sábado, 14 de março de 2009

A Igreja e os Freiáticos


Quando fundado na Bahia, em 1677, o Convento do Desterro, voltado às freiras devotas de Santa Clara, teve algumas características únicas que dão a ele um brilho especial de interesse nos nossos dias. Foi o primeiro mosteiro de mulheres do Brasil. Esta, no entanto, é a menor das curiosidades que envolve o convento. De altísimo luxo, o convento era voltado para as filhas dos mais ricos senhores da corte. Era diferente de qualquer instituição religiosa de que se tenha conhecimento no Brasil. Mobiliado com o que havia de mais nobre na França, ele era equipado com extravagâncias como louças de Macau, onde as freiras se deleitavam com comidas preparadas por chefs internacionais, trazidos do velho mundo para nutrir as beatas com o que havia de melhor ao tempero das mais finas especiarias indianas. No lugar dos hábitos, que se possa supor vestissem, tais religiosas trajavam o que havia de mais moderno na europa, com direito a meias de seda e vestidos de alta costura. Essas singelas esposas de Jesus faziam ainda negócios, lá mesmo, dentro do convento, onde recebiam, sem qualquer recriminação da parte dos arcebispos, seus procuradores para fechar, através destes, com os interessados que ali também tinham livre acesso, as mais variadas parcerias comerciais. Vale frisar que estas freiras eram também agiotas, emprestando dinheiro a juros, prática que levou muitos não católicos à fogueira ao longo dos séculos.
Há, porém, algo ainda mais inusitado na história dessas irmãs de fé e suas ilustres visitas. Além de negócios financeiros, elas se forniam com valores próprios dos cofres do afeto. Recebiam os chamados freiáticos, homens conhecidos por esta alcunha devido à adoração amorosa que tinham por estas mulheres casadas, teoricamente, com Cristo. E quem escolhia os visitantes eram as próprias freiras, o que podemos deduzir da frequência ao lar santo daquele que setornou imortal pelas poesias em que recrimina costumes da sua época, do seu governo e da sua igreja. Sua sim, vez que nela ocupou cargos da mais alta envergadura, todos por nomeação sem jamais pôr uma batina para isto. Falamos, é evidente, de Gregório de Mattos e Guerra. O Boca do Inferno viveu boa parte dos seus últimos 20 anos de vida, posto que morreeu em 1696, a visitar as irmãs e declarou, mais de uma vez, o seu amor por algumas delas.
Tais visitas, é de supor, tinham consequências ainda menos católicas que o lucro pecuniário, condenado pela Igreja. A suposição encontra apoio no fato de que, entre os visitantes das religiosas, encontravam-se, além de admiradores, parceiros comerciais, endividados e costureiros internacionais, alguns dos mais capacitados médicos, sobretudo cirurgiões, da corte. A maioria vinha do velho mundo. De que negócios escusos tais homens tratavam? As freiras, depois das visitas de seus cirurgiões, por vezes ficavam nas suas clausuras, repousando em camas ornadas por cetim e brocados, durante semanas em recuperação, sem poder levantar-se, para evitar hemorragias.
Curiosamente, este proceder de repouso é semelhante ao que se aplica ainda hoje às mulheres do mundo que abortam. Aquelas que a igreja, ainda hoje, condena. Os médicos que praticam esse crime aos olhos católicos não encontram, na contemporaneidade, a receptividade arcepiscopal que os cirurgiões das irmãs de Santa Clara do Desterro encontravam, tempos idos, no convento que foi alegria de tantos freiáticos.
Não há fontes seguras, mas muitas histórias dão conta de ossadas de fetos encontradas enterradas em conventos.
Imagino a cena:

Anos 80 do Século XVII. Na porta do convento, desponta aquela figura singela. Barba e bigode, terno engomado, famoso, amado e detestado, caminha lentamente, como quem deseja ser observado, o Desembargador das Relações Eclesiásticas da Bahia. Gregório de Mattos e Guerra, à época também tesoureiro-mór da Sé, nomeado por Dom Pedro II, sorri ironicamente deste mundo que o tolera. Não usava batina, como seria a praxe para portadores de postos da envergadura dos que o boca do inferno ocupava na igreja. Por isso, mais tarde, ele viria a ser destituído de seus cargos eclesiásticos pelo Arcebispo João da Madre de Deus - e sofreria ainda mais funestas consequências com o acalorar dos seus já temidos textos.
Mas naqueles dias. as portas grossas e pesadas do retiro abrem-se para ele. Vinha fazer uma visita a uma irmã católica - uma esposa do Cristo, mas amante do luxo, do dinheiro e de outras coisitas mais. O padre, que o recebe com reverência e medo, pergunta se Dom Gregório deseja ser anunciado. Ele declina, com ironia.
- Já sou esperado.
Sobe as escadas, fazendo barulho com as suas pisadas firmes. Dirige-se para a clausura, onde uma bela mulher o espera. Antes, porém, a meio caminho na escada, volta-se para o padre novamente.
- Há algo, porém, que podes fazer por mim, mocinho.
- Às suas ordens, Desembargador.
- Mande o cozinheiro preparar um faisão ao meu gosto. E o faça subir com um bom vinho tinto. mas que demore uma hora, pelo menos. Não... Duas horas, bom padre. Duas horas.
E sorrindo ainda mais segue o seu caminho, sem mais dizer, o mais ilustre dos freiáticos daquele tão luxuoso convento.

Mais tarde, denunciado aos tribunais da inquisição, deportado para Angola, contrai uma febre que o mataria em Recife. No leito de morte, lembrando talvez das esposas de empréstimo que teve em tempos idos no convento da sua triste Bahia, sente-se o próprio Cristo (que não teve esposa alguma) e coloca dois padres ao seu lado. Antes de expirar, declama sua crítica final à Igreja que conheceu tão intimamente:
- Eis que morro entre dois ladrões, como o Cristo crucificado.

4 comentários:

Shê! disse...

"Gostei", bom, essa não seria a palavra correta, mas folgo pelo conhecimento de mais um dos fatos relacionados à lama histórica da Igreja. Mesmo que não exista comprovação, as fortes evidências são inegáveis. E igualmente, lamentáveis.

Abraços.

Shê! disse...

Ah, quanto ao "Boca do Inferno", nem imaginava que sua relação com a Igreja fosse tão próxima assim, sabia apenas de sua leitura crítica e ácida acerca da hipocrisia da sociedade baiana e eclesiática daqueles tempos, através de seus textos.

Sheila.

Ângelo disse...

Interessante.
Jamais imaginei existir tamanho absurdo.
Absurdos sempre soube que a igreja tinha aos montes e, creio eu, caso futuquemos mais um pouco acharemos coisa ainda mais terrível.

Bom texto, gostei bastante.
Bem a caráter da época de excomunhão de médicos, infantes mães estupradas e parentes que consentem.

Mais uma vez eu, sim eu, no meu direito, não de cristão mas de humano, não de arcebispo mas de pessoa correta e contra a hipocrisia e o lixo perpetrado pela mesma, excomungo a Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana.

Amém

carmen disse...

Olá,
Fiquei intrigada com tudo isso, pois tantas coisas não sabia.
Fiquei curiosa para saber onde encontrastes estas informações?
Tudo isso faz parte da nossa história.