breve. A diversão, ao menos para nós, será garantida. Espero que para todos que nos acompanham. Vai, nesse texto, uma idéia embrionária do que deve ser, animicamente, a atmosfera do novo espaço que desenharemos na blogosfera dentro em breve. Muito breve.

O texto, que aqui segue, é um mini-conto, uma espécie de tira-gosto do que está por vir.

Entre Amigos

MicrosYstem nas mãos, maquaigem mal delineada, feita pela própria irmã, Risoleta, outrora mestre-escola de certa reputação nas hostes do direito, ensaia, em pleno instituto jurídico, uma dança quase sabática. Com uma lata na cabeça, ela sobe numa mesa, na torre de marfim, onde, tempos idos, ensinou, e, girando como um pião, se vê como a madre superiora de sua divindade pagã: Madonna. Quem diria: justo ela, outrora socialista, anti-americanista, anti-quase tudo que não tivesse um que de vermelho, de Fidel. Hoje, tomada por uma alegre sandice, cantarola, num tosco inglês, em falsete: “Can of Water in the head, there goes Maria, there goes Maria..... Up Rio and no tired, for the hand leva a child, there goes Maria”. A melodia e a letra, tiradas de uma música popular brasileira, revelariam apenas a sua confusão mental, mas evocam, entre poucas convivas, uma nostalgia, uma comicidade que só mesmo elas compreenderiam. Algo de quase atávico. Ante uma platéia perplexa de alunos e professores, apenas elas, as três amigas, únicas que não ensinam nem aprendem no instituto, sorriem. Gritam em coro: - “CTRL ALT DEL. Macaco!” - A sentença, uma espécie de código cifrado, comum a elas, esdrúxulo a qualquer outro, iguala esta feminina versão do Quixote ao primata inicial, e é decisiva para fazer do riso gargalhada para as três; ou melhor, as quatro. A Quixotesa sorri ainda mais, desce da mesinha e abraça as amigas. Esquálida, abre um sorriso que lembra a lucidez de outrora, dos tempos pensantes. Mas agora não pensa ou pena. Apenas sorri e congrassa. Há uma confraria festiva, um rito fechado naquelas almas, ainda que aberto aos olhos da platéia incrédula. As quatro, juntas, seguem, com aquela alegria genuína que só os bêbados, quando realmente embriagados, conseguem exibir. E não tomaram nem um trago. A platéia assiste, estupefata. Não emitem um ruído. Não entendem tudo, mas respeitam, pois compreendem a parte essencial do que se passa ali. Entre tropeços e abraços, as quatro seguem. Apenas se amam e se entendem.

Gabriel Pinheiro

terça-feira, 14 de abril de 2009

Tem dias

Tem dias em que tudo é doce
Como se fosse um sorriso;
Que a vida lança olhares,
provoca-nos reflexão.

Tem dias de sim
Tem dias de não

Tem dias em que o mundo ferve,
Como a verve da paixão;
Que os olhares são cegos,
arquipélagos sem fim.

Tem dias de início
Tem dias de fim

Tem dias em que o marasmo,
com seu pasmo adormecido,
deixa o humano dolente,
parvo, como vencido.

Tem dias ganhos
Tem dias perdidos

Não sei bem que dia é hoje.
Quem saberá afinal?
Creio perder vitórias,
lançar ao vento as glórias.

Tem dias lindos
Tem dia escória.

terça-feira, 7 de abril de 2009

A bicicleta

- Não filhinho, papai não tem dinheiro – dizia ele entre lágrimas.
- Conserta minha bicicleta papai – dizia ele mesmo, fazendo as vezes do filho, chorando agora com mais sentimento.
- Me perdoa, meu filho, me perdoa – as mãos no rosto, em concha, tampavam destarte a vergonha. Vergonha da pobreza, de não ter podido atender aquele último desejo. Durante todo este diálogo interno, que ele externava em voz alta, como a querer que aquele grito sussurrado ao mundo, libertasse a sua alma de um pesar do qual só ele pode livra-se, o pai fitava o caixão do menino de 7 anos, morto esta semana no subúrbio de Salvador pela dengue hemorrágica.

Antônio Dantas, vigilante. Nunca pode pagar um plano de saúde para ele ou sua família. Uma mulher e três filhos; agora dois. Um, irremediavelmente ceifado. Passou mal numa quinta. Febre, dor de cabeça. A família medicou a criança. Usaram dipirona. Mesmo sem plano de saúde, eles têm televisão e, entre uma bobagem ou outra, assistem a um jornal, onde entre outras e outras bobagens, alguma notícia se salva. Sabem evitar o ácido acetil salicílico. Sexta feira, o menino passa melhor. Weslei era o nome dele. Fica de cama, vendo televisão. Entre um e outro desenho animado, um jornal - e a dengue de volta. A mãe, Marisvânia, assiste com ele. Desempregada, toma conta do filho. Sábado, ele piora muito. Vomita e começa a convulsionar. A mãe leva a criança ao posto de saúde. De lá, ele é encaminhado para o Hospital João Batista Caribé, o maior do subúrbio, distrito sanitário que tem também o maior índice de infestação de Dengue de Salvador.

- Ele me falou, doutor – diz ela, voltando-se para mim - o médico disse que era só uma infecção de estômago. Mas a outra médica já tinha me dito que podia ser dengue. As plaquetas dele estavam muito baixas (sic) – ressalta, numa prova de que acompanha com real atenção as notícias sobre a dengue, e que chama de doutor até mesmo um simples repórter como eu, não porque traje paletó, ou não apenas por isso, mas também porque os que têm acesso ao mundo que lhes é vetado (a ela, a seu marido e a seus filhos e seus vizinhos) são para ela e para todos os demais excluídos do subúrbio, doutores.

Foram cerca de 24 horas de agonia.

- Porque não transferiram meu filho de hospital, se eles não podiam cuidar? Por que ele não foi para o Couto Maia? – o choro abafa a fala da mãe, que já tem seu corpo abafado, fisicamente, por colegas repórteres, cuja sanha por conseguir a notícia, ou mesmo o depoimento justo no momento de maior dor como uma espécie de troféu ao mau jornalismo que tem sua audiência regada por choro e sangue, não permite que se sensibilizem com a situação. Chamam a isso de distanciamento jornalístico. Eu, que chegara adiantado e já colhera minhas entrevistas previamente, quando os pais estavam mais calmos, acompanhava de longe. Sentia, na dor dos pais, e em tudo naquele evento, uma vergonha muito grande. Vergonha de poder o que eles não podem, vergonha de precisar ter vergonha disso e também, como se não bastasse, vergonha pelos meus colegas. Eu, para entrevistar os pais, busquei, inclusive, chamá-los para fora da casa onde o corpo era velado, de modo que ficassem longe do filho, para que a lembrança, ao menos naquela hora, em que detalham a história, refazem angustiosos caminhos psíquicos, que ali a memória lhes fosse menos pungente, dolorosa. Procedimento inverso ao adotado, lamentavelmente, por alguns colegas, que, para minha vergonha profissional, ainda diziam, na vista dos parentes, aos seus cinegrafistas, que pegassem o menino de fundo na imagem. Os pais em primeiro plano. O corpinho, no caixão branco, de madeira simples, em segundo, cmo paisagem, compondo a cena. O que para eles é cenário, para mim é uma criança, um menino qoe ainda parecia vivo. Acariciado pelos pais o tempo inteiro, tinha os olhinhos abertos e parecia olhar para mim. Parecia, de alguma forma, culpar-me pela sua morte, apontar a mim e aos meus colegas como responsáveis por maximizar a dor dos seus pais. Parecia ter razão.

- Filhinho, perdoa papai, filhinho.
- Eu brinco com ela quebrada mesmo, papai, até o senhor poder consertar.
- Ô meu Deus, perdoa papai filhinho. Papai tinha que comprar comida.

Preciso pôr meus óculos escuros... Preciso esconder o choro... O que meus colegas vão pensar? Que tipo de jornalista sou eu? Onde o distanciamento? Onde a objetividade? Ponho a mão no bolso do paletó. Antes de retirar, lembro que os meus óculos, os que tinha ali aquela hora, não convinha usar. Ray Ban. Caros. Chamativos. Para que agredir ainda mais aquela família? Às favas com os meus colegas. Noto que dois, inclusive, conversam baixinho. Riem e apontam para mim. Uma terceira me mira como se meu choro fosse hipocrisia de político. Sinto uma certa repulsa por eles. Mas passa rápido. Não há espaço nas minhas emoções para nada além da dor que sinto por todo o quadro. Os demais colegas vão ao cemitério esperar o sepultamento. Eu fico um pouco mais com a família.

Súbito, o pai vai ao chão. Desmaia. Meu cinegrafista faz a imagem. A família carrega-o e leva-o ao posto de saúde. Pedem que não acompanhemos. Até por obrigação, imposta pelo direito da preservação do uso de imagem, obedeço. Fico feliz que meus colegas já tenham partido. Valendo-se da ignorância dos pobres, eles nunca atendem a esse tipo de pedido quando parte de um desvalido. Guardam sua reserva legal para ilustrados que conhecem a lei. Eles, ditos e diplomados jornalistas, a conhecem (alguns). Todos deveríamos fazê-lo. Reza a constituição da república que a ninguém é facultado o direito de descumprir a lei alegando ignorá-la. Todos somos obrigados a conhecer a lei. Esse é o princípio de qualquer estado de direito. Este mesmo estado onde todos deveriam ter acesso à saúde e a condições dignas de vida.

Antônio segue com a família. É medicado com ácido acetil salicílico. Há risco de infarto. Recebe também benzodiazepínicos. Precisa acalmar-se. Há risco de acidente vascular cerebral.

Sigo para o cemitério. Deixo a família ter o mínimo de privacidade. Passados 20 minutos, eles chegam para o enterro. O corpo, no caixãozinho branco, vem carregado pelos vizinhos, numa procissão pelas ruas, como no interior. Não há carros fúnebres. Não há cerimônia. Meu coração aperta ainda mais com a culpa de estar inserto numa sociedade que não me faculta oportunidades reais de mudar esta realidade, mas me obriga a contemplá-la.. O pai vem atrás de todos, carregado. Ao chegar ao cemitério, que fica no cimo de um monte, não consegue ir, de pronto, até o local onde o corpinho será enterrado. Toma água. Desmaia. Acorda. Antes, porém, que o filhinho repouse no seu jazigo perpétuo, ele chega ao caixão - o pai. Balbucia, entorpecido pela alta dosagem de diazepan, alguns sons incompreensíveis entre choros. Colegas atrasados, de jornal impresso, perguntam-se uns aos outros – a mim inclusive – se dá para extrair algum depoimento dali. Lastimo e me volto novamente para o pai. Uma frase, um fragmento, eu consigo captar; mas não revelo a eles.

- A bicicleta, filhinho, se papai pudesse... ô meu Deus, ô meu Deus.

“É gente humilde, que vontade de chorar”
Chico Buarque e Vinícius de Moraes

terça-feira, 31 de março de 2009

Saúde. Dinheiro. Cheers! Quero minha paz de volta


Precisamos brindar à saúde. Não o fazemos, eu pelo menos não. A não ser na hora errada, quando estou doente, como agora. É incrível a incapacidade que temos de perceber o que é bom antes que se acabe. Por vezes, parece que chegamos a acelerar o ocaso da satisfação para que, com a indisposição, venha junto uma vontade de partir para outra, melhorar, voltar ao estado anterior, que abandonamos voluntarimanete.

Olho os Estados Unidos. Um trilhão de dólares. Dinheirama incalculável. Tudo para emprestar a aventureiros que, subsidiados, vão comprar títulos podres de bancos para, no futuro, se tudo der certo, receberem algum lucro. Quem sabe eles voltem ao que eram. Houve um tempo em que dinheiro era dinheiro, em que a economia real superava o mundo de Alice das finanças. Foi uma mudança brusca. No começo era o escambo, a troca de produtos. O dinheiro, quando surgiu, era argila, na babilônia, mas dos chineses pra cá, lá por volta de 1000 antes de Cristo, ele passou a ter um valor real. As moedas eram de metal e tinham o seu valor nele calculado. Chega o século XIX e com ele o chamado padrão ouro. Havia que se indexar a moeda a algo real, de valor mensurável. A partir de 1944, com o Bretton-Woods, essa correspondência era de U$ 35,00 para um onça trey, cerca de 31 gramas de ouro. Tudo muito bom, tudo muito bem, até que um renomado burro, Richard Nixon, em 1971, decide romper com o padrão ouro, que já estava solidificado internacionalmente desde o pós-guerra. Surge a moeda fiduciária, sem valor real. Economia baseda, quem diria, na confiança. E como eles confiaram. (justo em Nixon, aquele mesmo do Watergate)
Muito crédito, poucos juros, eo país foi crescendo, crescendo ... Até que a bolha explodiu. Agora, a economia financeira precisa voltar ao que era. Tornar-se economia real. Aquela que os chineses instituiram há coisa de 3000 anos. E olha os chineses onde estão.
Esses dias ouvi, aqui no Brasil, falar-se do FMI como um herói, um cavaleiro andante que poderia reestabelecer a saúde global...
Lamentável. Sob dois aspectos, pelo menos. Primeiro: hoje, o FMI, com seu caixa de U$ 250 bilhões, não dá nem pro cheiro numa economia arrasada na qual, entre pacotes e mais pacotes, só os países ricos já injetaram cerca de U$ 12 trilhões para tentar minorar um prejuízo que, estipula-se, passe dos U$ 50 trilhões. Como cavaleiro andante, mal chega a um Dom Quixote em andrajos. Segundo: não queríamo stodos nos livrar do FMI? A verdade é que conhecimento acumulado é necessário. E o FMI tem conhecimento acumulado em gerir crises dos outros. Não tem tamanho para gerir a crise que aí está, mas tem Know-How.
E eu aqui, com essa dor no corpo, esses calafrios, falando de economia...
Mas é revltante ver o que os Estados Unidos fizeram com eles e com o resto do mundo de quebra. É reconfortante ver que os efeitos sobre o Brasil não são tão intensos, pelo menos ainda não. Mas também não podemos pensar que é uma marolinha, como alguns por aqui tem chamado o tsunami financeiro que está devastando o planeta.

Quero minha saúde de volta. Quero dinheiro, diversão e arte, como apregoavam os velhos e, naqueles tempos, bons Titãs. Quando estamos doentes vamos ao médico. É preciso que um especialista intervenha. Para que as finanças do mundo recuperem sua sanidade, precisaremos de especialistas, estejam eles no FMI ou no encontro do G-20.

É preciso saúde financeira. O capitalismo é uma porcaria, mas sem ele, as coisas não funcionam. Lula promete um milhão de casas construídas. Os pobres pagariam R$ 50,00 por mês e, ainda assim, só quando já estivessem sob o novo teto. Muito bem. Excelente projeto. Gera empregos, pois a construção civil o faz como poucas indústrias; dá oportunidades e combate a crise por aqui. É preciso, no entanto, que do discurso se vá à prática. Creio que a intenção, de fato é essa, mas o caminho que separa boas intenções de realizações louváveis é longo.
Hoje, no Brasil, os pobres são mais saudáveis. Têm mais dentes, comem mais vezes por dia. Saíram da miséria, em números reais do IBGE, "como nunca antes na história desse país". É verdade.

Todos querem e precisam de dinheiro, inclusive no senado, onde a farra segue. Descobriu-se que o senador Mão Santa contratou um diretor para a casa, cujo único serviço era caçar, no Piauí, um pistoleiro que atentaria contra a vida do parlamentar de discursos engraçados. Não vai na casa da república há dois anos, pelo menos. Um funcionário, que ganha seus R$ 17 mil líquidos comparou o senado brasileiro ao céu, não pelos seus santos, mas pelas suas benesses, sendo que lá a chegada independe da morte física. A morte moral, aí já são outros quinhentos. Mas quem falou em 500? No senado tudo se conta aos milhares. 10 mil funcionários para servir a 81 nababos. Salários também nesta casa. Concurso que é bom, nem edital sai. Quem não tem pistolão também quer bons salários.
Saúde financeira. Sarney disse que vai colocar a casa nos trilhos. Uma consultoria vai fazer um diagnóstico e propor soluções. Saúde institucional.

E volando à saúde financeira, a Daslu vinha recupeando a dela. Depois do vexame de 2005, quando Eliana Tranchesi foi desmascarada, a loja decaiu. ano passado, se reerguia. O faturamento, na casa das centenas de milhões, os visitantes, incluiam o chic Valentino. Mas Tranchesi foi presa este ano. Dormiu no presídio. Uma noite apenas, mas dormiu. Foi atendida por médicos de alta qualidade, lá dentro. Eles vieram de fora, éclaro. Mas a mulher tem câncer, pelo amor de Deus. Quer a saúde de volta.

Preciso deitar, tomar muita água e uns remedinhos. Fiz sorologia para Dengue. Não é. Uma virose, dizem os médicos que me atenderam voando. Mas não sei seeles têm tanta certeza do diagnóstico que me deram, pois afirmaram que, caso minhas dores não passem eu retorne depois de amanhã. Enfim... Vi dois médicos diferentes. Não porque haja um cuidado imenso por parte do hospital, mas sim por conta da demora para receber o resultado dos exames que não me diriam nada, apenas que eu tenho uma virose. Qual? "Não sei", me responde a médica, que tinha acabado de entrar no turno dela e me repetia as perguntas que deveriam estar no prontuário à frente dela, que ela não lia, provavelmente.

Sou repórter, ontém estive no Hospital Geral Roberto Santos como jornalista e vi o atendimento prestado lá aos pacientes, com ou sem Dengue e viroses. Salas de espera cheias. Espera para fazer exames. Espera para recebê-los. Hoje, no hospital particular, me senti na mesma situação. Dá vontade de virar para o plano de saúde e vociferar: quero meu dinheiro de volta.

Em São Paulo, um sisteminha criado para protegero consumidor devolve parte da saúde mental deles. é uma espécie de cadastro onde constam telefones de clientes a serem repassados para operadoras de telemarketing. O motivo? PROIBIR que elas liguem para esses números. Acabo de receber, emnquanto escrevia aqui, mais uma ligação da GVT, a oitava. A sétima foi ontem. Quero, como os paulistas, a minha paz de volta. Quem diria. Um baiano invejando a paz dos paulistas...

Agora deixa eu deitar. Quero minha saúde de volta. E tomara que a GVT não me ligue enquanto eu estiver dormindo...

segunda-feira, 30 de março de 2009

Psicopatas - "os bruxos pedem muito dinheiro para fazer a bebida com os corpos dos albinos".


Existem 60 milhões de psicopatas no mundo. quase dois milhões estão no Brasil. Um por cento do nosso mundo é composto por mentirosos, manipuladores, pessoas sem sentimentos morais como remorso e gratidão e capazes de adotar comportamentos perversos com qualquer um apenas para tornar as coisas mais fáceis para elas. A descrição se encaixa a alguém que você conhece? Sim? Ele pode ser um psicopata. No meu condomínio há 90 apartamentos. Um quarto em cada. Cerca de duas pessoas por habitação. São 180 indivíduos. Muitos têm empregados domésticos. Somando-se a esses os funcionários do edifício, devemos chegar em algo na casa dos 250 humanos. Pelo menos dois psicopatas, em termos estatísticos. Viver é perigoso, já dizia Riobaldo em Grande Sertão Veredas.
Estes dias assisti ao Fearless Vampire Killers (Destemidos matadores de vampiros), de Polanski. Quem traduziu o título, que em português aqui no Brasil é A Dança Dos Vampiros, sem dúvida deve ser um psicopata. Não consegui aproveitar o filme, no entanto, por causa de outro louco. Charles Manson. Aluguei o filme por causa da recente fotografia dele. Entre as vítimas da sua loucura, a protagonista do filme, Sharon Tate. Mulher de Polanski, ela foi morta a facadas pela turma do Helter Skelter, cuja única utilidade foi a de ter desmoralizado o movimento hippie, ao qual Manson e seus adeptos tinham a pretensão de pertencer. Com os assassinatos que comenteu pretendia acelerar o juízo final. Sharon Tate, quando morta a facadas, estava com oito meses de gravidez.
E por falar em filhotes, para a alegria dos empresários chienses, russos e noruegueses do ramo de peles, começou no Canadá a temporada de caça aos bebês-foca. É uma sangria de primavera. Os Hakapiks, bastões de madeira com ponta de ferro e gancho acoplado, criados especialmente para esmagasr o crânio, puxar os animais e arrancar suas peles, vão dizimar cerca de 338 200 filhotes em semanas. O Governo autoriza a matança sob os argumentos de que com ela controla-se a população das focas e ajuda-se a manter a existências das isoladas comunidades de caçadores. Matam-se as focas para que os loucos possam viver. Tudo muito humanitário, garante a ministra da pesca canadense Gail Shea, que conforta nossas almas ao afirmar: "é proibido tirar a pele do animal ainda vivo".
Enquanto isso, no senado da república, o suplente de Clodovil assume. Não o homossexualismo, que fique claro, mas a cadeira do falecido parlamentar. Linha dura (frise-se, mais uma vez, que não vai aqui qualquer duplo sentido), o homem que veio atrás de Clodovil é coronel da reserva. Acha que já matou cinco ou seis, não tem certeza. E avisa: quer andar armado no congresso. São 513 deputados. 81 senadores. Quase 600 humanos. Estatisticamente, seriam 6 psicopatas. Mas lembremos as características definidoras da classe (não os parlamentares - ou pelo menos não todos - mas os psicopatas), traçadas e aceitas universalmente desde os anos 90 pelo eminente psiquiatra, Dr Robert Hare. São elas as seguintes: ausência de sentimentos morais; comportamentos perversos que, na maioria dos casos, têm por finalidade apenas tornar as coisas mais fáceis para eles; metir sistematicamente e apresentar grande capacidade de manipulação. "Se flagrado fazendo algo errado, por exemplo, (o psicopata) tenta convencer todo mundo de que está sendo mal interpretado", afirma Hare. Diante diso, talvez seja o caso, pelo menos no que tange ao parlamento, de ampliar a margem estatística.
Para fechar, uma citação da secretária-geral da Fundação de Albinos da Tanzânia (sim, esta entidade realmente existe), explicando uma das razões pelas quais tantos dos sem-melanina são assassinados naquela república democrática do oriente africano: "os bruxos pedem muito dinheiro para fazer a bebida com os corpos dos albinos".

segunda-feira, 23 de março de 2009

Kant e a causa primária do humano

Folheava, esses dias, a Crítica da Razão Pura, de Immanuel Kant - obra suprema de filosofia -, quando me deparei com o seu fascinante conceito de causa primária. Muitos - eu mesmo já o fiz e ainda o faço por vezes - atribuem à idéia o poder de provar a existência de Deus. Diz Kant que a causa primária não pode ser predicada. Ela apenas é. Se ao verbo seguir-se uma predicação, há erro filosófico, vez que a causa primeira não pode ser descrita mediante atributos, que são criaturas, causados. Os atributos da causa primária não seriam sequer apreensíveis. Não quero, no entanto, usar aqui o conceito para falar de Deus e sim dos homens. Não do macro, mas do micro-cosmo psíquico. Há uma causa primária em tudo que fazemos. Uma instância supra-cognitiva acima das nossas decisões. Um motor que leva a elas. Os grandes homens, me parece, são os que conseguem sintonizar com a sua causa primária, sua força motriz. Os religiosos pensam de forma semelhante no que tange a Deus? Talvez. Mas há uma razão para que eu, pelo menos, não possa, na linha argumentativa que ora adoto, seguir o mesmo traçado. O Deus dos religiosos, sua causa primária é, necessariamente imutável, absoluto, onipresente, onisciente, onipotente. Por mais absolutos e grandiosos que sejam tais atributos, é isso, e somente isso, que eles continuam sendo: atributos.
Há, portanto, em termos de pensamento Kantiano, um equívoco nessa concepção divina. Os que pensam nesse Deus imutável o predicam como tal. Dão a ele qualidades, ainda que em grau supremo, caracteristicamente humanas - demasiado humanas.
Por isso, aqui, prefiro falar da causa primária que vai conosco. A que é nossa. Não a podemos predicar. Ela tem uma espécie de ascendência sobre nós. Seria o que muitos chamam de alma, instinto, potência? Um pouco de tudo isso? Não. É impredicável também. É o ser em si, a sua natureza íntima, verdadeiramente íntima, insondável, inclassificável.
Em nós, seres humanos, esta causa primária é mutável, ou, pelo menos, a percepção que temos dela se transforma. Por iso é tão difícil mudar, mas não impossível. Talvez o que não mude seja este núcleo duro, esta estrutura interna que confere vitalidade às ações humanas, que faz deste composto de carne, nervos, ossos e tantas outras coisas, um homem propriamente dito.
É glorioso ser humano. A questão é que poucos somos.
Há momentos na vida em que o ser humano se transforma. Ninguém o sabe, apenas ele mesmo, que se conhece em secreto. Sentir-se outro, não dizer que se sente, mas de fato sentir-se outro, é uma das mais compensadoras experiências da vida. Uma das mais árduas também. A natureza humana é conservadora. Os hisdus foram sábios ao criar a tricotomia divina, na qual a entidade suprerma reúne as facetas da criação, da conservação e da destruição. Se esta descrição cabe a algum Deus, não o sei. Não sou um filósofo abalisado de religião. No entanto, a analogia nos serve perfeitamente, enquanto humanos, para que entendamos um pouco melhor a que poderia assemelhar-se esse motor interno que, em nós, produz decisões, transformações, mudanças de rumo, ou permanência no mesmo trilho. É do homem o querer conservar-se. É também do homem o destruir e o criar. Juntos, estes dois últimos fatores resultam na transformação. Ao menos numa mudança cognitiva. Se de fato nos tornamos outro, é algo metafísico demais para que eu tente devendar. Mas nos sentimos outro. Não em relação a nossa alma, talvez, posto que não a conhecemos, mas diante de nossa manifestação palpável, nossa expressão errante no mundo.
Sentir-se outro é algo custoso. Exige essa luta ferrenha contra o mais básico instinto de preservação. Mas é a boa batalha. O resultado, invevitável, é sempre a vitória. Se nos movemos, caminhamos. Creio que nós, como o universo, nos expandimos o tempo inteiro. Caminhar, portanto, é algo que só se faz para a frente. Ainda que aparentemente em erro, se nos mexermos, sacudirmos sempre a poeira, fizermos o exercício perene de não nos contentarmos com nada menos do que mais, crecemos. Não tem para onde ser diferente.
Ser humano, verdadeiramente humano, é uma espécie de religião, etimologicamente falando. O termo religião deriva do latim Religare, significando o ato de se reconectar a algo. Só é verdadeiramente humano quem está, de algum modo, conectado com a causa primária que vive em si. Não importa se predomine na sua manifestação egóica os caracteres da conservação, da destruição ou da criação. Mas que o predominante, o alpha dog de cada um, guarde sintonia com seu horizonte de expectativas, seus desejos, suas ambições. Quem sintoniza com esse núcleo pessoal realiza - e bem - todas as funções a que se propõe.

Termino este raciocínio com duas citações que, embora aparentemente contraditórias, de alguma maneira, ao menos no meu pensar, quiçá insano, se complementam. A elas, portanto:

"A fé pode ser definida em resumo como uma crença ilógica na existência do improvável".
Henry Louis Mencken

"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim como em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.”
Fernando Pessoa, como Ricardo Reis.

Vai aqui a minha modesta leitura: para quem é tudo de si em cada coisa, o improvável, ainda que ilógico aos nossos olhos, torna-se real e tangível. É tênue a linha que nos separa do nada. Mas com muito esforço conseguimos ultrapassá-la e, enfim, nos tornarmos humanos.
A isto, subscrevo e dou fé.

sábado, 21 de março de 2009

Mudança?

Estou diante de uma encruzilhada mental inquietante. Não sei se creio na mudança das pessoas. Sei que elas se transformam, não falo disso. Mas das evoluções anunciadas, as transfigurações, verdadeiras transubstanciações de água em vinho, destas duvido. As que mais me inquietam são as propaladas publicamente. Não me causa espécie. Todo reformado parece precisar mostrar que é novo. Qual o público alvo? O mundo inteiro? Não. Há seleções, recortes. Essas mudanças são remetidas a um target preciso. Há dois destinatários. Um que interessa, justamente, por ser o público que gostaria que a pessoa não mudasse. Outro, por desejar o contrário: a transformação. É como um desafio: eu mudei, ninguém pode me fazer voltar ao que era antes. Pode você fazê-lo? E você, pode fazer que eu seja mesmo este novo ser? São estas questões, implícitas, por vezes quase explícitas, que mais me irritam, sobretudo a primeira. Qual a razão dessa hipocrisia? Na verdade, esses supostos Paulos de Tarso não enganam a quase ninguém. E nem é isso que os interessa. Sua estrada de Damasco não existe.
Lidam exatamente com o poder da propaganda enganosa. Fazem esta propaganda para vender o produto que fingem ocultar. Pretendem apenas fazer parecer que a disponibilidade deste produto - o antigo eu - tornou-se rara e, assim, aumentar o seu valor de consumo na inexorável balança comerical da oferta e da procura.
Passa-me pela cabeça que todos os partícipes desse processo, em grau mais ou menos conscientes, sabem como ele se desenrola. Ninguém é um completo iludido nesses casos. Ninguém, também, é completamente cínico. Alguns, talvez. O autor da transfomação, via de regra, sabe, quase com consciência plena que mente pelo menos para si. Os bem intencionados é possível que travem uma luta contra si mesmos para efetivar a mudança já posta como fatual. A maioria, porém, creio, usa de completa má fé. Busca lograr aos outros apenas e não a si mesmo, talvez até locupletar-se com o fruto do logro perpetrado. Geralmente, como supra-citado, há dois públicos destino para a mensagem reformadora destes Flamarions. Existe, via de regra, alguém próximo que desejaria ver a mudança efetivada. Este, o primeiro alvo. O segundo, e talvez mais importante, é o que não deseja este novo. São os consumidores do produto antigo. É para eles que estão gurdadas as delícias do indevassável passado -na verdade presente e desejoso da mais completa devassa. Interessante é que ambos, seja os desejosos da mudança ou os afeitos ao igual, percebem, ou ao menos pressentem, o imbuste. Os primeiros se revoltam ante o falso novo, vez que o notam falso. Os últimos se divertem com o que se lhes promete, posto que sabem ser a eles destinado o produto já existente. O cinismo, para esses consumidores, talvez entre até como uma espécie de bônus.
Há verdadeiras mudanças. Não duvido disto. Mas imagino que elas sejam mais raras do que nós pensamos, mesmo entre os ditos santos.E que esforço não deve ser necessário para efetivá-las.

"O Santo é um pecador que persevera"
Paramahansa Yogananda

segunda-feira, 16 de março de 2009

Carne

Este fim de semana estive num rodízio de carnes -e sushis - são todos assim hoje em dia. Havia algum tempo que não ia em um. Como sabem meus leitores, recentemente perdi coisa de 15 quilos. Lá, enquanto me saciava bem mais rápido do que desejava, lembrei-me de um dia em que fui a outro rodízio com meu irmão. Na época, éramos glutões inveterados. Passamos cerca de cinco horas na churrascaria. Contamos o que comemos. Apenas de picanha, foram mais de quarenta fatias -para cada um. Juntos, naquele dia, devemos ter engolido uns cinco quilos de carne. Lembro de quase vomitar quando me reclinei no carro, ao sentar para ligar a chave. Passei o dia seguinte sem comer nada e uns dois a mais arrotando os restos dos cadáveres daqueles suculentos retalhos bovinos, ovinos, suínos... sem falar das iguarias do mar. Posso me considerar um genocida por causa daquelas horas.

Isso me fez pensar. Caso o mundo não entre em guerra nuclear e o ser humano, mesmo que a passos lentos, continue evoluindo, daqui a cinco mil anos não imagino que se coma carne. Não abertamente, pelo menos. Via de regra, não haveriam carnívoros. Os direitos dos animais, assim como um dia os direitos humanos extinguiram a escravidão, haverão de acabar com essas delícias da mesa.

Ano de 7012. Pedro conversa com Carlos.
- Estão falando por aí que localizaram um açougue. Desativaram.
- Um o que?
- Não leu nos livros de história? Açougue...
- Sei o que é. Não acreditava nos meus ouvidos.
- Foi nas terras do norte. Eles matavam um boi por semana, isto há mais de um mês.
- E tinha quem aparecesse? Clientes?
- Sim. Muita gente pedia, mas poucos conseguiam encarar. Desistiam diante do sangue.
- Como eles comem esses mortos, meu Deus?
- Usam talheres, como na antiguidade. O dono se diz um historiador e não deixa de ser mesmo. Garfo, faca. Os pedaços dos animais eram até servidos em espetos.
- Me dá vontade de chorar.
- Não escondo a curiosidade. Não de comer, é claro. Dizem que até engorda.
- Sobrepeso?
- Sim, pessoas acima da sua média ideal. Suicidas.
- Para que transgredir tanto. É só contar as calorias. Compensar com ômegas 3, 6, 9...
- Isso não. Se é para errar, pelo menos errem com tudo.
- E o dono?
- Foi preso. Deve ser executado esta manhã. Parece que vão usar a cadeira elétrica.
- Espero que com baixa voltagem...
- Sim, com baixa voltagem...

sábado, 14 de março de 2009

A Igreja e os Freiáticos


Quando fundado na Bahia, em 1677, o Convento do Desterro, voltado às freiras devotas de Santa Clara, teve algumas características únicas que dão a ele um brilho especial de interesse nos nossos dias. Foi o primeiro mosteiro de mulheres do Brasil. Esta, no entanto, é a menor das curiosidades que envolve o convento. De altísimo luxo, o convento era voltado para as filhas dos mais ricos senhores da corte. Era diferente de qualquer instituição religiosa de que se tenha conhecimento no Brasil. Mobiliado com o que havia de mais nobre na França, ele era equipado com extravagâncias como louças de Macau, onde as freiras se deleitavam com comidas preparadas por chefs internacionais, trazidos do velho mundo para nutrir as beatas com o que havia de melhor ao tempero das mais finas especiarias indianas. No lugar dos hábitos, que se possa supor vestissem, tais religiosas trajavam o que havia de mais moderno na europa, com direito a meias de seda e vestidos de alta costura. Essas singelas esposas de Jesus faziam ainda negócios, lá mesmo, dentro do convento, onde recebiam, sem qualquer recriminação da parte dos arcebispos, seus procuradores para fechar, através destes, com os interessados que ali também tinham livre acesso, as mais variadas parcerias comerciais. Vale frisar que estas freiras eram também agiotas, emprestando dinheiro a juros, prática que levou muitos não católicos à fogueira ao longo dos séculos.
Há, porém, algo ainda mais inusitado na história dessas irmãs de fé e suas ilustres visitas. Além de negócios financeiros, elas se forniam com valores próprios dos cofres do afeto. Recebiam os chamados freiáticos, homens conhecidos por esta alcunha devido à adoração amorosa que tinham por estas mulheres casadas, teoricamente, com Cristo. E quem escolhia os visitantes eram as próprias freiras, o que podemos deduzir da frequência ao lar santo daquele que setornou imortal pelas poesias em que recrimina costumes da sua época, do seu governo e da sua igreja. Sua sim, vez que nela ocupou cargos da mais alta envergadura, todos por nomeação sem jamais pôr uma batina para isto. Falamos, é evidente, de Gregório de Mattos e Guerra. O Boca do Inferno viveu boa parte dos seus últimos 20 anos de vida, posto que morreeu em 1696, a visitar as irmãs e declarou, mais de uma vez, o seu amor por algumas delas.
Tais visitas, é de supor, tinham consequências ainda menos católicas que o lucro pecuniário, condenado pela Igreja. A suposição encontra apoio no fato de que, entre os visitantes das religiosas, encontravam-se, além de admiradores, parceiros comerciais, endividados e costureiros internacionais, alguns dos mais capacitados médicos, sobretudo cirurgiões, da corte. A maioria vinha do velho mundo. De que negócios escusos tais homens tratavam? As freiras, depois das visitas de seus cirurgiões, por vezes ficavam nas suas clausuras, repousando em camas ornadas por cetim e brocados, durante semanas em recuperação, sem poder levantar-se, para evitar hemorragias.
Curiosamente, este proceder de repouso é semelhante ao que se aplica ainda hoje às mulheres do mundo que abortam. Aquelas que a igreja, ainda hoje, condena. Os médicos que praticam esse crime aos olhos católicos não encontram, na contemporaneidade, a receptividade arcepiscopal que os cirurgiões das irmãs de Santa Clara do Desterro encontravam, tempos idos, no convento que foi alegria de tantos freiáticos.
Não há fontes seguras, mas muitas histórias dão conta de ossadas de fetos encontradas enterradas em conventos.
Imagino a cena:

Anos 80 do Século XVII. Na porta do convento, desponta aquela figura singela. Barba e bigode, terno engomado, famoso, amado e detestado, caminha lentamente, como quem deseja ser observado, o Desembargador das Relações Eclesiásticas da Bahia. Gregório de Mattos e Guerra, à época também tesoureiro-mór da Sé, nomeado por Dom Pedro II, sorri ironicamente deste mundo que o tolera. Não usava batina, como seria a praxe para portadores de postos da envergadura dos que o boca do inferno ocupava na igreja. Por isso, mais tarde, ele viria a ser destituído de seus cargos eclesiásticos pelo Arcebispo João da Madre de Deus - e sofreria ainda mais funestas consequências com o acalorar dos seus já temidos textos.
Mas naqueles dias. as portas grossas e pesadas do retiro abrem-se para ele. Vinha fazer uma visita a uma irmã católica - uma esposa do Cristo, mas amante do luxo, do dinheiro e de outras coisitas mais. O padre, que o recebe com reverência e medo, pergunta se Dom Gregório deseja ser anunciado. Ele declina, com ironia.
- Já sou esperado.
Sobe as escadas, fazendo barulho com as suas pisadas firmes. Dirige-se para a clausura, onde uma bela mulher o espera. Antes, porém, a meio caminho na escada, volta-se para o padre novamente.
- Há algo, porém, que podes fazer por mim, mocinho.
- Às suas ordens, Desembargador.
- Mande o cozinheiro preparar um faisão ao meu gosto. E o faça subir com um bom vinho tinto. mas que demore uma hora, pelo menos. Não... Duas horas, bom padre. Duas horas.
E sorrindo ainda mais segue o seu caminho, sem mais dizer, o mais ilustre dos freiáticos daquele tão luxuoso convento.

Mais tarde, denunciado aos tribunais da inquisição, deportado para Angola, contrai uma febre que o mataria em Recife. No leito de morte, lembrando talvez das esposas de empréstimo que teve em tempos idos no convento da sua triste Bahia, sente-se o próprio Cristo (que não teve esposa alguma) e coloca dois padres ao seu lado. Antes de expirar, declama sua crítica final à Igreja que conheceu tão intimamente:
- Eis que morro entre dois ladrões, como o Cristo crucificado.

quarta-feira, 11 de março de 2009

A era do falso escândalo

Já dizia Luiz Gonzaga, no seu clássico disco de entrada no estrelato, nos anos 70, sob a direção de Waaly Salomão (ou Saylormoon, como ele preferia), que "Coroné é coroné mesmo". Falava ele do fim do coronelismo. Quem imaginaria, mesmo àquela época, que um escândalo como o que hoje envolve a cúpula da PM baiana se tornaria público, verdadeiramente público, imagético, com direitoa cenas gravadas por outros policiais, os civis, e exibidas nas redes de televisão. Um material produzido por uma facção da segurança pública comprometendo a outra. A questão do desentendimento entre cúpulas pociais é irrelevante para o argumento aqui tratado: a nova esfera de visibilidade pública se vê diante de uma nascituro monstrengo: o escândalo de encomenda, que pode ser real em alguns casos, mas pode virar o ainda mais assustador falso escãndalo. As câmeras de segurança, os milhares de celulares que filmam, tiram fotos e, alguns, até editam, acabaram por criar uma nova realidade conceitual, na qual tudo que pode, deve ser divulgado. Não foi uma câmera de segurança ou um flagrante de um celular que exibiu a prisão dos coronéis. Foi uma filmagem realizada por outros agentes públicos e entregue, de bandeja, nas mãos da imprensa. Há uma nova cultura. E hoje, quase tudo pode ser mostrado. É fácil, barato, e o que vale frisar aqui, pois é a única novidade, constitui-se num novo hábito cultural. Ele funda-se nas mesntes dizendo que é preciso divulgar, sempre tornar público - mesmo que se precise criar um pouco para isso, ou supervalorizar alguma coisa, o que dá quase no mesmo. Até onde o público em si ganha com isso é algo a se questionar. A coisa pública, então, a partir do momento em que se expande e alcança quase tudo, fica indistinta e indefinível. A distância entre o público e o privado some e aparece algo que não sabemos ainda o que seja. Não são mais apenas mortes, acidentes, criminosos, mas sim uma ámálgama com tudo isso que toma a cena. Encena-se, no mundo midiático, uma opereta bufa onde todos estão sujeitos, são personagens, queiram ou não. É bem pior que o grande irmão e tem de tudo para agravar-se ainda mais e crescer exponencialmente. Além da tragédia e da divulgação de escândalos, parece se avizinhar a era dos factóides escandalosos, uma figura que apresentaria semi ou mesmo pseudo-escândalos como se os fossem de fato, apenas porque divulgar um escândalo é tão importante que fazê-lo se sobrepõe mesmo à necessidade de que esse escãndalo exista. Isso já começou a aparecer com os programas sensacinalistas, onde o factóide da morte chegou ao ponto de exibirem-se vídeos catados no you-tube como se fossem tragédias da vizinhança e onde - caso ainda pior -, mostram-se mortes reais e cotidianas, sem nenhum relevo noticioso, apenas porque são mortes, foram filmadas e podem ser exibidas. O falso escândalo parece ser o novo tipo que se desenha por aí. Já observamos seus esboços, ainda tímidos - ou nem tanto, aqui e ali. E o pior é que este tipo que se avizinha não terá potência apenas para figurar em programas de terror-notícia. Este tipo vai habitar os noticiosos nacionais, ter seu lugar entre os destaques da grande mídia. Podemos estar às portas de uma nova era midiática. Não mais a da exposição excessiva apenas, mas a do falso escândalo. E todos podem ser vítimas, ou pior, protagonistas, das peças narrativas desa nova era.

terça-feira, 10 de março de 2009

Sensacionalismo em pauta

Sensacionalismo. O termo já foi palavrão dentro das redações. Consigo, hoje, imaginar o dia em que ele figure nos manuais de determinados produtos pseudo-jornalísticos, vez que já tem lugar na pauta e na demanda da opinião pública.
Estava na fila do banco, no horário do almoço. Um rapaz me reconheceu do vídeo. Disse gostar muito do meu trabalho - faço comentários no matinal da Record, além de reportagens locais e nacionais para os jornalísticos da rede. Voltando ao rapaz, ele, que me reconheceu, fez a pergunta que me suscitou os questionamentos que ponho aqui: "E aí? Quantos morrem amanhã?"
Agora, lia um texto, no blog do meu irmão (http://www.misantropiavirtual.blogspot.com/) onde ele dá mais um exemplo. Vale conferir.
O rapaz, que me elogiou, não deu margem para dúvidas. Queria morte. É isso, infelizmente, que o povo quer na TV. É isso que se oferta hoje em dia. Imaginava-se-se, a princípio, quando surgiram os primeiros vampiros midiáticos, uma espécie de entidade que se alimenta de sangue alheio, que estes não resistiriam à luz dos holofotes por muito tempo, mas, infelizmente, tais aberrações guardam apenas a semelhança no adorar hemácias à linhagem originária pensilvênica. Ao contrário daqueles, não se resgurdam à noite para vir à tona. Explodem nas nossas caras, com jorros de sangue e saraivadas de balas, desde o raiar da manhã.
Esses dias, ouvi um colega novinho, de uma outra emissora, choromingar aos meus ouvidos que não sabia o que fazer. Me pedia ajuda. Tinha ido ao Fórum cobrir uma audiência, mas a pauta trazia uma orientação sinistra, bem específica, que ele achava difícil conseguir ali, no tribunal do júri. "Pegue o sensacionalismo da coisa". Eram essas as palavras textuais. E era uma audiência numa vara de família, o que, por lei, corre em segredo de justiça, exatamente par evitar exposição de questões pessoais. Disse a ele que ligasse para a redação e falasse que aquilo não existia. Que era impossível trabalhar sob uma tão funesta orientação, sobretudo num caso daqueles. Ele rodou para lá e para cá e não tocou no telefone. Me afastei. Não era um colega, como pensara antes. Que eles fiquem entre os seus.
Pessoas como o rapaz que me viu na fila não são mais a exceção a se lamentar, mas a regra que garante ao sensacionalismo os primeiros lugares em audiência. Não se encontra apenas na dita voz do povo ignorante a clamar por violência o desejo do terrível, do draconiano, do dantesco. Os chefes de reportagem, os pauteiros, os que pensam o jornalismo vomitam isso nas páginas, outrora sagradas, de uma pauta - orientação primeira, guia que enquadra, apruma, direciona o repórter. Sensacionalismo, eis o desejo, a direção proposta, o novo Proteu dos nossos dias.
Quando essas bestas apocalípticas, anunciadoras do fim do jornalismo como se conhece hoje, começaram a surgir, alguns anjos soaram trombetas esperançosas. Em seus cânticos, a melodia proclamava que não haveria espaço para os monstros. Nem espaço nem tempo. Seriam poucos e efêmeros. Teriam um nicho restrito de mercado. Eles, os otimistas, estavam enganados. Os primeiros seres trevosos se perpetuaram. Tornaram-se prefeitos, morreram. Mas de morte natural, dessa que se dá com o cessar do batimento cardíaco, ou do funcionamento cerebral, a depender da vertente médica. Não da morte figurada que os anjos davam a crer que expirariam quando cantaram erradamente a pedra do seu jazigo.
Metaforicamente eles vivem e se reproduzem. Andam pela terra gerando filhos e filhas. E estes vêm em ninhadas. Não têm respeito a nada nem a ninguém. Querem apenas audiência a qualquer custo. E descem o mais baixo que podem para isso. Não temem a lei, o ministério público, nada. Violam a dignidade da pessoa humana. Ignoram que estamos numa república. Cospem na Constituição Federal, chegando a desrespeitar uma das suas Cláusulas Pétreas, disposições inalteráveis para que o Estado democrático brasileiro seja vivo. E a que ignoram é a mais importante de todas: os direitos e garantias individuais.
Foram eles que deram origem ao constitucionalismo. Estão conosco desde a Lei maior das Américas, de 1787, ou da França, de 1791. No Brasil, com uma constituição democrática de pouco mais de 20 anos, vemos esse desrespeito. E feito por jornalistas. Quantos, ainda vivos, ainda ativos, lutaram, no jornalismo, sob tortura, chegando mesmo a morrer, para que tivéssemos um estado livre. É a constituição que estrutura este estado, que lhe dá organicidade e organização. Que lhe dá a liberdade, da qual esses abutres abusam com uma vilania torpe e enojante.
Se não respeitam essa lei, a lei matriz, o tronco do qual derivam todos os ramos do direito e, portando, do estado brasileiro, porque diabos levariam em consideração os valores que fundamentam o bom jornalismo?
Mas que os bons jornalistas não se rendam, pois esse pedido de sensacionalismo, feito, no caso da pauta que citei, a um colega foca - inexperiente no ramo -, ainda não é atrevidamente lançado contra os peitos de um redator mais experiente. Mas este dia há de chegar. Será o dia de dizer não. De separar o joio do trigo. "E nesse dia, haverá choro e ranger de dentes"...

segunda-feira, 9 de março de 2009

Cada um na sua praia

Maria dançava na porta de casa. Ridícula e insuportável. O som, muito alto, além de incomodar os vizinhos, chamava atenção para o desastre da coreografia que ela pensava reproduzir. Acima do peso, com roupas justas, ela, no íntimo, sabia que estava ridícula, mas queria fingir não ligar. Eu já não aguentava mais. Sei que também estou derrubado, mas, porra. Não me submeto a isso. E na varanda pô! Se pelo menos ela trabalhasse, teria menos tempo pra isso. E eu teria mais tempo sem ela. Foda-se, vou me dar meu tempo. Como meu olhar transparecia um misto de desprezo, nojo e raiva, Maria percebe e reage, como sempre, com a sutileza de um hipopótamo.

- Que foi, Miguel? Vem dançar também. Tá massa aqui na varanda. Um solzinho bom nesse domingo. Daqui a pouco a galera chama a gente pra praia. E hoje a gente vai ter que ir. Nem invente, viu?

Ainda tinha essa. A orca -porque além de gorda é bruta -, não se dava, jamais, conta de qualquer vexame. A irritação me subiu à tampa.

- Vou pro baba da turma. É em outra praia.

- Que turma, homem?

- A do trabalho. Você não conhece.

Não tinha para onde ir, mas sabia onde não iria: à praia com Maria. O tempo passa. Chega a turma, lá dela, e encontra Maria saltitando passos absurdos, suada como um bando de porcos perseguidos em dia de abate e guinchando como os que são alcançados e sangrados até a morte - rito, aliás, que ela supõe ser cantar. A vergonha, diminuída pelo hábito de passar por ela todo domingo, desta vez era aliviada ainda mais por outros dois fatores: Maria ia sozinha e eu também. Para qualquer lugar.
Sem banho, nem nada, em coisa de cinco minutos, ela entra e sai, suada como antes, desta vez exibindo o corpanzil num fio dental vermelho. Acho que cheguei a corar, mas baixei o rosto, para esconder dos outros a minha reação e, também, deixar de ver a deles, que sempre gozavam dela e, por conseqûência de mim. Marilda, a gostosinha da rua, e também a mais escrota, fazia questão de estar sempre com Maria. Se valorizava assim. Se chamavam de Mari-Mari. Bem poderiam ser a bela e a fera.

- Não vem com a gente, moço? - Disse ela, olhando para mim. Nem tá pronto...

Maria, num de seus mais desagradáveis e costumeiros hábitos, o deme interromper antes mesmo que eu comece, responde:

- Que nada, menina. Vai pro baba com os amigos. nem sei onde... Ah. Esqueci a bolsa com o bronzeador. Hoje o óleo de amêndoa vai comer no centro... Uhu... pode esperar no carro, galera.

Esse gritinho me matava. Aquilo tudo. O que me fez chegar àquele ponto? Estudei. Fiz faculdade, mas nunca consegui um emprego que prestasse. Me conformei em ser carteiro. Nunca busquei nada além. Agora, olhava aquela turma feia, naquele carro velho, gente que nunca leu nada, quem dirá escrever... A Maria então! Ô anta. Ela era como a vaga nos Correios. Uma merda, que no início parecia melhor, e agora revelava toda a sua insuficiência. Salário fudido, mulher fudida. Levanto a cabeça triste e miro o carro: um gol velho, lotado - e ainda faltava Maria -, quando percebo que a outra Mari olhava para mim de um jeito estranho, diferente. Com uma espécie de sensualidade grotesca. Mas, para quem tem Maria, era como se a Vênus de Milo me fitasse em todo seu esplendor. Ela percebe que reajo e salta do carro. Vem até mim, rebolando como quem ganha a vida assim - havia boatos, bem fundados inclusive, de que esta fosse a forma de sustento da garota: o mais antigo dos ofícios. Mas nada disso me impoprtava. Estava deslumbrado. Ela para na minha frente e pergunta:

- Onde é a praia que você vai? Tô pensando em dar um pulinho lá...

- Onde você quer que seja a praia?, respondo num rompante de coragem, aumentado significativamente pelo medo de que Maria chegasse e visse a cena. Maria aponta no corredor e a minha nova Mari fala:

- Hotel Nemésis...

- É Nêmesis -, corrijo a pronúncia, pela força do hábito de querer parecer melhor do que sou, ou, pelo menos, mais do que eles são.

- Daqui a 40 minutos. É o da esquina.

Ela responde quase ao mesmo tempo em que Maria a pega pela cintura. Mari e Mari se juntam. Só agora percebo que elas têm algo em comum. Uma vulgaridade que me atraiu em Maria, uns 20 quilos atrás, e que estava me convidando ao hotel no quilo certo hoje. Todos saem. Eu corro para tomar meu banho. Em quinze minutos estou no hotel. Paso vinte minutos pensando. Maria era legal. A culpa, talvez, fosse minha, sempre corrigindo os outros, com meus livros velhos, dos quais lia uma ou duas páginas e, com o conteúdo da orelha, humilhava aquela turma, numa guerra covarde, onde quem tem um braço e um cacete bate nos aleijados. Eu aleijei Maria. Tomo um gole de conhaque. Penso melhor. Tomo o copo todo. Os dois copos. O meu e o de Marilda. Desço do quarto, pago a conta e saio. Na esquina, encontro a outrora nova e agora já antiga Mari chegando. Mais erótica do que nunca. Não restava dúvida, se não era profissional, não era por falta de talento.

- Beleza. Chegamos juntos. Sinal de que a coisa vai ser boa. - diz ela, antecipando delícias com as quais eu pensara durate coisa de 15 minutos, até a minha chegada no hotel que deixei. - E então, tá indo pra onde? É do outro lado, rapaz.

- Não vou mais. Minha praia é outra. Decidi encontrar a galera. A Maria...

Tomo um tapa no rosto e ouço uns dois xingamentos que, de tão primevos, nem merecem ser repetidos. Ela vira de costas para ir embora. Ajeita o biquini por baixo da saída de praia. O conhaque faz mais efeito na minha cabeça. Como é gostosa.... Ah, foda-se. O hotel já está pago mesmo. Ainda tenho uma hora e poucos minutos. Mais que suficiente. Não vou durar nem 15 com ela.

-Ei, Mari. Tava brincando.Vamo lá. Já tá pago e tudo. Acha que eu ia perder essa?

Com um riso de criança ela me olha. Os olhos brilham de alegria. Chega a saltitar.

- Agora quem não quer mais sou eu. Vai trás de Maria. A sua é ela. Você, comigo, nem pagando...

A alegria dela era um lampejo de inteligência. No terreno em que dominava, o sexo, ela desvendou a minha alma. E enquanto ela se afastava, rindo agora alto, eu gritava:

- Volta, Mari, eu pago, eu pago.

domingo, 8 de março de 2009

Pares Trocados

Eis que, após tê-lo submetido ao escrutínio de abalisados analistas, vem a baila, publicamente, o meu primeiro conto. Mexi apenas no título. No mais, pensei e repensei e achei que a melhor forma é a primeira que sai. Pelo menos nesse caso,onde o texto saiu de uma sentada. Enhtão, vai aqui, de uma lapada também. Aos que tiverem paciência, boa leitura...

Pares Trocados

Não deveria ser assim, pensava ela. Por que, afinal, foram àquela terapeuta? Foi idéia dela. Não faziam sexo há mais de dois meses. Estava solitária demais. Queria uma solução para aquilo. Mas isso? Colocar outras pessoas na relação? Era excitante, ela não podia negar, mas assim, tão repentino, assustava. Casada há cerca de dez anos, sentia vontade de ter novas experiências. O marido era convencional demais. Ou ela pensava, pelo menos... O interesse imediato que ele demonstrou pela sugestão da analista a impressionou. Agora mesmo, enquanto seguiam no carro, ela olhava para o rosto dele. Um sorriso indisfarçável. Isso a irritava e animava a um só tempo. Quantas sensações novas, estranhas, conflitantes. Tudo isso mesclado a um medo de não sei que. Uma espécie de intuição, diriam alguns. Mas ela não era do tipo que acreditava nessas coisas. Súbito, a suposta intuição começa a se transformar. Aumentar exponencialmente. Se torna algo como medo. Um pavor que ela alimenta e ganha ares de pânico. O coração acelera. Ele, apesar de absorto em pensamentos devassos, sente a inquietude da mulher envolvê-lo. Olha para o lado. A última coisa de que ela se lembra é de ter tirado o cinto de segurança para respirar melhor; recorda também do rosto dele perguntando se está tudo bem. E tudo fica preto.

Ela acorda numa cadeira, a cabeça rodando. O quarto é escuro, avermelhado, à meia luz. Ao lado dela, um homem bonito, forte, sem camisa. Ela recorda dele, mas não sabe de onde. Como se lesse os pensamentos da moça – pois apesar dos 32 anos, Isabel não parecia ter mais que 23 – ele a recorda. É o Marcos. Será o rapaz que conhecemos na boate? Não lembrava disso, mas sabia que ele era o Marcos, o amante, e isso dava alguma confiança. A mente estava meio embaralhada quanto a essa outra parte, mas a Ana, certamente, deveria estar com ele. Ela sorri, meio sem jeito, mas excitada com as promessas daquela noite, que o medo irracional de há pouco no carro quase fizeram-na pôr por terra. Eles estão num motel. Mas e os outros dois? Olha para o lado e vê o marido dela e Ana na cama. O que eles fazem é sexo sem amor. Exatamente o que a terapeuta disse que era necessário. Sem afeto pelos outros. Os olhos de Isabel brilham e Marcos começa a beijá-la. Rasga as roupas dela. Mesmo empolgada, como sem dúvida estava, ela se assusta e grita. Ele, o marido, olha para ela com um ar de pavor. Está tudo bem, garante Ana, eles sabem o que estão fazendo. Ele se volta para ela mais uma vez. O outro, numa inflexão semelhante, repete, para Isabel, Está tudo bem, eles também sabem o que fazem. E os quatro, em pares trocados, voltam a se agarrar loucamente.

Depois do êxtase, Isabel resolve que é hora de recompensar o marido por aquela experiência. Quer ele, seu homem, junto com ela na cama. Na frente do outro casal A idéia a excita. Marcos, ainda ao lado de Isabel, quer a mesma coisa com Ana. Vai você primeiro. Fica com ele. Deixa que a Ana vem até mim. Já temos experiência nisso. Ela vai. Deita ao lado do marido, por trás dele. Começa a beijar-lhe as costas. Ele se volta para ela. Dá um sorriso estranho, um sorriso que ela nunca viu, um sorriso de liberdade. E a toma com ferocidade. Quanta excitação. Isabel se sente outra. Até seus pensamentos são diferentes. Tem idéias de coisas que nunca lhe ocorreram. Vilanias, infâmias sexuais, transgressões que ela jamais pensaria aceitar. Agora, as desejava. E com ele, seu marido, que, por algo de estranho, lhe parecia outro, novo, sentia com ele sensações novas. Era como se redescobrisse aquele corpo. Era o marido dela, sim, mas o que faziam juntos ali, pela primeira vez em dez anos de relação, não era amor. Era sexo. Sexo sem sentimento. Como ela fez com Marcos. Como ele fez com Ana. Súbito, ela grita. Sente um pavor muito maior do que o que sentira mais cedo. O marido a encara e dá um grito de terror. Seus olhos ficam vermelhos e ele chora. Empurra Isabel. Ela cai no chão. Volta o rosto para ele, que parece enlouquecido. Ele agora repete com Ana o que fez com ela. Mas a coitada não tem a mesma sorte. Ele é forte. Ana é leve, pequena. O pavor dele faz com que a garota seja arremessada intensamente contra a parede. A cabeça dela bate. O ruído de osso quebrado é inconfundível. O chão se inunda de vermelho. Ao lado dela, Marcos não parece tão preocupado. Ao contrário, parece em paz. Diz a ela que se acalme. Isso é assim mesmo. Ana gosta de ser dominada, maltratada. Ela merece, diz ele sorrindo. Isabel tenta mostrar a ele o tamanho do estrago, mas quando aponta para o local do sangue, não há mais nada lá. Apenas Ana, que se levanta. Parece tonta. Ele, o marido dela, sumiu. Marcos vai até Ana, que faz uma cara assustada. Ele corre até ela e tapa sua boca com uma mão. Na outra está uma mordaça que ele, como quem não domina esta arte, coloca na mulher com dificuldade. Isabel estranha. Se ele tinha esses instrumentos, não deveria ser a primeira vez que faziam isso? Ou seria? Ela está assustada. Quer ir embora. Quando ele chegar partiremos, pensa. Enquanto espera, ela assiste a Marcos fazer algo que não é amor nem sexo com Ana. Algo ainda mais animal, onde, sem dúvida há maldade. Ele a possui como um selvagem, por trás. Ela tem as mãos seguras. Está amordaçada e chora, um choro mudo, abafado. Os olhos, injetados, revelam um pavor real. A cena, que antes assustara, agora aquece a cabeça de Isabel. Eis que ele aparece, o marido. Está vestido. Parece assustado com a intensidade da coisa. Isabel, sentindo-se totalmente outra, o chama. Diz que ela gosta disso. Que ele sabia que estavam ali para isso. Ele sorri assustado, enquanto ela lhe arranca a roupa. De uma bolsa, que ela nem lembrava possuir, mas sabe agora que é dela, Isabel tira uma palmatória de couro e dá para ele. Quero que tire sangue de mim, como fez com ela. Ele a encara como um louco e diz ter coisa melhor para ela. Ela pressente o que será e sorri. Da mesma bolsa de onde saiu a palmatória, ele tira um chicote de ponta de aço, uma algema e um bastão de metal. Prende Isabel à cama, onde Ana é surrada e possuída por Marcos, e começa a fazer com ela coisas semelhantes, embora, ele, o marido, não consiga ver o outro casal. Isabel sente, naquelas sensações totalmente novas, algo de confortadora familiaridade. Uma espécie de certeza de que esta dor anularia as outras. Pensa na morte de um filho, que ela nunca teve. Num estupro, que nunca sofreu. Num atropelamento onde ela mata um senhor na estrada e não presta socorro, o que também jamais ocorre. Mas são lembranças reais. Como? Seria um delírio da dor lancinante, que, deliciosa, alivia? Ela sente o sangue jorrar pelas costas. Olha para Marcos e Ana. Ela desmaia. Ele segue para o banheiro. Olha para Isabel e o marido e sorri. Ela sorri de volta. Ele, o marido, está tão entretido na nova loucura, que parece nem perceber a presença de Marcos. Os dois sozinhos no quarto, já que Ana, desmaiada, é como se ali não estivesse, Isabel pede ao marido que pare um pouco e vá até a bolsa. Ela tem mais uma surpresa para aquela noite. Ele obedece. Àquela altura, nada mais parece chocá-lo. Mas o olhar que lança à Isabel, depois de verificar o que foi buscar, revela que ele estava enganado. Seria verdade? Ela diz que ele se acalme. Não mata. Ele, então, puxa um revólver. Prateado. As balas são de borracha, garante ela. Suficientes para dar prazer, mas não a morte. Excitado com aquele grau de loucura nunca sonhado, ele chega até ela e dá uma coronhada na cabeça. Ela geme de prazer e dor. Não, não. Quero um tiro. Um não. Dois, três. Pode esvaziar o tambor. Se afasta um pouco. Quero nas minhas costas. Nas feridas do chicote. Atira onde já tem sangue e vai parecer que é de verdade. Ele está louco. Excitado e apavorado quase até o desmaio pega a arma e cola nas costas dela. Assim não, diz ela, mostrando uma certeza que não sabe de onde vem. De tão perto não. Se afasta e atira. Não quero desmaiar. O tipo de desejo que ela sente, enquanto fala tudo isso, é diferente de tudo que já viveu na vida. Mistura a vontade animal a um pânico gigantesco que só é abafado por uma sensação de maldade para consigo mesma e para com todos maior do que tudo. O Marido se afasta. Olha para a arma, olha para ela. Pensa. Já está mesmo tudo perdido. E atira. Uma. Duas. Três vezes. Isabel tem
um orgasmo e sorri.
Mas eis que Marcos sai do banheiro. E Isabel enlouquece. Agora, ela é só pânico. Ele está com o bastão de metal na mão. Deve ter pego, quando ia ao banheiro, sem que o casal notasse. Ela grita ao marido. Avisa. Marcos está com o bastão atrás dele. Chega lentamente. Ele quer, ele vai fazer alguma coisa de terrível. Mas da sua boca não saem os sons que ela articula. O marido dela, na cadeira, com o revólver nas mãos, não ouve e parece também não ver. Apenas olha para o revólver. Confere que ainda há balas no tambor. Mais balasde verdade. Ela se move, desesperadamente. Ou pelo menos tenta. Não consegue. Mas não apenas por causa da algema. Devo ter ficado paralítica, pensa ela. Alguma das balas deve ter atingido minha coluna em algum lugar que gerou uma paralisia, ainda que temporária. Ela tenta explicar para si mesma, mas o seu pensamento é cortado com um baque. Semelhante ao que ela ouvira no empurrão que o marido dera em Ana. Mas desta vez, ele é que era a vítima. Marcos, com várias pancadas secas, abre-lhe a cabeça, como uma melancia. Tomada de pavor, ela desmaia.

Quando abre os olhos, não acredita no insólito do que assiste. Tenta se levantar, mas está sentada numa cadeira, onde tem as mãos amarradas. De frente para ela, três passos à frente, Marcos bafora um charuto, enquanto toma vinho tinto de uma taça cristalina. Oferece uma taça a Isabel, que recusa, dizendo não saber o que ele comemora. Em segundo plano, em cima da cama, a uns dois metros atrás dele, Ana chora abafado, amordaçada. Ao lado dela, ele, o marido, deitado, como morto, mas com a cabeça intacta. Seria reconfortante, não fosse pela paisagem aos pés da mesma cama. O Corpo de Ana, a mesma que está sobre a cama, com cabeça partida. A mancha de sangue, que há pouco, ela jurara ter sumido como mágica, estava ali, intacta, indelével. Ao lado, terror ainda maior. Ele, o marido, com a cabeça aberta, espatifada pelo bastão. O mesmo que, em cima da cama está inteiro, no chão se encontra partido. Os dois estão duplicados. Um terceiro corpo, de um homem desconhecido, estava ainda estendido no chão, de frente para a cena, com uma arma na mão e a cabeça perfurada por uma bala. O pior, porém, era aquele outro corpo. O dela. Com as costas perfuradas por tiros, que sem dúvida não foram de borracha. Mas o cabelo era de outra cor, mais claro que o dela. A mulher parecia maior também. O que estava acontecendo, pensa ela. O que é isso meu Deus?

Basta. Nada de Deus por aqui, grita Marcos. Ela não é você e, neste quarto, pelo menos por hoje, pode haver tudo, menos Deus. Graças a mim e a você, Isabel. Fomos nós que fizemos isso. E por vingança. Vamos, celebremos. Toma e bebe da tua taça.

Mais uma vez, ela recusa. Não quer? Paciência. Te relembrarei de tudo e, sem dúvida, beberá comigo, à nossa vitória.

Como um vídeo montado com várias imagens em seqüência, uma historinha começa a se formar na mente dela. Estavam de novo no caro. O marido olha para ela. Ela tira o cinto. O carro bate. Hospital. O corpo dela destruído numa mesa de cirurgia. Na sala ao lado, outra mesa. Outro corpo destruído. Ela reconhece Marcos. Na sala de espera, ele, o marido e ela, Ana. Os dois escaparam, ilesos, do acidente que deixou, de uma só vez, ambos, viúvos.

Eu estou aqui. Eu não Estou morta, ela grita.

Está sim, Ana. Estamos todos mortos. Agora, os quatro. Eles nos traíram. No hospital mesmo, lembra? Antes dos médicos dizerem que tínhamos morrido.

Não!, Isabel grita, como que num pedido, mas a cena é clara. As cirurgias dela e de Marcos duraram horas. Nesse tempo, Ana e Ele se conheceram. Conversaram, sorriram. De madrugada, no estacionamento do hospital, os dois trocaram o primeiro beijo e Ana, ali mesmo, enquanto o marido morria numa mesa de operações, mostrava a ele as delícia daquilo que não era amor, nem simplesmente sexo, mas animalidade.

Estávamos afastados dos nossos corpos. Não sobreviveríamos, explica Marcos. Eram nossas almas que assistiam tudo. Dentre tantas almas que vagam nos hospitais, Isabel, nós nos encontramos. Juntos vimos estas cenas no estacionamento. E elas se repetiram. E nós morremos e eles continuaram juntos. Nos enterraram num mesmo cemitério. Lado a lado. Em meio a tantas almas que sofrem num cemitério, poucas sofreram como as nossas. Víramos os dois na funerária, enquanto nossos corpos eram preparados, possuindo-se. Novamente no velório. No dia do enterro, quando todos foram embora. Eles se esconderam. Ficaram lá. Quando foi tudo trancado, fizeram aquilo, que para eles se tornou uma arte ou um culto, bem ao lado de onde jaziam os nossos corpos. Nos tornamos amantes também, do lado de cá, mas isso não os afetava. Foi quando decidimos procurar ela, a mulher que tomou os tiros em seu lugar. Ela foi nosso veículo, nosso médium. Nossas almas e a dela se tocavam. Os fluidos se misturavam. Sentíamos as sensações dela e ela as nossas. Você não sabia, mas seu marido sempre te traiu. Não foram os meses sem sexo, antes da terapeuta, como você quis pensar. Ele sempre te traiu. Não foi difícil seduzi-lo com ela, o nosso instrumento. Sabíamos do que seu marido gostava. Ele e a Ana. Seduzimos os dois. Levamos nosso instrumento à boate que eles freqüentavam. Ela já era, por si só, afeita ao sadismo, experiência que os dois devassos com os quais fôramos casados queriam experimentar. Ela e o marido dela. Este, que está no chão, com a cabeça perfurada de bala – com ele, você não se afinava. Sua alma e a dele não sintonizavam. Comigo, no entanto, o contato era perfeito. Éramos como um numa só carne.

Isso aconteceu hoje Isabel. Da boate, vieram os quatro para este motel. Sem saber que estavam conosco. A arma tinha balas de borracha. Mas ele, guiado por mim, trouxera balas verdadeiras. Queria mostrá-las, para realçar o pavor da brincadeira. Assim fiz que ele pensasse que seria. Quando você acordou aqui, Isabel, era no corpo dela, da sádica, que estava. Eu estava no corpo dele, o sádico, quando fizemos sexo. Mas você não sabia que ele estava aqui, o sádico. Nunca soube, até agora, da minha influência sobre ele. Você não queria que nós os matássemos Isabel. Apenas queria se dar a conhecer. Fazer que ele visse você, através da outra, o que aconteceu, e por isso ele se assustou quando mandei que fosse até ele. Desculpa, minha querida, mas tenho a alma mais forte que a sua. Por isso te fiz esquecer, com a ajuda do corpo da nossa sádica, cheio de álcool e drogas, foi fácil embotar seu espírito, te fazer lembrar apenas até o acidente. Agora, com ela morta, sem aquele instrumento sujo, você se lembra de tudo. Perda. Mas, não fosse assim, nada do que se passou hoje teria acontecido. Você não é uma assassina Isabel. Eu descobri que sou. Quando ele te empurrou no chão, Isabel, era a sádica que ele empurrava. Ele tinha visto o seu rosto nela e se apavorou. O sádico, sob o meu domínio, trocava as balas, enquanto tudo isso se passava entre vocês três. Quando você e Ana foi até ele, ele estava aterrorizado. Ainda te via no chão. Empurrou ela que, frágil, bateu a cabeça e morreu. Foi quando ele correu ao banheiro e eu fui até Ana. O sádico desmaiara quando viu a morte de Ana. Eram sádicos estúpidos, ele e a mulher dele, que também desmaiou. Éramos só nós quatro ali. Mesmo com ela desmaiada, você ainda permanecia ligada aos seus pensamentos, ao seu pânico, por isso não recuperou a memória naquele momento. Tinha a mente dela para carregar consigo. Uma mente bêbada e pesada. Com um estupro, um filho morto e completamente ébria, aquela alma era sufuciente para manter seu espírito adormecido, ainda esquecido. Foi quando você me viu me vingar. Torturar a Ana. Ela sabia que era eu. O corpo já morrera. Era a alma dela que via a minha. Para acordá-la tão rápido, usei parte da energia que aprendi a controlar, tanto assim, que quando saí de perto dela para o banheiro ela voltou ao sono dos que morreram de forma violenta. Mas, enquanto acordada, num instante, ela sabia tudo. Sabia que eu sabia. Que tinha visto, acompanhado. Ela sofreu e ainda sofre agora, nos seus pesadelos de morta. Que chore sua alma é o que desejo. Quando ela dorme entre nós, os mortos, a sádica acorda, entre os, até então, vivos. Da cama, onde estou com Ana, percebo. Misturo minha mente à de vocês e a faço desejar. Estou mais ali do que com Ana. Mas preciso estar em ambos os lugares, influenciando a vocês e mantendo a Ana acordada. Faço com que vocês se excitem. Sim. Também sou um celerado; queria matar; matar todos eles. É quando chega seu marido e vê a sádica: na verdade nós dois com ela, mas a nós ele não vê. A essa altura já está louco. Matou a amante por quem era apaixonado. Está com um casal estranho. Ele ainda desmaiado, o sádico. Quando ele, seu marido, é chamado por nós, embora vendo apenas a sádica a falar com ele, e lhe é oferecida a palmatória, ele paga o chicote e o bastão. Pretende matar os dois sádicos. Quando o revólver surge na história, para ele, parece um sonho. Ao saber que as balas são de borracha, pensa em atirar a queima roupa, para, assim, tentar matar mais rápido. Por isso ele pensa tanto, quando é mandado para longe, e fica olhando para a arma. Atira e as balas são de verdade. Sente-se aliviado, o covarde. Ele nunca me viu, seja na cama, seja deixando ela. Essa visão, que tanto excitou você, era apenas sua. Quando saí, fora animar o sádico, que acordou e viu a cena. Ana morta ao pé da cama, com a cabeça partida e, para completar, a sadicazinha dele também falecida com as costas crivadas de balas. Ele, o seu marido, pensava em matar o sádico naquele instante. Você tentou alertá-lo, quando viu o outro chegar, por trás, com o bastão. Mas você era e é apenas uma morta. E ele tomou as bastonadas com as quais pretendia matar o outro. O sádico, depois de matar, tomado por desespero e loucura, na certeza de que seria culpado por tudo aquilo, ou pelo menos pela parte que a ele era devida, pegou a arma e se matou. Agora, Isabel, é esperar que eles acordem do lado de cá: seu marido, Ana e os dois sádicos. Eles morreram por sua devassidão. Nós matamos por ela. No fim, você tem razão... Não temos o que brindar. Acabamos todos mortos e devassos.

sábado, 7 de março de 2009

Sob o signo da pobreza

É triste, torpe, mas habitual. Paro diante do semáforo, caminho que faço diariamente para chegar em casa, e me deparo com ele fechado. Um senhora magra, carcomida, cujos andrajos transparecem a pobreza indubitável vem a mim. No rosto, um que de dor mistura-se à certeza de que ninguém vale nada no mundo, mas - às favas! - só resta a ela pedir. Mas não pede. Ao menos, não com palavras. Bate na janela do carro e olha. A expressão que traz na face fulmina e condena quem a recebe no climatizado ambiente do carro fechado. Automaticamente, sem pensar, faço um gesto de negativa, com o dedo; depois ainda procuro, mas era verdade - não tinha dinheiro para ela - mera coincidência, eu já tinha negado antes. Observo a miserável velhinha pelo retrovisor e vejo que ela reproduz a mesma cena diante de todos os carros. Sem dizer uma palavra, simplesmente bate no vidro e lança, com a crueza do seu olhar, a pobreza para o lado de cá.
Não nos adianta enganar a nós mesmos. Estamos do outro lado! Todos nós que, diante de um computador, nos pomos a filosofar, pensar sobre a vida, o fazemos às custas de uma sociedade que fomenta a miséria, que precisa da fome alheia para viver. Para que você use o seu micro, toda uma linha de trabalhadores mal pagos, nas mais diversas partes do mundo, se esfalfam de trabalhar. A globalização permite que eles sempre ganhem pouco para que paguemos menos -ainda que muito diante do ínfimo que custou fabricar os produtos que eles jamais usarão -e possamos, assim, comprar sempre. E eles, os do chão da fábrica, olham para si mesmos e dizem que vão bem. Pois conhecem o vizinho, que mora na mesma favela - sim, eles vivem em favelas. Este vizinho não deu a mesma sorte. Está do lado de fora da indústria, implorando por um biscate nos sub-empregos das empresas de bonés, camisas. Apenas prende uma etiqueta, costura um símbolo. Pode ser um jacaré da Lacoste ou a inconfundível marquinha da Nike. Ganha, por vezes, menos de cinco dólares por dia. Este, no entanto, também se dá por contente. Ele conhece o ex-vizinho. Aquele que está no andar de baixo, na sub-favelização. O que mora nas ruas, pedindo, como a velhinha do semáforo.
Em Salvador, esta miséria nos bate no rosto. Está deflagrada uma guerra urbana, ainda contida sabe-se lá por que causas ocultas. O miserável pode arrombar o vidro, mesmo porque são muitos deles e poucos de nós. Sim. Há este eles e nós, do qual queremos fugir. É confortável viver a ilusão de que, por entendermos o fenômeno, somos menos parte dele. Não é verdade. agrava o nosso ero, a nossa lamentável inépcia, o noso descaso, que com palavras dingimos não ter, pelo próximo.
Quando os Fariseus ouviram Jesus falar dos males da ignorância sobre os valores do amor para com o próximo, a solidariedade imprescindíve para que a máquina do mundo rode bem, eles vociferaram: "acaso falas de nós, Rabi?". Ao que o Cristo respondeu de pronto que não. O caso deles era ainda pior, conforme concluiu o mestre: "Se fossem ignorantes não teriam tanto pecado".
Saber é poder. E nós sabemos. Mas o que fazemos? Sentamos e escrevemos? Abrimos as comportas da nossa mente para analisar, dissecar o cotidiano? A pobreza não vai perdoar essa postura por muito tempo. Para a sorte de egoístas como nós, os miseráveis ainda são mansos, como burros que apanham no lombo e, apesar da força que têm, não fogem nem revidam. Quando se tornarem ferozes, seremos extintos, tomaremos merecidos coices ou teremos de nos adaptar a um mundo novo.
Esta semana estive, pela primeira vez na minha vida num catveiro - isto nunca ocorrera antes nos meus 13 anos de reportagem. O quarto era quente, pequeno. Tinha apenas uma cama e a corda que revelava o terror que o sequestrado viveu, amarrado ali, encapuzado, por mais de 24 até que conseguisse fugir. A vítima era um homem pobre. Dono de um mercadinho não podia pagar o resgate. Imaginar o inferno de um pobre que é sequestrado e não tem com o que que saciar a ganância dos miseráveis é algop que, de tão distante, não vale nem a pena tentar fazer, para não cair no ridículo de supor que é possível traduzir um inferno que não se vive. Ele iria morrer, caso não escapasse. Os miseráveis estão matando os pobres. Nas guerras de gangues, disputas por bocas de fumo, eles se matam, mas não apenas entre traficantes. Para tocar o terror, matam os vizinhos. Amigos de infância. Não têm amor a ninguém. A sociedade não lhes permitiu desenvolver este sentimento, como não nos permite ser mais solidários. Para que eles amassem, seria preciso abdicar das poucas possibilidades que a brutalidade ainda facultam de libertação da miséria total; bem como para que nós fôssemos solidários seria necessário reivindicar dos nossos luxos, ou mesmo pequenos przeres, quase sempre supérfluos. Cada um com seu egoísmo e a máquina vai funcionando. A roda gira, mas gira mal. Tritura, esmaga. Hoje, os miseráveis. A nossa vez, no entanto, chegará.
Mais um registro sobre o cativeiro. Não ficava num local deserto, como vemos nos filmes. Ficava entre várias casas, de onde outros pobres ouviram, certamente, os gritos de pavor, pedidos de socorro. Das suas janelas, assistiram, pois o sequestro foi à tarde, a chegada dos bandidos, a bestialidade com a qual trataram o empresário e nada fizeram. No dia que fui ao cativeiro, acompanhado por diversos agentes policiais, eles, os vizinhos, se escondiam ao perceber a nossa aproximação. Quando chegávamos antes e conseguíamos falarcom alguém, não nos respondiam ou apenas diziam não saber do que se tratava. Os vizinhos do terror, aqueles que, diferente de nós, conhecem de perto o inferno, estes, por nada, revelam o nome do diabo. Pois em Deus, alguns ainda crêem, depositam fichas num investimento futuro. Muitos, como Nietzche, porém, acreditam que ele está morto - para eles, que sofrem, e para nós, que ignoramos este sofrimento - talvez seja verdade. Quem sabe é assim que se mata Deus? O diabo, no entanto, está vivo, sorrindo às escâncaras diante deles. E, com o canto da boca, ele já faz seus primeiros gracejos para nós.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Crueldade x Hipocrisia

Já disse um filósofo que tudo aquilo que um homem faz os outros são capazes de fazer, por mais abjeta que seja a ação e por mais nobres que sejam os homens. A crueldade é algo atávico, que está impresso no DNA do ser humano, na bagagem cultural e anímica. Em tempos de imprensa livre e de sociedade amarga, sedenta de sangue, quando morte e tortura são expostas no dia a dia dos auto-declarados noticiosos, assistir a crueldade humana deixou de ser um exercício de imaginação, feito após leitura de romances, ou mesmo uma prática visual, porém fictícia, vislumbrada em filmes de terror. Hoje, é possível ver tortura real. Seja gravada por câmeras de circuito interno de segurança, seja pelas filmadoras de pais zelosos que suspeitam – e infelizmente confirmam – ter uma babá monstro em casa. Mais do que a exposição que a sociedade digital nos revela, o que choca é o quanto de maldade vem no bojo deste nada admirável mundo novo.

Mais há algo ainda pior que a crueldade exposta, descabida, por vezes mesmo exibida como troféu por gangues de traficantes ou torcedores. A maldade que se esconde por trás do véu da hipocrisia, esta me é mais aterradora. A maldade de um amigo que, simulando sê-lo, faz da sua vida um inferno. Trai você com a sua esposa, fazendo mal a, a ela e a si mesmo e a você, e depois convida o casal para uma viagem ou um jantar; fecha as portas para você no meio profissional, enquanto diz torcer pelo seu sucesso, ainda que para isso durma com o diretor ou faça qualquer sorte de chantagem; tortura animais de rua, enquanto finge pro mundo que é uma pessoa de bem; homens públicos que arrancam braços de empregados com serra elétrica nas suas propriedades, enquanto no púlpito senatorial defendem a honradez e a virtude.

São os sepulcros caiados dos quais já falou o Cristo. Nélson Rodrigues nos lembrou, como o messias bíblico, que a maldade dos bons é mais preocupante que dos maus. Aqueles, quando a cometem, são capazes de beber sangue de criança com groselha. Odeio essas pessoas. Mas consigo também repreender a mim mesmo por gastar os meus botões pensando nelas. Se não sou delegado, advogado, juiz ou homicida – alguém que pode pensar nessas pessoas e dar-lhes o destino merecido: a cela ou a cova -, por que ocupar-me com entes tão abjetos? Quantas vezes, ao deparar-mo-nos com tais figuras no nosso habitat, principalmente quando temos o infortúnio de sermos as vítimas da sua hipocrisia, perdemos a nossa alegria, o nosso humor, o nosso viço, o que há de mais belo naquilo que em nós nos faz humanos: a paz, cujo valor é tamanho que nada nem ninguém nos deveria poder arrancar. Que as ignoremos, isso sim. Que chafurdem sós no lixo que vive em suas almas. Que se percam e se devorem, se matem em seus infernos, apodreçam na desgraça que emanam em torno de si como uma aura pútrida. São espíritos que fedem.

A vítima não deve sofrer e sim o algoz, por isso o Cristo recomendou mansidão aos aflitos, paz aos que sofrem. Que não resistíssemos ao mal. Déssemos a cara a tapa, uma duas, três vezes. É duro. Nunca consegui. Mas, pela paz vivenciada por ele que, ainda na cruz, pediu perdão para os que assim com ele procediam, sou de pensar que tal estado de espírito, por mais inalcançável que soe, deve ser perseguido como uma utopia. Uma meta referência. Um Postulado. A paz vale mais que essa corja de canalhas. E, como disse Paulo de Tarso (hoje estou bíblico), deixe a Deus a sua vingança. Pois é. Entrego essas almas a Paulo de Tarso.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Conformismo - vício de uma sociedade

Dos vícios, o pior, talvez, seja o de não ter ambições. O vício do conformismo. Este é o quase insanável defeito da sociedade brasileira. O brasileiro é um povo que acha que Deus é seu conterrâneo e, por ser compatriota do dono da bola, não precisa de méritos para participar da partida. E o pior: não há sequer a preocupação de jogar bonito. Basta estar no jogo. Sobreviver. De uma forma mais ou menos atávica, este vício está em todos nós, brasileiros, em grau mais ou menos acentuado. Vencer a indolência, a letargia, que se transveste de mansidão, para moralmente convencer a si mesma que um vício é uma virtude, não é tarefa fácil, mas precisa ser corriqueira nos que querem vencer, produzir, criar.
Por que para o viciado o vício parece sempre indispensável? Esta questão tem se abatido sobre mim, qual água em rochedo. Não consigo desenredar-me do novelo. É óbvio, aos não viciados, a não necesidade do vício alheio. Alguns são mesmo viciados em negar o vício dos outros. - os ditos intervencionistas, enxeridos de outrora. Mas ao viciado, seu vício é sem remédio e sem substituição. Em filmes e outras modalidades narrativas, é comum ver, tão fácil como Jesus fazer mudar água em vinho, um viciado em álcool fazer a substituição por sexo, por exemplo, sem qualquer síndrome de abstinência. Isso, porém, não é real.
O vício, quando instalado, dificilmente se descola da alma, pois, ao contrário do que se possa pensar, não é o corpo que se vicia. Este, apenas sofre as consequências. O delinquente é o espírito. É a alma que decai. Mas se esse pecado, esse vício, esse malfazer, for por demais duradouro, ele torna a carne fraca, mesmo que esteja pronto o espírito, o que só se dá, em grau extremado, nos mestres sagrados, como o Cristo, mas em grau menor, é o que se passa com todos.
Nossas carnes se enfraquecem graças à dolência de nossos espíritos débeis. E sofremos, muito e sempre. Olhamos para nós, vemos a carranca, o inferno de Bosch nos circunda. Ainda assim, persistimos. Somos o que somos, dizem os conformados clássicos. O homem tem seus atavismos, seus reflexos condicionados, suas adicções físicas e mentais, dizem os cientificistas, dados a uma lógica tão ou mais mesquinha que a estupidez dos beatamente conformados.
Me vêm a mente, então, as igrejas pentecostais e a sua capacidade de fazer com que as pessoas entrem em um estado de embriaguez, no qual, realmente, trocam um vício por outro. Quantos delinquentes pseudo-reformados há nos bancos dos templos. Mas os vícios antigos, de fato, eles abandonam. Às vezes, apenas enquanto estão no uso do vício maior. Como um ex-usuário de cocaína, que se torna dependente do crack. O pó de nada lhe serve, mas, caso falte a pedra, prontamente as migalhas da velha coca servirão, ou terão de servir. A recaída no vício é, por isso mesmo, via de regra, pior que o vício em si.
Por isso temo quando vejo amigos meus buscando tornar-se ambiciosos, vez que não o foram por uma vida inteira. Temo quando isso se dá comigo mais do que temo com os outros. Chamem de egoísmo, de auto-preservação. Estarão certos de qualquer maneira. Não é o nome que se dê a esse desejo que deve ser o foco. Este é um outro vício. O foco deve ser o desafio da transformação nasce como consequência da nova postura da alma, adotada ela seja lá por que razões for - egoístas ou altruístas, nunca, porém, automáticas. Vai dar trabalho!
Vencer as amarras que nos toldam, não sucumbir ante o mau hábito da auto-indulgência, são desafios esmagadores que precisamos enfrentar diariamente. Vencer o conformismo que temos, não com a vida, com o emprego, com o salário, mas conosco mesmo, com as nossas ambições, com as nossas potencialidades, este é o desafio maior. Às vezes é bom fazer um esforço e esquecer que somos brasileiros. Um povo que aceita a mediocridade de um ano com apenas dez meses, já que janeiro e fevereiro são ignorados no caledário das mudanças, pois precedem o carnaval.
Ouvi hoje de um conceituado advogado que estávamos no primeiro dia do ano. É algo a se lamentar. Será mesmo? Eu, então, aos 33 anos, teria perdido o que? À razão de dois meses por ano, nada mais nada menos que cinco anos e alguns quebrados de vida. Sem contar o conformismo praticado ao longo dos outros 27 que me sobrariam diante desta conta kafkiana. E o tempo de dormir, de comer, tomar banho? Será que não produzimos? Será que essa é a nossa realidade?
Não. E, se for, não pode ser. Mudemos. Arranquemos, mesmo que a fórceps, esta noção malajambrada de mundo das nossas entranhas. Extirpemos esse cancro.
Não à falsa modéstia, não à falsa humildade, não a esse vício mole, torpe, enfadonho. Demos um sim à vida. Vamos abrir as portas, ainda que pesadas, feitas de madeiras grossas e não trabalhadas; ainda que suas farpas perfurem as nossas mãos, ainda que sangremos. Vamos mudar essa história. Pois já se vão 500 anos de Brasil e, na conta tupiniquim que inutiliza janeiros e fevereiros, já temos um país octagenário (83 vetustos anos) perdido por conta deste cálculo bizarro que suprime da conta da vida producente o carnaval e suas prévias. Se cada um lutar e vencer a si mesmo, a sociedade brasileira se salva. Mas o preço é sangue e suor. Sem cerveja. Pelo menos não na acepção carnavalesca de Caetano.

domingo, 1 de março de 2009

Sociedade de Castas

Hoje fui almoçar em família. Eu, minha mulher, minha mãe e meu irmão mais novo. À Exceção de meu irmão, estávamos os três um pouco mais bem vestidos. Minha mãe vinha das compras, eu e minha mulher iríamos fazer as nossas depois. Meu irmão, no entanto, estava em casa, brincando comigo, antes de saírmos. Estava me aplicando alguns golpes de judô - ele batendo em mim, o que é meio humilhante, mas natural, afinal, apesar del ter apenas 12 anos e eu 33, ele é faixa cinza, quase faixa azul, além de ser do meu tamanho e, provavelmente, mais pesado que eu. Minha experiência no judô resume-se a assistir à aplicação dos golpes mais básicos e estudar suas técnicas, tudo na internet. Começo a treinar de verdade esta semana.
Voltando ao almoço, através do qual chegaremos às castas, eu, que já não tinha tomado café, fiquei assoberbado defome após o meu treino com meu irmão. Fiz ele se vestir às pressas para saírmos. Ele pegou uma camisa meio surrada da seleção brasileira, um short e um par de sandálias não lá muito novas também. Minha mãe até mandou ele vestir uma roupa melhor. Eu não concordei. Achei desnecessário. Iríamos apenas a um restaurante a quilo, razoavelmente bem frequentado, mas, ainda assim, um restaurante a quilo. Nada demais, depois voltaríamos para casa. Não julguei necessário.
Um fato, porém, omiti até agora, por tornar-se relevante apenas neste momento da narrativa. Meu irmão é negro. Adotado.
Na porta do restaurante, o porteiro, também negro, fardado, com um punhado de tíquetes na mão, liberava a entrada dos clientes entregando-lhes aquele papel onde ficam registrados os ítens consumidos, para o óbvio pagamento posterior. Quando meu irmão ia entrar, por pouco não foi barrado. O porteiro olhou para ele, pensou, repensou, e acabou percebendo que ele estava conosco e liberando a entrada. Estava tão nervoso que chegou a rasgar o papel que entregou a meu irmão. Acontece que eu não percebi nada disso acontecendo. Minha mulher me contou agora há pouco, à noite.
Que raiva senti. Pensei na sorte de eu não ter percebido. Não sorte minha, mas do atendente. Desejei ter notado, para perguntar a ele se julgava que meu irmão, por ser negro, como ele, não tinha o direito de estar ali. Senti vntade de vociferar ao funcionário que, com a sua idade, meu irmão estaria num trabalho para profissionais de nível superior, universitário. Senti raiva daquele cidadão que validava um sistema de castas no qual ele está num patamar baixo e quer destratar os que julga estarem em padrão inferior. Ele, atendente, poderia usar do seu pequeno poder para barra o acesso daquele negro mal-vestido, se porventura fosse ele uma criança pobre. É como alguns motoristas de ônibus que, em dias de chuva, propositadamente, passam por cima de poças de água e molham os pobres como ele que esperam no ponto. Senti mesmo vontade de ter notado para ...
Para o que? Colocar o atendente no lugar dele? Mostrar que, apesar de negro como ele, meu irmão pertencia a uma casta superiror e, portanto, ele lhe devia respeito? Meu Deus. Também eu estava a pensar com base no mesmo sistema de castas que levou o garçon a se comportar daquela maneira. Ele, talvez, temesse que a criança de fato estivesse sozinha, não pudesse pagar e ele, atendente, depois, viesse a ser questionado quando aquele menino não pudesse pagar ou pedisse, lá dentro, que alguém o fizesse, incomodando os membros da outra casta, inclusive, e sobretudo, o dono do restaurante, que poderia punir o atendente que, afinal de contas, está na portaria para evitar situações como esta. Para permitir aos que entram a ilusão de que lá dentro não há diferença de castas. Ou melhor, para garantir-lhes que não haja de fato. Ele está ali como um filtro social. Seu preconceito é desculpável. Ele está ali para isso.
O meu, no entanto, é imperdoável. Ao sentir a raiva do atendente, eu validava o sistema de catsas sim. Claro que a raiva veio do ato instintivo de defender os meus. Meu irmão menor, adotado, que está numa posição mais frágil. Mas o atendente também está.
No final das contas, foi bom eu não ter notado nada. Não ter dado vazão à minha raiva. Não ter feito o meu papel, pelo menos não hoje, para solidificar, validar esse inextricável, inescapável sistema opressivo de castas que rege a nossa sociedade.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Quem tem mãe não tem madrasta

Faço porque não passo,
caço.
Mato porque não corro,
morro.
E se não fosse um estouro,
estocada a dar-se em touro,
espadada em porco mouro,
usaria algo de couro,
ou ouro.
Tudo, porém, me afasta...
Ignorasse eu a nefasta
casta que me desgasta,
me daria um belo basta.
Quem tem mãe não tem madrasta!
Basta, amigos.
Hasta.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Menos 15 quilos depois

Este é o meu tempo atual. Menos 15 quilos depois. Algo como antes e depois de Cristo. Meu marco zero foi os 90 quilos, peso soberbo, estúpido para uma pessoa de apenas 1,73m de estatura. Hoje peso 75. E caindo...
Esse emagrecimento, que se deu em pouco mais de três meses, e foi, portanto, bastante perceptível, até mesmo para mim, me fez refletir sobre o que escrevo aqui agora.
Quando pensei em emagrecer, queria, como querem todos, mais saúde, uma estética melhor e, no meu caso, que trabalho no vídeo, mais oportunidades profissionais, além de menos chances de passar por ridículos cotidianos.
Hoje, 15 quilos a menos depois, percebo que o que consegui, além de tudo aquilo que almejava, é o que realmente faz a mim e a todos que emagrecem mais felizes. Não é a saúde, a estética, a sensação deleveza. Não. É algo que vem com isso e está, ao mesmo tempo, muito além. É algo mais profundo, que perpassa os anseios de todos os seres humanos e, por isso, provoca efeito tão forte.
Virei outra pessoa.
Todos precisam o tempo inteiro ser outra pessoa. Alguns fazem isso sendo gentis no trabalho e tiranos domésticos - ou vice-versa. Outros, optam por ter duas famílias, trair a mulher. Os mais convencionais satisfazem-se em tornarem-se cavaleiros medievais, em suas armaduras metalizadas de quatro (ou duas) rodas, no trânsito, gritando, fechando, xingando e até mesmo atirando nos outros.
Mas ao me olhar no espelho hoje, enquanto escolhia uma roupa quatro númerosmenor do que eu usava há apenas três meses, percebi que é possível obter a mesma satisfação - a da transformação, apenas emagrecendo. E é disso, creio, que todos, mesmo sem saber, mais gostam ao emagrecer. Tornar-se outro. Olhar no espelho e não reconhecer seu rosto. Perceber-se mais jovem. Ver as roupas antigas deixarem de servir. Ver algumas mais novas, que dois meses antes você comprou pensando "será que vai caber algum dia?" irem junto pro passado, com a arroba que se foi.
Há várias formas de ser outro. Emagrecer, no início, parece difícil. Mas o prazer de ser outro vale todo o esforço. Só temo que, depois de atingida a meta final do meu emagrecimento (que não colocarei aqui, para poder mentir que era outra inferior a ela, caso não a alcance), eu queira virar outro de novo. Desta vez, engordando. Enfim, são os riscos da vida.
Até.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Vale um conto?

Hoje escrevi um conto. Não mais um dos meus contos, mas um conto do qual gostei. É verdade que os meus "outros contos" são poucos, até porque, como deles não gostava muito, nunca dei seguimento. Esse que erscrevi hoje gostei. Uma idéia que há um tempo maturava. Conto curto, sem pretensões, mas com sua originalidade. Pretendo publicá-lo aqui, por partes. Primeiro, dependo da aprovação de algumas pessoas da minha mais alta estima. O filho se mostra primeiro à família... Farei os ajustes necessários e colocarei aqui.
Não sei de quem é a frase, me escapa agora, mas, pela primeira vez, compreendo o seu significado. Ela diz algo assim: Todo escritor só publica suas obras para se livrar delas. Não fosse assim, as revisaria e teria algo a melhorar sempre.
Ainda vou revisar e melhorar alguns pontos...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Virose

É a nova solução universal dos médicos para todos os problemas.... Virose. Antes, tempos idos, eramos examinados, fazíamos testes. Afinal, febre, dor de garganta, podem ser sintomas de muitas e muitas coisas. Mas os médicos têm uma solução mais prática:
Virose.
Hoje, doente, fui a um médico. Estava com um mal estar terrível, que já me acompanha, em um crescendo gradual, há alguns dias. Hoje se avolumou e se fez presente em forma de doença. Fiquei prostrado. Eis que fui ao médico. Relatei meus sintomas. Disse há quanto tempo me sentia assim. Que hoje estava pior um pouco e com sensação de que poderia piorar mais. Ele me passou apenas um remédio para a garganta. Um remédio desses gerais para gripes mais fortes e foi taxativo no porquê da prescrição:
"É virose. Tá atacando todo mundo. Descanse uns dois dias e fica bom. Qualquer coisa, volte."
Que tal?
C´est quand même un pêut fort, ahn?... como diriam os franceses.....
Salut

Vou descansar e torcer que a virose passe, como vento....

sábado, 31 de janeiro de 2009

In Vino Veritas. Americanos, bahh.... saudades de mestre Mencken

Henry Louis Mencken foi um dos maiores jornalistas da história desta laboriosa profissão. Viveu até os anos 50 (56, mais precisamente) e criticou política, arte, sobretudo cultura,no sentido socialmente mais amplo do termo. Foi uma glasnost, nas palavras de Paulo Francis - o nosso Mencken Brasileiro. Mencken era um mestre em radiografar sistemas, coisas, pessoase povos, mais que tudo, ainda bem, o povo americano.

Bom, vamosao vinho, ao néctar, à seiva das linhas de hoje, vez que, como já consagraram os antigos, In Vino Veritas.

Ao longo de décadas, durante as quais acompanhou o que há de mais imbecil nos Estados Unidos - seus presidentes -, Mencken pôde, como poucos, notar a fragilidade coginitiva e moral desta tíbia raça que até hoje nos domina - nós, não os Brasileiros, mas o mundo como um todo. Em alguns de seus pensamentos, essa noção fica clara.
Pensemos: como é comum hoje, para nós, terráqueos do século XXI, consumidores de cinema e seriados americanos, do Amercan-Way-Of-Life, que em tudo nos circunda - venha de Nova Iorque ou do Canindé -, como é mesmo prosaico vermos, como realidade eterna, pétrea, basal, o fato de ser in, cult, chique, un act de noblesse même, o fato de se beber vinho - tinto de preferência - seco, inevitavelmente. Na Europa é costume milenar. Nos Estados Unidos nem poderia sê-lo, pois é nação de séculos, como a nossa. Pois bem. Revela Mencken, entretanto, que o é de poucas décadas e nos mostra onde e porque está a raiz do beber vinho como "forma de ser mais" para os americanos. E, como sempre, o faz com classe e em em uma frase, onde analisa a lei seca imposta naquele basto e vasto país, nos idos de 30 e tantos. Ei-la cá:

"Antes da proibição, o povo americano bebia pouquíssimo vinho".

E depois, ainda se acha quem fale que os vinhos californianos, sempre novos, de frágil bouquet e, acima de tudo, sem personalidade, são, segundo tais cultores, melhores que alguns franceses. Eles que sonhem em se comparar aos Argentinos. Não. Uruaios e olhe lá. Isso, se não levarmos em conta a uva Tanat. Pois aí, até dos Uruguaios eles perdem...

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Claque

Vaze, case, cace.
Eu preciso de uma gaze
Pra estancar hemorragia.
Homorragia de vida,

Sangue interno de ferida,
Lá da parte escondida,
das entranhas de uma lida,
De um labor que fenecia.

Rasgue, Trague, largue.
Deixe que as coisas vêm.
E se não como convém,

Ao menos de alguma maneira...
No mais é só brincadeira,
Baque, ataque, claque.

Gabriel Pinheiro, Salvador, Bahia.
Aos 30 de janeiro de 2009, 22:05 minutos.