segunda-feira, 2 de março de 2009

Conformismo - vício de uma sociedade

Dos vícios, o pior, talvez, seja o de não ter ambições. O vício do conformismo. Este é o quase insanável defeito da sociedade brasileira. O brasileiro é um povo que acha que Deus é seu conterrâneo e, por ser compatriota do dono da bola, não precisa de méritos para participar da partida. E o pior: não há sequer a preocupação de jogar bonito. Basta estar no jogo. Sobreviver. De uma forma mais ou menos atávica, este vício está em todos nós, brasileiros, em grau mais ou menos acentuado. Vencer a indolência, a letargia, que se transveste de mansidão, para moralmente convencer a si mesma que um vício é uma virtude, não é tarefa fácil, mas precisa ser corriqueira nos que querem vencer, produzir, criar.
Por que para o viciado o vício parece sempre indispensável? Esta questão tem se abatido sobre mim, qual água em rochedo. Não consigo desenredar-me do novelo. É óbvio, aos não viciados, a não necesidade do vício alheio. Alguns são mesmo viciados em negar o vício dos outros. - os ditos intervencionistas, enxeridos de outrora. Mas ao viciado, seu vício é sem remédio e sem substituição. Em filmes e outras modalidades narrativas, é comum ver, tão fácil como Jesus fazer mudar água em vinho, um viciado em álcool fazer a substituição por sexo, por exemplo, sem qualquer síndrome de abstinência. Isso, porém, não é real.
O vício, quando instalado, dificilmente se descola da alma, pois, ao contrário do que se possa pensar, não é o corpo que se vicia. Este, apenas sofre as consequências. O delinquente é o espírito. É a alma que decai. Mas se esse pecado, esse vício, esse malfazer, for por demais duradouro, ele torna a carne fraca, mesmo que esteja pronto o espírito, o que só se dá, em grau extremado, nos mestres sagrados, como o Cristo, mas em grau menor, é o que se passa com todos.
Nossas carnes se enfraquecem graças à dolência de nossos espíritos débeis. E sofremos, muito e sempre. Olhamos para nós, vemos a carranca, o inferno de Bosch nos circunda. Ainda assim, persistimos. Somos o que somos, dizem os conformados clássicos. O homem tem seus atavismos, seus reflexos condicionados, suas adicções físicas e mentais, dizem os cientificistas, dados a uma lógica tão ou mais mesquinha que a estupidez dos beatamente conformados.
Me vêm a mente, então, as igrejas pentecostais e a sua capacidade de fazer com que as pessoas entrem em um estado de embriaguez, no qual, realmente, trocam um vício por outro. Quantos delinquentes pseudo-reformados há nos bancos dos templos. Mas os vícios antigos, de fato, eles abandonam. Às vezes, apenas enquanto estão no uso do vício maior. Como um ex-usuário de cocaína, que se torna dependente do crack. O pó de nada lhe serve, mas, caso falte a pedra, prontamente as migalhas da velha coca servirão, ou terão de servir. A recaída no vício é, por isso mesmo, via de regra, pior que o vício em si.
Por isso temo quando vejo amigos meus buscando tornar-se ambiciosos, vez que não o foram por uma vida inteira. Temo quando isso se dá comigo mais do que temo com os outros. Chamem de egoísmo, de auto-preservação. Estarão certos de qualquer maneira. Não é o nome que se dê a esse desejo que deve ser o foco. Este é um outro vício. O foco deve ser o desafio da transformação nasce como consequência da nova postura da alma, adotada ela seja lá por que razões for - egoístas ou altruístas, nunca, porém, automáticas. Vai dar trabalho!
Vencer as amarras que nos toldam, não sucumbir ante o mau hábito da auto-indulgência, são desafios esmagadores que precisamos enfrentar diariamente. Vencer o conformismo que temos, não com a vida, com o emprego, com o salário, mas conosco mesmo, com as nossas ambições, com as nossas potencialidades, este é o desafio maior. Às vezes é bom fazer um esforço e esquecer que somos brasileiros. Um povo que aceita a mediocridade de um ano com apenas dez meses, já que janeiro e fevereiro são ignorados no caledário das mudanças, pois precedem o carnaval.
Ouvi hoje de um conceituado advogado que estávamos no primeiro dia do ano. É algo a se lamentar. Será mesmo? Eu, então, aos 33 anos, teria perdido o que? À razão de dois meses por ano, nada mais nada menos que cinco anos e alguns quebrados de vida. Sem contar o conformismo praticado ao longo dos outros 27 que me sobrariam diante desta conta kafkiana. E o tempo de dormir, de comer, tomar banho? Será que não produzimos? Será que essa é a nossa realidade?
Não. E, se for, não pode ser. Mudemos. Arranquemos, mesmo que a fórceps, esta noção malajambrada de mundo das nossas entranhas. Extirpemos esse cancro.
Não à falsa modéstia, não à falsa humildade, não a esse vício mole, torpe, enfadonho. Demos um sim à vida. Vamos abrir as portas, ainda que pesadas, feitas de madeiras grossas e não trabalhadas; ainda que suas farpas perfurem as nossas mãos, ainda que sangremos. Vamos mudar essa história. Pois já se vão 500 anos de Brasil e, na conta tupiniquim que inutiliza janeiros e fevereiros, já temos um país octagenário (83 vetustos anos) perdido por conta deste cálculo bizarro que suprime da conta da vida producente o carnaval e suas prévias. Se cada um lutar e vencer a si mesmo, a sociedade brasileira se salva. Mas o preço é sangue e suor. Sem cerveja. Pelo menos não na acepção carnavalesca de Caetano.

Um comentário:

Postador disse...

Oh Deus. É realmente lastimável essa conversa babaca de que o ano começa hoje.
Ouvi isso também de gente conceituada, a qual prefiro não citar, porém em contexto diferente. Essa pessoa que me disse isso, falou-me com indignação, porém assentindo que é realmente assim que acontece. Fiquei chocado. Chocado o suficiente pra não responder nada. Queria protestar, queria gritar, mas só saiu de mim o silêncio. Que uns dizem ser, às vezes, a melhor resposta, a despeito de outros que o encaram como consentimento.
Consentimento ou resposta genial, foi a que me coube.

Dos vícios, caro irmão, talvez o pior seja o carnaval, que, tal e qual uma guerra, move uma massa de manobra em busca de um interesse maior, totalmente alheio a ela - em interesse e, supinamente, em lucros finais. Uma massa de manobra que veste-se de conformismo para aceitar que uma festa onde a elite desfila em blocos milionários para ser assistida pela própria elite em camarotes que se assemelham às velhas arquibancadas do coliseu.

O povo, este tem o papel dos judeus lançados aos leões, dos próprios leões, que devoram esses metafóricos judeus a socos, pontapés e garrafadas à guisa de bocadas.

Esse espetáculo finda-se, é claro, onde incia-se o seu texto, com o conformismo estúpido de acatar que os poucos espaços que sobram para que, espremidos em cantinhos desprivilegiadíssimos, assistam a esse pão e circo - sem pão - faça a "maior festa popular do mundo".

Deplorável, deplorável.