segunda-feira, 23 de março de 2009

Kant e a causa primária do humano

Folheava, esses dias, a Crítica da Razão Pura, de Immanuel Kant - obra suprema de filosofia -, quando me deparei com o seu fascinante conceito de causa primária. Muitos - eu mesmo já o fiz e ainda o faço por vezes - atribuem à idéia o poder de provar a existência de Deus. Diz Kant que a causa primária não pode ser predicada. Ela apenas é. Se ao verbo seguir-se uma predicação, há erro filosófico, vez que a causa primeira não pode ser descrita mediante atributos, que são criaturas, causados. Os atributos da causa primária não seriam sequer apreensíveis. Não quero, no entanto, usar aqui o conceito para falar de Deus e sim dos homens. Não do macro, mas do micro-cosmo psíquico. Há uma causa primária em tudo que fazemos. Uma instância supra-cognitiva acima das nossas decisões. Um motor que leva a elas. Os grandes homens, me parece, são os que conseguem sintonizar com a sua causa primária, sua força motriz. Os religiosos pensam de forma semelhante no que tange a Deus? Talvez. Mas há uma razão para que eu, pelo menos, não possa, na linha argumentativa que ora adoto, seguir o mesmo traçado. O Deus dos religiosos, sua causa primária é, necessariamente imutável, absoluto, onipresente, onisciente, onipotente. Por mais absolutos e grandiosos que sejam tais atributos, é isso, e somente isso, que eles continuam sendo: atributos.
Há, portanto, em termos de pensamento Kantiano, um equívoco nessa concepção divina. Os que pensam nesse Deus imutável o predicam como tal. Dão a ele qualidades, ainda que em grau supremo, caracteristicamente humanas - demasiado humanas.
Por isso, aqui, prefiro falar da causa primária que vai conosco. A que é nossa. Não a podemos predicar. Ela tem uma espécie de ascendência sobre nós. Seria o que muitos chamam de alma, instinto, potência? Um pouco de tudo isso? Não. É impredicável também. É o ser em si, a sua natureza íntima, verdadeiramente íntima, insondável, inclassificável.
Em nós, seres humanos, esta causa primária é mutável, ou, pelo menos, a percepção que temos dela se transforma. Por iso é tão difícil mudar, mas não impossível. Talvez o que não mude seja este núcleo duro, esta estrutura interna que confere vitalidade às ações humanas, que faz deste composto de carne, nervos, ossos e tantas outras coisas, um homem propriamente dito.
É glorioso ser humano. A questão é que poucos somos.
Há momentos na vida em que o ser humano se transforma. Ninguém o sabe, apenas ele mesmo, que se conhece em secreto. Sentir-se outro, não dizer que se sente, mas de fato sentir-se outro, é uma das mais compensadoras experiências da vida. Uma das mais árduas também. A natureza humana é conservadora. Os hisdus foram sábios ao criar a tricotomia divina, na qual a entidade suprerma reúne as facetas da criação, da conservação e da destruição. Se esta descrição cabe a algum Deus, não o sei. Não sou um filósofo abalisado de religião. No entanto, a analogia nos serve perfeitamente, enquanto humanos, para que entendamos um pouco melhor a que poderia assemelhar-se esse motor interno que, em nós, produz decisões, transformações, mudanças de rumo, ou permanência no mesmo trilho. É do homem o querer conservar-se. É também do homem o destruir e o criar. Juntos, estes dois últimos fatores resultam na transformação. Ao menos numa mudança cognitiva. Se de fato nos tornamos outro, é algo metafísico demais para que eu tente devendar. Mas nos sentimos outro. Não em relação a nossa alma, talvez, posto que não a conhecemos, mas diante de nossa manifestação palpável, nossa expressão errante no mundo.
Sentir-se outro é algo custoso. Exige essa luta ferrenha contra o mais básico instinto de preservação. Mas é a boa batalha. O resultado, invevitável, é sempre a vitória. Se nos movemos, caminhamos. Creio que nós, como o universo, nos expandimos o tempo inteiro. Caminhar, portanto, é algo que só se faz para a frente. Ainda que aparentemente em erro, se nos mexermos, sacudirmos sempre a poeira, fizermos o exercício perene de não nos contentarmos com nada menos do que mais, crecemos. Não tem para onde ser diferente.
Ser humano, verdadeiramente humano, é uma espécie de religião, etimologicamente falando. O termo religião deriva do latim Religare, significando o ato de se reconectar a algo. Só é verdadeiramente humano quem está, de algum modo, conectado com a causa primária que vive em si. Não importa se predomine na sua manifestação egóica os caracteres da conservação, da destruição ou da criação. Mas que o predominante, o alpha dog de cada um, guarde sintonia com seu horizonte de expectativas, seus desejos, suas ambições. Quem sintoniza com esse núcleo pessoal realiza - e bem - todas as funções a que se propõe.

Termino este raciocínio com duas citações que, embora aparentemente contraditórias, de alguma maneira, ao menos no meu pensar, quiçá insano, se complementam. A elas, portanto:

"A fé pode ser definida em resumo como uma crença ilógica na existência do improvável".
Henry Louis Mencken

"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim como em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.”
Fernando Pessoa, como Ricardo Reis.

Vai aqui a minha modesta leitura: para quem é tudo de si em cada coisa, o improvável, ainda que ilógico aos nossos olhos, torna-se real e tangível. É tênue a linha que nos separa do nada. Mas com muito esforço conseguimos ultrapassá-la e, enfim, nos tornarmos humanos.
A isto, subscrevo e dou fé.

3 comentários:

Ângelo disse...

Kant é realmente fodebástico.
Bom, passado esse arroubo de fanatismo filosófico, vamos ao meu pensamento acerca do texto:

Extremamente profundo esse conceito de "religare" para a reconexão do homem com a própria humanidade.

Realmente seria fantástico se todos conseguíssemos essa "reconexão" com nossa matriz humana. Considero muito utópica a religação com Deus para pessoas que não se reconectam consigo mesmas.
Kant é muito genial, o texto tá denso, os que não entendem de filosofia podem se morder um pouquinho e acharem que o conceito de "causa primária" desquelifica Deus, não estranhe se algum evagélico achar o seu texto "endemoninhado". Fantástico, pois despe a humanidade dessa burrice de se achar tão superior que só aceita que Deus nos tenha criado "sua imagem e semelhança". Como se não existia antes dele nem sequer o conceite de imagem, quanto mais de semelhança.

Gostei bastante, denso porém inteligível...me botou tanto pra pensar que passei dois dias pra comentar e ainda acho que me comentário está deixando a desejar.

Grande abraço

Shê! disse...

Caramba! Seu texto me fez lembrar do conceito de 'Real' do Lacan, da 'Autenticidade' de Kiekergarrg...enfim, coisas de Kant, ele sempre faz isso, assanha uma enorme rede de reminiscências...adorei.
Abraços.

Shê! disse...

Ops, Kierkergaard***