domingo, 8 de março de 2009

Pares Trocados

Eis que, após tê-lo submetido ao escrutínio de abalisados analistas, vem a baila, publicamente, o meu primeiro conto. Mexi apenas no título. No mais, pensei e repensei e achei que a melhor forma é a primeira que sai. Pelo menos nesse caso,onde o texto saiu de uma sentada. Enhtão, vai aqui, de uma lapada também. Aos que tiverem paciência, boa leitura...

Pares Trocados

Não deveria ser assim, pensava ela. Por que, afinal, foram àquela terapeuta? Foi idéia dela. Não faziam sexo há mais de dois meses. Estava solitária demais. Queria uma solução para aquilo. Mas isso? Colocar outras pessoas na relação? Era excitante, ela não podia negar, mas assim, tão repentino, assustava. Casada há cerca de dez anos, sentia vontade de ter novas experiências. O marido era convencional demais. Ou ela pensava, pelo menos... O interesse imediato que ele demonstrou pela sugestão da analista a impressionou. Agora mesmo, enquanto seguiam no carro, ela olhava para o rosto dele. Um sorriso indisfarçável. Isso a irritava e animava a um só tempo. Quantas sensações novas, estranhas, conflitantes. Tudo isso mesclado a um medo de não sei que. Uma espécie de intuição, diriam alguns. Mas ela não era do tipo que acreditava nessas coisas. Súbito, a suposta intuição começa a se transformar. Aumentar exponencialmente. Se torna algo como medo. Um pavor que ela alimenta e ganha ares de pânico. O coração acelera. Ele, apesar de absorto em pensamentos devassos, sente a inquietude da mulher envolvê-lo. Olha para o lado. A última coisa de que ela se lembra é de ter tirado o cinto de segurança para respirar melhor; recorda também do rosto dele perguntando se está tudo bem. E tudo fica preto.

Ela acorda numa cadeira, a cabeça rodando. O quarto é escuro, avermelhado, à meia luz. Ao lado dela, um homem bonito, forte, sem camisa. Ela recorda dele, mas não sabe de onde. Como se lesse os pensamentos da moça – pois apesar dos 32 anos, Isabel não parecia ter mais que 23 – ele a recorda. É o Marcos. Será o rapaz que conhecemos na boate? Não lembrava disso, mas sabia que ele era o Marcos, o amante, e isso dava alguma confiança. A mente estava meio embaralhada quanto a essa outra parte, mas a Ana, certamente, deveria estar com ele. Ela sorri, meio sem jeito, mas excitada com as promessas daquela noite, que o medo irracional de há pouco no carro quase fizeram-na pôr por terra. Eles estão num motel. Mas e os outros dois? Olha para o lado e vê o marido dela e Ana na cama. O que eles fazem é sexo sem amor. Exatamente o que a terapeuta disse que era necessário. Sem afeto pelos outros. Os olhos de Isabel brilham e Marcos começa a beijá-la. Rasga as roupas dela. Mesmo empolgada, como sem dúvida estava, ela se assusta e grita. Ele, o marido, olha para ela com um ar de pavor. Está tudo bem, garante Ana, eles sabem o que estão fazendo. Ele se volta para ela mais uma vez. O outro, numa inflexão semelhante, repete, para Isabel, Está tudo bem, eles também sabem o que fazem. E os quatro, em pares trocados, voltam a se agarrar loucamente.

Depois do êxtase, Isabel resolve que é hora de recompensar o marido por aquela experiência. Quer ele, seu homem, junto com ela na cama. Na frente do outro casal A idéia a excita. Marcos, ainda ao lado de Isabel, quer a mesma coisa com Ana. Vai você primeiro. Fica com ele. Deixa que a Ana vem até mim. Já temos experiência nisso. Ela vai. Deita ao lado do marido, por trás dele. Começa a beijar-lhe as costas. Ele se volta para ela. Dá um sorriso estranho, um sorriso que ela nunca viu, um sorriso de liberdade. E a toma com ferocidade. Quanta excitação. Isabel se sente outra. Até seus pensamentos são diferentes. Tem idéias de coisas que nunca lhe ocorreram. Vilanias, infâmias sexuais, transgressões que ela jamais pensaria aceitar. Agora, as desejava. E com ele, seu marido, que, por algo de estranho, lhe parecia outro, novo, sentia com ele sensações novas. Era como se redescobrisse aquele corpo. Era o marido dela, sim, mas o que faziam juntos ali, pela primeira vez em dez anos de relação, não era amor. Era sexo. Sexo sem sentimento. Como ela fez com Marcos. Como ele fez com Ana. Súbito, ela grita. Sente um pavor muito maior do que o que sentira mais cedo. O marido a encara e dá um grito de terror. Seus olhos ficam vermelhos e ele chora. Empurra Isabel. Ela cai no chão. Volta o rosto para ele, que parece enlouquecido. Ele agora repete com Ana o que fez com ela. Mas a coitada não tem a mesma sorte. Ele é forte. Ana é leve, pequena. O pavor dele faz com que a garota seja arremessada intensamente contra a parede. A cabeça dela bate. O ruído de osso quebrado é inconfundível. O chão se inunda de vermelho. Ao lado dela, Marcos não parece tão preocupado. Ao contrário, parece em paz. Diz a ela que se acalme. Isso é assim mesmo. Ana gosta de ser dominada, maltratada. Ela merece, diz ele sorrindo. Isabel tenta mostrar a ele o tamanho do estrago, mas quando aponta para o local do sangue, não há mais nada lá. Apenas Ana, que se levanta. Parece tonta. Ele, o marido dela, sumiu. Marcos vai até Ana, que faz uma cara assustada. Ele corre até ela e tapa sua boca com uma mão. Na outra está uma mordaça que ele, como quem não domina esta arte, coloca na mulher com dificuldade. Isabel estranha. Se ele tinha esses instrumentos, não deveria ser a primeira vez que faziam isso? Ou seria? Ela está assustada. Quer ir embora. Quando ele chegar partiremos, pensa. Enquanto espera, ela assiste a Marcos fazer algo que não é amor nem sexo com Ana. Algo ainda mais animal, onde, sem dúvida há maldade. Ele a possui como um selvagem, por trás. Ela tem as mãos seguras. Está amordaçada e chora, um choro mudo, abafado. Os olhos, injetados, revelam um pavor real. A cena, que antes assustara, agora aquece a cabeça de Isabel. Eis que ele aparece, o marido. Está vestido. Parece assustado com a intensidade da coisa. Isabel, sentindo-se totalmente outra, o chama. Diz que ela gosta disso. Que ele sabia que estavam ali para isso. Ele sorri assustado, enquanto ela lhe arranca a roupa. De uma bolsa, que ela nem lembrava possuir, mas sabe agora que é dela, Isabel tira uma palmatória de couro e dá para ele. Quero que tire sangue de mim, como fez com ela. Ele a encara como um louco e diz ter coisa melhor para ela. Ela pressente o que será e sorri. Da mesma bolsa de onde saiu a palmatória, ele tira um chicote de ponta de aço, uma algema e um bastão de metal. Prende Isabel à cama, onde Ana é surrada e possuída por Marcos, e começa a fazer com ela coisas semelhantes, embora, ele, o marido, não consiga ver o outro casal. Isabel sente, naquelas sensações totalmente novas, algo de confortadora familiaridade. Uma espécie de certeza de que esta dor anularia as outras. Pensa na morte de um filho, que ela nunca teve. Num estupro, que nunca sofreu. Num atropelamento onde ela mata um senhor na estrada e não presta socorro, o que também jamais ocorre. Mas são lembranças reais. Como? Seria um delírio da dor lancinante, que, deliciosa, alivia? Ela sente o sangue jorrar pelas costas. Olha para Marcos e Ana. Ela desmaia. Ele segue para o banheiro. Olha para Isabel e o marido e sorri. Ela sorri de volta. Ele, o marido, está tão entretido na nova loucura, que parece nem perceber a presença de Marcos. Os dois sozinhos no quarto, já que Ana, desmaiada, é como se ali não estivesse, Isabel pede ao marido que pare um pouco e vá até a bolsa. Ela tem mais uma surpresa para aquela noite. Ele obedece. Àquela altura, nada mais parece chocá-lo. Mas o olhar que lança à Isabel, depois de verificar o que foi buscar, revela que ele estava enganado. Seria verdade? Ela diz que ele se acalme. Não mata. Ele, então, puxa um revólver. Prateado. As balas são de borracha, garante ela. Suficientes para dar prazer, mas não a morte. Excitado com aquele grau de loucura nunca sonhado, ele chega até ela e dá uma coronhada na cabeça. Ela geme de prazer e dor. Não, não. Quero um tiro. Um não. Dois, três. Pode esvaziar o tambor. Se afasta um pouco. Quero nas minhas costas. Nas feridas do chicote. Atira onde já tem sangue e vai parecer que é de verdade. Ele está louco. Excitado e apavorado quase até o desmaio pega a arma e cola nas costas dela. Assim não, diz ela, mostrando uma certeza que não sabe de onde vem. De tão perto não. Se afasta e atira. Não quero desmaiar. O tipo de desejo que ela sente, enquanto fala tudo isso, é diferente de tudo que já viveu na vida. Mistura a vontade animal a um pânico gigantesco que só é abafado por uma sensação de maldade para consigo mesma e para com todos maior do que tudo. O Marido se afasta. Olha para a arma, olha para ela. Pensa. Já está mesmo tudo perdido. E atira. Uma. Duas. Três vezes. Isabel tem
um orgasmo e sorri.
Mas eis que Marcos sai do banheiro. E Isabel enlouquece. Agora, ela é só pânico. Ele está com o bastão de metal na mão. Deve ter pego, quando ia ao banheiro, sem que o casal notasse. Ela grita ao marido. Avisa. Marcos está com o bastão atrás dele. Chega lentamente. Ele quer, ele vai fazer alguma coisa de terrível. Mas da sua boca não saem os sons que ela articula. O marido dela, na cadeira, com o revólver nas mãos, não ouve e parece também não ver. Apenas olha para o revólver. Confere que ainda há balas no tambor. Mais balasde verdade. Ela se move, desesperadamente. Ou pelo menos tenta. Não consegue. Mas não apenas por causa da algema. Devo ter ficado paralítica, pensa ela. Alguma das balas deve ter atingido minha coluna em algum lugar que gerou uma paralisia, ainda que temporária. Ela tenta explicar para si mesma, mas o seu pensamento é cortado com um baque. Semelhante ao que ela ouvira no empurrão que o marido dera em Ana. Mas desta vez, ele é que era a vítima. Marcos, com várias pancadas secas, abre-lhe a cabeça, como uma melancia. Tomada de pavor, ela desmaia.

Quando abre os olhos, não acredita no insólito do que assiste. Tenta se levantar, mas está sentada numa cadeira, onde tem as mãos amarradas. De frente para ela, três passos à frente, Marcos bafora um charuto, enquanto toma vinho tinto de uma taça cristalina. Oferece uma taça a Isabel, que recusa, dizendo não saber o que ele comemora. Em segundo plano, em cima da cama, a uns dois metros atrás dele, Ana chora abafado, amordaçada. Ao lado dela, ele, o marido, deitado, como morto, mas com a cabeça intacta. Seria reconfortante, não fosse pela paisagem aos pés da mesma cama. O Corpo de Ana, a mesma que está sobre a cama, com cabeça partida. A mancha de sangue, que há pouco, ela jurara ter sumido como mágica, estava ali, intacta, indelével. Ao lado, terror ainda maior. Ele, o marido, com a cabeça aberta, espatifada pelo bastão. O mesmo que, em cima da cama está inteiro, no chão se encontra partido. Os dois estão duplicados. Um terceiro corpo, de um homem desconhecido, estava ainda estendido no chão, de frente para a cena, com uma arma na mão e a cabeça perfurada por uma bala. O pior, porém, era aquele outro corpo. O dela. Com as costas perfuradas por tiros, que sem dúvida não foram de borracha. Mas o cabelo era de outra cor, mais claro que o dela. A mulher parecia maior também. O que estava acontecendo, pensa ela. O que é isso meu Deus?

Basta. Nada de Deus por aqui, grita Marcos. Ela não é você e, neste quarto, pelo menos por hoje, pode haver tudo, menos Deus. Graças a mim e a você, Isabel. Fomos nós que fizemos isso. E por vingança. Vamos, celebremos. Toma e bebe da tua taça.

Mais uma vez, ela recusa. Não quer? Paciência. Te relembrarei de tudo e, sem dúvida, beberá comigo, à nossa vitória.

Como um vídeo montado com várias imagens em seqüência, uma historinha começa a se formar na mente dela. Estavam de novo no caro. O marido olha para ela. Ela tira o cinto. O carro bate. Hospital. O corpo dela destruído numa mesa de cirurgia. Na sala ao lado, outra mesa. Outro corpo destruído. Ela reconhece Marcos. Na sala de espera, ele, o marido e ela, Ana. Os dois escaparam, ilesos, do acidente que deixou, de uma só vez, ambos, viúvos.

Eu estou aqui. Eu não Estou morta, ela grita.

Está sim, Ana. Estamos todos mortos. Agora, os quatro. Eles nos traíram. No hospital mesmo, lembra? Antes dos médicos dizerem que tínhamos morrido.

Não!, Isabel grita, como que num pedido, mas a cena é clara. As cirurgias dela e de Marcos duraram horas. Nesse tempo, Ana e Ele se conheceram. Conversaram, sorriram. De madrugada, no estacionamento do hospital, os dois trocaram o primeiro beijo e Ana, ali mesmo, enquanto o marido morria numa mesa de operações, mostrava a ele as delícia daquilo que não era amor, nem simplesmente sexo, mas animalidade.

Estávamos afastados dos nossos corpos. Não sobreviveríamos, explica Marcos. Eram nossas almas que assistiam tudo. Dentre tantas almas que vagam nos hospitais, Isabel, nós nos encontramos. Juntos vimos estas cenas no estacionamento. E elas se repetiram. E nós morremos e eles continuaram juntos. Nos enterraram num mesmo cemitério. Lado a lado. Em meio a tantas almas que sofrem num cemitério, poucas sofreram como as nossas. Víramos os dois na funerária, enquanto nossos corpos eram preparados, possuindo-se. Novamente no velório. No dia do enterro, quando todos foram embora. Eles se esconderam. Ficaram lá. Quando foi tudo trancado, fizeram aquilo, que para eles se tornou uma arte ou um culto, bem ao lado de onde jaziam os nossos corpos. Nos tornamos amantes também, do lado de cá, mas isso não os afetava. Foi quando decidimos procurar ela, a mulher que tomou os tiros em seu lugar. Ela foi nosso veículo, nosso médium. Nossas almas e a dela se tocavam. Os fluidos se misturavam. Sentíamos as sensações dela e ela as nossas. Você não sabia, mas seu marido sempre te traiu. Não foram os meses sem sexo, antes da terapeuta, como você quis pensar. Ele sempre te traiu. Não foi difícil seduzi-lo com ela, o nosso instrumento. Sabíamos do que seu marido gostava. Ele e a Ana. Seduzimos os dois. Levamos nosso instrumento à boate que eles freqüentavam. Ela já era, por si só, afeita ao sadismo, experiência que os dois devassos com os quais fôramos casados queriam experimentar. Ela e o marido dela. Este, que está no chão, com a cabeça perfurada de bala – com ele, você não se afinava. Sua alma e a dele não sintonizavam. Comigo, no entanto, o contato era perfeito. Éramos como um numa só carne.

Isso aconteceu hoje Isabel. Da boate, vieram os quatro para este motel. Sem saber que estavam conosco. A arma tinha balas de borracha. Mas ele, guiado por mim, trouxera balas verdadeiras. Queria mostrá-las, para realçar o pavor da brincadeira. Assim fiz que ele pensasse que seria. Quando você acordou aqui, Isabel, era no corpo dela, da sádica, que estava. Eu estava no corpo dele, o sádico, quando fizemos sexo. Mas você não sabia que ele estava aqui, o sádico. Nunca soube, até agora, da minha influência sobre ele. Você não queria que nós os matássemos Isabel. Apenas queria se dar a conhecer. Fazer que ele visse você, através da outra, o que aconteceu, e por isso ele se assustou quando mandei que fosse até ele. Desculpa, minha querida, mas tenho a alma mais forte que a sua. Por isso te fiz esquecer, com a ajuda do corpo da nossa sádica, cheio de álcool e drogas, foi fácil embotar seu espírito, te fazer lembrar apenas até o acidente. Agora, com ela morta, sem aquele instrumento sujo, você se lembra de tudo. Perda. Mas, não fosse assim, nada do que se passou hoje teria acontecido. Você não é uma assassina Isabel. Eu descobri que sou. Quando ele te empurrou no chão, Isabel, era a sádica que ele empurrava. Ele tinha visto o seu rosto nela e se apavorou. O sádico, sob o meu domínio, trocava as balas, enquanto tudo isso se passava entre vocês três. Quando você e Ana foi até ele, ele estava aterrorizado. Ainda te via no chão. Empurrou ela que, frágil, bateu a cabeça e morreu. Foi quando ele correu ao banheiro e eu fui até Ana. O sádico desmaiara quando viu a morte de Ana. Eram sádicos estúpidos, ele e a mulher dele, que também desmaiou. Éramos só nós quatro ali. Mesmo com ela desmaiada, você ainda permanecia ligada aos seus pensamentos, ao seu pânico, por isso não recuperou a memória naquele momento. Tinha a mente dela para carregar consigo. Uma mente bêbada e pesada. Com um estupro, um filho morto e completamente ébria, aquela alma era sufuciente para manter seu espírito adormecido, ainda esquecido. Foi quando você me viu me vingar. Torturar a Ana. Ela sabia que era eu. O corpo já morrera. Era a alma dela que via a minha. Para acordá-la tão rápido, usei parte da energia que aprendi a controlar, tanto assim, que quando saí de perto dela para o banheiro ela voltou ao sono dos que morreram de forma violenta. Mas, enquanto acordada, num instante, ela sabia tudo. Sabia que eu sabia. Que tinha visto, acompanhado. Ela sofreu e ainda sofre agora, nos seus pesadelos de morta. Que chore sua alma é o que desejo. Quando ela dorme entre nós, os mortos, a sádica acorda, entre os, até então, vivos. Da cama, onde estou com Ana, percebo. Misturo minha mente à de vocês e a faço desejar. Estou mais ali do que com Ana. Mas preciso estar em ambos os lugares, influenciando a vocês e mantendo a Ana acordada. Faço com que vocês se excitem. Sim. Também sou um celerado; queria matar; matar todos eles. É quando chega seu marido e vê a sádica: na verdade nós dois com ela, mas a nós ele não vê. A essa altura já está louco. Matou a amante por quem era apaixonado. Está com um casal estranho. Ele ainda desmaiado, o sádico. Quando ele, seu marido, é chamado por nós, embora vendo apenas a sádica a falar com ele, e lhe é oferecida a palmatória, ele paga o chicote e o bastão. Pretende matar os dois sádicos. Quando o revólver surge na história, para ele, parece um sonho. Ao saber que as balas são de borracha, pensa em atirar a queima roupa, para, assim, tentar matar mais rápido. Por isso ele pensa tanto, quando é mandado para longe, e fica olhando para a arma. Atira e as balas são de verdade. Sente-se aliviado, o covarde. Ele nunca me viu, seja na cama, seja deixando ela. Essa visão, que tanto excitou você, era apenas sua. Quando saí, fora animar o sádico, que acordou e viu a cena. Ana morta ao pé da cama, com a cabeça partida e, para completar, a sadicazinha dele também falecida com as costas crivadas de balas. Ele, o seu marido, pensava em matar o sádico naquele instante. Você tentou alertá-lo, quando viu o outro chegar, por trás, com o bastão. Mas você era e é apenas uma morta. E ele tomou as bastonadas com as quais pretendia matar o outro. O sádico, depois de matar, tomado por desespero e loucura, na certeza de que seria culpado por tudo aquilo, ou pelo menos pela parte que a ele era devida, pegou a arma e se matou. Agora, Isabel, é esperar que eles acordem do lado de cá: seu marido, Ana e os dois sádicos. Eles morreram por sua devassidão. Nós matamos por ela. No fim, você tem razão... Não temos o que brindar. Acabamos todos mortos e devassos.

Um comentário:

Postador disse...

Ah, nem vou mais falar a respeito. Já falei muito.
euheuheue

Brincadeiras à parte, achei muito boa a iniciativa de ter postado o seu conto assim como o escreveu pela primeira vez.
Muito bom. A idéia é bem louca e o conto é bem complexo, cria um clima de tensão um tanto quanto kafkiana e um clima misterioso um tanto Edgar Allan Poe.
Bacana. Vamos escrevendo...bola pra frente.