quarta-feira, 11 de março de 2009
A era do falso escândalo
Já dizia Luiz Gonzaga, no seu clássico disco de entrada no estrelato, nos anos 70, sob a direção de Waaly Salomão (ou Saylormoon, como ele preferia), que "Coroné é coroné mesmo". Falava ele do fim do coronelismo. Quem imaginaria, mesmo àquela época, que um escândalo como o que hoje envolve a cúpula da PM baiana se tornaria público, verdadeiramente público, imagético, com direitoa cenas gravadas por outros policiais, os civis, e exibidas nas redes de televisão. Um material produzido por uma facção da segurança pública comprometendo a outra. A questão do desentendimento entre cúpulas pociais é irrelevante para o argumento aqui tratado: a nova esfera de visibilidade pública se vê diante de uma nascituro monstrengo: o escândalo de encomenda, que pode ser real em alguns casos, mas pode virar o ainda mais assustador falso escãndalo. As câmeras de segurança, os milhares de celulares que filmam, tiram fotos e, alguns, até editam, acabaram por criar uma nova realidade conceitual, na qual tudo que pode, deve ser divulgado. Não foi uma câmera de segurança ou um flagrante de um celular que exibiu a prisão dos coronéis. Foi uma filmagem realizada por outros agentes públicos e entregue, de bandeja, nas mãos da imprensa. Há uma nova cultura. E hoje, quase tudo pode ser mostrado. É fácil, barato, e o que vale frisar aqui, pois é a única novidade, constitui-se num novo hábito cultural. Ele funda-se nas mesntes dizendo que é preciso divulgar, sempre tornar público - mesmo que se precise criar um pouco para isso, ou supervalorizar alguma coisa, o que dá quase no mesmo. Até onde o público em si ganha com isso é algo a se questionar. A coisa pública, então, a partir do momento em que se expande e alcança quase tudo, fica indistinta e indefinível. A distância entre o público e o privado some e aparece algo que não sabemos ainda o que seja. Não são mais apenas mortes, acidentes, criminosos, mas sim uma ámálgama com tudo isso que toma a cena. Encena-se, no mundo midiático, uma opereta bufa onde todos estão sujeitos, são personagens, queiram ou não. É bem pior que o grande irmão e tem de tudo para agravar-se ainda mais e crescer exponencialmente. Além da tragédia e da divulgação de escândalos, parece se avizinhar a era dos factóides escandalosos, uma figura que apresentaria semi ou mesmo pseudo-escândalos como se os fossem de fato, apenas porque divulgar um escândalo é tão importante que fazê-lo se sobrepõe mesmo à necessidade de que esse escãndalo exista. Isso já começou a aparecer com os programas sensacinalistas, onde o factóide da morte chegou ao ponto de exibirem-se vídeos catados no you-tube como se fossem tragédias da vizinhança e onde - caso ainda pior -, mostram-se mortes reais e cotidianas, sem nenhum relevo noticioso, apenas porque são mortes, foram filmadas e podem ser exibidas. O falso escândalo parece ser o novo tipo que se desenha por aí. Já observamos seus esboços, ainda tímidos - ou nem tanto, aqui e ali. E o pior é que este tipo que se avizinha não terá potência apenas para figurar em programas de terror-notícia. Este tipo vai habitar os noticiosos nacionais, ter seu lugar entre os destaques da grande mídia. Podemos estar às portas de uma nova era midiática. Não mais a da exposição excessiva apenas, mas a do falso escândalo. E todos podem ser vítimas, ou pior, protagonistas, das peças narrativas desa nova era.
terça-feira, 10 de março de 2009
Sensacionalismo em pauta
Sensacionalismo. O termo já foi palavrão dentro das redações. Consigo, hoje, imaginar o dia em que ele figure nos manuais de determinados produtos pseudo-jornalísticos, vez que já tem lugar na pauta e na demanda da opinião pública.
Estava na fila do banco, no horário do almoço. Um rapaz me reconheceu do vídeo. Disse gostar muito do meu trabalho - faço comentários no matinal da Record, além de reportagens locais e nacionais para os jornalísticos da rede. Voltando ao rapaz, ele, que me reconheceu, fez a pergunta que me suscitou os questionamentos que ponho aqui: "E aí? Quantos morrem amanhã?"
Agora, lia um texto, no blog do meu irmão (http://www.misantropiavirtual.blogspot.com/) onde ele dá mais um exemplo. Vale conferir.
O rapaz, que me elogiou, não deu margem para dúvidas. Queria morte. É isso, infelizmente, que o povo quer na TV. É isso que se oferta hoje em dia. Imaginava-se-se, a princípio, quando surgiram os primeiros vampiros midiáticos, uma espécie de entidade que se alimenta de sangue alheio, que estes não resistiriam à luz dos holofotes por muito tempo, mas, infelizmente, tais aberrações guardam apenas a semelhança no adorar hemácias à linhagem originária pensilvênica. Ao contrário daqueles, não se resgurdam à noite para vir à tona. Explodem nas nossas caras, com jorros de sangue e saraivadas de balas, desde o raiar da manhã.
Esses dias, ouvi um colega novinho, de uma outra emissora, choromingar aos meus ouvidos que não sabia o que fazer. Me pedia ajuda. Tinha ido ao Fórum cobrir uma audiência, mas a pauta trazia uma orientação sinistra, bem específica, que ele achava difícil conseguir ali, no tribunal do júri. "Pegue o sensacionalismo da coisa". Eram essas as palavras textuais. E era uma audiência numa vara de família, o que, por lei, corre em segredo de justiça, exatamente par evitar exposição de questões pessoais. Disse a ele que ligasse para a redação e falasse que aquilo não existia. Que era impossível trabalhar sob uma tão funesta orientação, sobretudo num caso daqueles. Ele rodou para lá e para cá e não tocou no telefone. Me afastei. Não era um colega, como pensara antes. Que eles fiquem entre os seus.
Pessoas como o rapaz que me viu na fila não são mais a exceção a se lamentar, mas a regra que garante ao sensacionalismo os primeiros lugares em audiência. Não se encontra apenas na dita voz do povo ignorante a clamar por violência o desejo do terrível, do draconiano, do dantesco. Os chefes de reportagem, os pauteiros, os que pensam o jornalismo vomitam isso nas páginas, outrora sagradas, de uma pauta - orientação primeira, guia que enquadra, apruma, direciona o repórter. Sensacionalismo, eis o desejo, a direção proposta, o novo Proteu dos nossos dias.
Quando essas bestas apocalípticas, anunciadoras do fim do jornalismo como se conhece hoje, começaram a surgir, alguns anjos soaram trombetas esperançosas. Em seus cânticos, a melodia proclamava que não haveria espaço para os monstros. Nem espaço nem tempo. Seriam poucos e efêmeros. Teriam um nicho restrito de mercado. Eles, os otimistas, estavam enganados. Os primeiros seres trevosos se perpetuaram. Tornaram-se prefeitos, morreram. Mas de morte natural, dessa que se dá com o cessar do batimento cardíaco, ou do funcionamento cerebral, a depender da vertente médica. Não da morte figurada que os anjos davam a crer que expirariam quando cantaram erradamente a pedra do seu jazigo.
Metaforicamente eles vivem e se reproduzem. Andam pela terra gerando filhos e filhas. E estes vêm em ninhadas. Não têm respeito a nada nem a ninguém. Querem apenas audiência a qualquer custo. E descem o mais baixo que podem para isso. Não temem a lei, o ministério público, nada. Violam a dignidade da pessoa humana. Ignoram que estamos numa república. Cospem na Constituição Federal, chegando a desrespeitar uma das suas Cláusulas Pétreas, disposições inalteráveis para que o Estado democrático brasileiro seja vivo. E a que ignoram é a mais importante de todas: os direitos e garantias individuais.
Foram eles que deram origem ao constitucionalismo. Estão conosco desde a Lei maior das Américas, de 1787, ou da França, de 1791. No Brasil, com uma constituição democrática de pouco mais de 20 anos, vemos esse desrespeito. E feito por jornalistas. Quantos, ainda vivos, ainda ativos, lutaram, no jornalismo, sob tortura, chegando mesmo a morrer, para que tivéssemos um estado livre. É a constituição que estrutura este estado, que lhe dá organicidade e organização. Que lhe dá a liberdade, da qual esses abutres abusam com uma vilania torpe e enojante.
Se não respeitam essa lei, a lei matriz, o tronco do qual derivam todos os ramos do direito e, portando, do estado brasileiro, porque diabos levariam em consideração os valores que fundamentam o bom jornalismo?
Mas que os bons jornalistas não se rendam, pois esse pedido de sensacionalismo, feito, no caso da pauta que citei, a um colega foca - inexperiente no ramo -, ainda não é atrevidamente lançado contra os peitos de um redator mais experiente. Mas este dia há de chegar. Será o dia de dizer não. De separar o joio do trigo. "E nesse dia, haverá choro e ranger de dentes"...
Estava na fila do banco, no horário do almoço. Um rapaz me reconheceu do vídeo. Disse gostar muito do meu trabalho - faço comentários no matinal da Record, além de reportagens locais e nacionais para os jornalísticos da rede. Voltando ao rapaz, ele, que me reconheceu, fez a pergunta que me suscitou os questionamentos que ponho aqui: "E aí? Quantos morrem amanhã?"
Agora, lia um texto, no blog do meu irmão (http://www.misantropiavirtual.blogspot.com/) onde ele dá mais um exemplo. Vale conferir.
O rapaz, que me elogiou, não deu margem para dúvidas. Queria morte. É isso, infelizmente, que o povo quer na TV. É isso que se oferta hoje em dia. Imaginava-se-se, a princípio, quando surgiram os primeiros vampiros midiáticos, uma espécie de entidade que se alimenta de sangue alheio, que estes não resistiriam à luz dos holofotes por muito tempo, mas, infelizmente, tais aberrações guardam apenas a semelhança no adorar hemácias à linhagem originária pensilvênica. Ao contrário daqueles, não se resgurdam à noite para vir à tona. Explodem nas nossas caras, com jorros de sangue e saraivadas de balas, desde o raiar da manhã.
Esses dias, ouvi um colega novinho, de uma outra emissora, choromingar aos meus ouvidos que não sabia o que fazer. Me pedia ajuda. Tinha ido ao Fórum cobrir uma audiência, mas a pauta trazia uma orientação sinistra, bem específica, que ele achava difícil conseguir ali, no tribunal do júri. "Pegue o sensacionalismo da coisa". Eram essas as palavras textuais. E era uma audiência numa vara de família, o que, por lei, corre em segredo de justiça, exatamente par evitar exposição de questões pessoais. Disse a ele que ligasse para a redação e falasse que aquilo não existia. Que era impossível trabalhar sob uma tão funesta orientação, sobretudo num caso daqueles. Ele rodou para lá e para cá e não tocou no telefone. Me afastei. Não era um colega, como pensara antes. Que eles fiquem entre os seus.
Pessoas como o rapaz que me viu na fila não são mais a exceção a se lamentar, mas a regra que garante ao sensacionalismo os primeiros lugares em audiência. Não se encontra apenas na dita voz do povo ignorante a clamar por violência o desejo do terrível, do draconiano, do dantesco. Os chefes de reportagem, os pauteiros, os que pensam o jornalismo vomitam isso nas páginas, outrora sagradas, de uma pauta - orientação primeira, guia que enquadra, apruma, direciona o repórter. Sensacionalismo, eis o desejo, a direção proposta, o novo Proteu dos nossos dias.
Quando essas bestas apocalípticas, anunciadoras do fim do jornalismo como se conhece hoje, começaram a surgir, alguns anjos soaram trombetas esperançosas. Em seus cânticos, a melodia proclamava que não haveria espaço para os monstros. Nem espaço nem tempo. Seriam poucos e efêmeros. Teriam um nicho restrito de mercado. Eles, os otimistas, estavam enganados. Os primeiros seres trevosos se perpetuaram. Tornaram-se prefeitos, morreram. Mas de morte natural, dessa que se dá com o cessar do batimento cardíaco, ou do funcionamento cerebral, a depender da vertente médica. Não da morte figurada que os anjos davam a crer que expirariam quando cantaram erradamente a pedra do seu jazigo.
Metaforicamente eles vivem e se reproduzem. Andam pela terra gerando filhos e filhas. E estes vêm em ninhadas. Não têm respeito a nada nem a ninguém. Querem apenas audiência a qualquer custo. E descem o mais baixo que podem para isso. Não temem a lei, o ministério público, nada. Violam a dignidade da pessoa humana. Ignoram que estamos numa república. Cospem na Constituição Federal, chegando a desrespeitar uma das suas Cláusulas Pétreas, disposições inalteráveis para que o Estado democrático brasileiro seja vivo. E a que ignoram é a mais importante de todas: os direitos e garantias individuais.
Foram eles que deram origem ao constitucionalismo. Estão conosco desde a Lei maior das Américas, de 1787, ou da França, de 1791. No Brasil, com uma constituição democrática de pouco mais de 20 anos, vemos esse desrespeito. E feito por jornalistas. Quantos, ainda vivos, ainda ativos, lutaram, no jornalismo, sob tortura, chegando mesmo a morrer, para que tivéssemos um estado livre. É a constituição que estrutura este estado, que lhe dá organicidade e organização. Que lhe dá a liberdade, da qual esses abutres abusam com uma vilania torpe e enojante.
Se não respeitam essa lei, a lei matriz, o tronco do qual derivam todos os ramos do direito e, portando, do estado brasileiro, porque diabos levariam em consideração os valores que fundamentam o bom jornalismo?
Mas que os bons jornalistas não se rendam, pois esse pedido de sensacionalismo, feito, no caso da pauta que citei, a um colega foca - inexperiente no ramo -, ainda não é atrevidamente lançado contra os peitos de um redator mais experiente. Mas este dia há de chegar. Será o dia de dizer não. De separar o joio do trigo. "E nesse dia, haverá choro e ranger de dentes"...
segunda-feira, 9 de março de 2009
Cada um na sua praia
Maria dançava na porta de casa. Ridícula e insuportável. O som, muito alto, além de incomodar os vizinhos, chamava atenção para o desastre da coreografia que ela pensava reproduzir. Acima do peso, com roupas justas, ela, no íntimo, sabia que estava ridícula, mas queria fingir não ligar. Eu já não aguentava mais. Sei que também estou derrubado, mas, porra. Não me submeto a isso. E na varanda pô! Se pelo menos ela trabalhasse, teria menos tempo pra isso. E eu teria mais tempo sem ela. Foda-se, vou me dar meu tempo. Como meu olhar transparecia um misto de desprezo, nojo e raiva, Maria percebe e reage, como sempre, com a sutileza de um hipopótamo.
- Que foi, Miguel? Vem dançar também. Tá massa aqui na varanda. Um solzinho bom nesse domingo. Daqui a pouco a galera chama a gente pra praia. E hoje a gente vai ter que ir. Nem invente, viu?
Ainda tinha essa. A orca -porque além de gorda é bruta -, não se dava, jamais, conta de qualquer vexame. A irritação me subiu à tampa.
- Vou pro baba da turma. É em outra praia.
- Que turma, homem?
- A do trabalho. Você não conhece.
Não tinha para onde ir, mas sabia onde não iria: à praia com Maria. O tempo passa. Chega a turma, lá dela, e encontra Maria saltitando passos absurdos, suada como um bando de porcos perseguidos em dia de abate e guinchando como os que são alcançados e sangrados até a morte - rito, aliás, que ela supõe ser cantar. A vergonha, diminuída pelo hábito de passar por ela todo domingo, desta vez era aliviada ainda mais por outros dois fatores: Maria ia sozinha e eu também. Para qualquer lugar.
Sem banho, nem nada, em coisa de cinco minutos, ela entra e sai, suada como antes, desta vez exibindo o corpanzil num fio dental vermelho. Acho que cheguei a corar, mas baixei o rosto, para esconder dos outros a minha reação e, também, deixar de ver a deles, que sempre gozavam dela e, por conseqûência de mim. Marilda, a gostosinha da rua, e também a mais escrota, fazia questão de estar sempre com Maria. Se valorizava assim. Se chamavam de Mari-Mari. Bem poderiam ser a bela e a fera.
- Não vem com a gente, moço? - Disse ela, olhando para mim. Nem tá pronto...
Maria, num de seus mais desagradáveis e costumeiros hábitos, o deme interromper antes mesmo que eu comece, responde:
- Que nada, menina. Vai pro baba com os amigos. nem sei onde... Ah. Esqueci a bolsa com o bronzeador. Hoje o óleo de amêndoa vai comer no centro... Uhu... pode esperar no carro, galera.
Esse gritinho me matava. Aquilo tudo. O que me fez chegar àquele ponto? Estudei. Fiz faculdade, mas nunca consegui um emprego que prestasse. Me conformei em ser carteiro. Nunca busquei nada além. Agora, olhava aquela turma feia, naquele carro velho, gente que nunca leu nada, quem dirá escrever... A Maria então! Ô anta. Ela era como a vaga nos Correios. Uma merda, que no início parecia melhor, e agora revelava toda a sua insuficiência. Salário fudido, mulher fudida. Levanto a cabeça triste e miro o carro: um gol velho, lotado - e ainda faltava Maria -, quando percebo que a outra Mari olhava para mim de um jeito estranho, diferente. Com uma espécie de sensualidade grotesca. Mas, para quem tem Maria, era como se a Vênus de Milo me fitasse em todo seu esplendor. Ela percebe que reajo e salta do carro. Vem até mim, rebolando como quem ganha a vida assim - havia boatos, bem fundados inclusive, de que esta fosse a forma de sustento da garota: o mais antigo dos ofícios. Mas nada disso me impoprtava. Estava deslumbrado. Ela para na minha frente e pergunta:
- Onde é a praia que você vai? Tô pensando em dar um pulinho lá...
- Onde você quer que seja a praia?, respondo num rompante de coragem, aumentado significativamente pelo medo de que Maria chegasse e visse a cena. Maria aponta no corredor e a minha nova Mari fala:
- Hotel Nemésis...
- É Nêmesis -, corrijo a pronúncia, pela força do hábito de querer parecer melhor do que sou, ou, pelo menos, mais do que eles são.
- Daqui a 40 minutos. É o da esquina.
Ela responde quase ao mesmo tempo em que Maria a pega pela cintura. Mari e Mari se juntam. Só agora percebo que elas têm algo em comum. Uma vulgaridade que me atraiu em Maria, uns 20 quilos atrás, e que estava me convidando ao hotel no quilo certo hoje. Todos saem. Eu corro para tomar meu banho. Em quinze minutos estou no hotel. Paso vinte minutos pensando. Maria era legal. A culpa, talvez, fosse minha, sempre corrigindo os outros, com meus livros velhos, dos quais lia uma ou duas páginas e, com o conteúdo da orelha, humilhava aquela turma, numa guerra covarde, onde quem tem um braço e um cacete bate nos aleijados. Eu aleijei Maria. Tomo um gole de conhaque. Penso melhor. Tomo o copo todo. Os dois copos. O meu e o de Marilda. Desço do quarto, pago a conta e saio. Na esquina, encontro a outrora nova e agora já antiga Mari chegando. Mais erótica do que nunca. Não restava dúvida, se não era profissional, não era por falta de talento.
- Beleza. Chegamos juntos. Sinal de que a coisa vai ser boa. - diz ela, antecipando delícias com as quais eu pensara durate coisa de 15 minutos, até a minha chegada no hotel que deixei. - E então, tá indo pra onde? É do outro lado, rapaz.
- Não vou mais. Minha praia é outra. Decidi encontrar a galera. A Maria...
Tomo um tapa no rosto e ouço uns dois xingamentos que, de tão primevos, nem merecem ser repetidos. Ela vira de costas para ir embora. Ajeita o biquini por baixo da saída de praia. O conhaque faz mais efeito na minha cabeça. Como é gostosa.... Ah, foda-se. O hotel já está pago mesmo. Ainda tenho uma hora e poucos minutos. Mais que suficiente. Não vou durar nem 15 com ela.
-Ei, Mari. Tava brincando.Vamo lá. Já tá pago e tudo. Acha que eu ia perder essa?
Com um riso de criança ela me olha. Os olhos brilham de alegria. Chega a saltitar.
- Agora quem não quer mais sou eu. Vai trás de Maria. A sua é ela. Você, comigo, nem pagando...
A alegria dela era um lampejo de inteligência. No terreno em que dominava, o sexo, ela desvendou a minha alma. E enquanto ela se afastava, rindo agora alto, eu gritava:
- Volta, Mari, eu pago, eu pago.
- Que foi, Miguel? Vem dançar também. Tá massa aqui na varanda. Um solzinho bom nesse domingo. Daqui a pouco a galera chama a gente pra praia. E hoje a gente vai ter que ir. Nem invente, viu?
Ainda tinha essa. A orca -porque além de gorda é bruta -, não se dava, jamais, conta de qualquer vexame. A irritação me subiu à tampa.
- Vou pro baba da turma. É em outra praia.
- Que turma, homem?
- A do trabalho. Você não conhece.
Não tinha para onde ir, mas sabia onde não iria: à praia com Maria. O tempo passa. Chega a turma, lá dela, e encontra Maria saltitando passos absurdos, suada como um bando de porcos perseguidos em dia de abate e guinchando como os que são alcançados e sangrados até a morte - rito, aliás, que ela supõe ser cantar. A vergonha, diminuída pelo hábito de passar por ela todo domingo, desta vez era aliviada ainda mais por outros dois fatores: Maria ia sozinha e eu também. Para qualquer lugar.
Sem banho, nem nada, em coisa de cinco minutos, ela entra e sai, suada como antes, desta vez exibindo o corpanzil num fio dental vermelho. Acho que cheguei a corar, mas baixei o rosto, para esconder dos outros a minha reação e, também, deixar de ver a deles, que sempre gozavam dela e, por conseqûência de mim. Marilda, a gostosinha da rua, e também a mais escrota, fazia questão de estar sempre com Maria. Se valorizava assim. Se chamavam de Mari-Mari. Bem poderiam ser a bela e a fera.
- Não vem com a gente, moço? - Disse ela, olhando para mim. Nem tá pronto...
Maria, num de seus mais desagradáveis e costumeiros hábitos, o deme interromper antes mesmo que eu comece, responde:
- Que nada, menina. Vai pro baba com os amigos. nem sei onde... Ah. Esqueci a bolsa com o bronzeador. Hoje o óleo de amêndoa vai comer no centro... Uhu... pode esperar no carro, galera.
Esse gritinho me matava. Aquilo tudo. O que me fez chegar àquele ponto? Estudei. Fiz faculdade, mas nunca consegui um emprego que prestasse. Me conformei em ser carteiro. Nunca busquei nada além. Agora, olhava aquela turma feia, naquele carro velho, gente que nunca leu nada, quem dirá escrever... A Maria então! Ô anta. Ela era como a vaga nos Correios. Uma merda, que no início parecia melhor, e agora revelava toda a sua insuficiência. Salário fudido, mulher fudida. Levanto a cabeça triste e miro o carro: um gol velho, lotado - e ainda faltava Maria -, quando percebo que a outra Mari olhava para mim de um jeito estranho, diferente. Com uma espécie de sensualidade grotesca. Mas, para quem tem Maria, era como se a Vênus de Milo me fitasse em todo seu esplendor. Ela percebe que reajo e salta do carro. Vem até mim, rebolando como quem ganha a vida assim - havia boatos, bem fundados inclusive, de que esta fosse a forma de sustento da garota: o mais antigo dos ofícios. Mas nada disso me impoprtava. Estava deslumbrado. Ela para na minha frente e pergunta:
- Onde é a praia que você vai? Tô pensando em dar um pulinho lá...
- Onde você quer que seja a praia?, respondo num rompante de coragem, aumentado significativamente pelo medo de que Maria chegasse e visse a cena. Maria aponta no corredor e a minha nova Mari fala:
- Hotel Nemésis...
- É Nêmesis -, corrijo a pronúncia, pela força do hábito de querer parecer melhor do que sou, ou, pelo menos, mais do que eles são.
- Daqui a 40 minutos. É o da esquina.
Ela responde quase ao mesmo tempo em que Maria a pega pela cintura. Mari e Mari se juntam. Só agora percebo que elas têm algo em comum. Uma vulgaridade que me atraiu em Maria, uns 20 quilos atrás, e que estava me convidando ao hotel no quilo certo hoje. Todos saem. Eu corro para tomar meu banho. Em quinze minutos estou no hotel. Paso vinte minutos pensando. Maria era legal. A culpa, talvez, fosse minha, sempre corrigindo os outros, com meus livros velhos, dos quais lia uma ou duas páginas e, com o conteúdo da orelha, humilhava aquela turma, numa guerra covarde, onde quem tem um braço e um cacete bate nos aleijados. Eu aleijei Maria. Tomo um gole de conhaque. Penso melhor. Tomo o copo todo. Os dois copos. O meu e o de Marilda. Desço do quarto, pago a conta e saio. Na esquina, encontro a outrora nova e agora já antiga Mari chegando. Mais erótica do que nunca. Não restava dúvida, se não era profissional, não era por falta de talento.
- Beleza. Chegamos juntos. Sinal de que a coisa vai ser boa. - diz ela, antecipando delícias com as quais eu pensara durate coisa de 15 minutos, até a minha chegada no hotel que deixei. - E então, tá indo pra onde? É do outro lado, rapaz.
- Não vou mais. Minha praia é outra. Decidi encontrar a galera. A Maria...
Tomo um tapa no rosto e ouço uns dois xingamentos que, de tão primevos, nem merecem ser repetidos. Ela vira de costas para ir embora. Ajeita o biquini por baixo da saída de praia. O conhaque faz mais efeito na minha cabeça. Como é gostosa.... Ah, foda-se. O hotel já está pago mesmo. Ainda tenho uma hora e poucos minutos. Mais que suficiente. Não vou durar nem 15 com ela.
-Ei, Mari. Tava brincando.Vamo lá. Já tá pago e tudo. Acha que eu ia perder essa?
Com um riso de criança ela me olha. Os olhos brilham de alegria. Chega a saltitar.
- Agora quem não quer mais sou eu. Vai trás de Maria. A sua é ela. Você, comigo, nem pagando...
A alegria dela era um lampejo de inteligência. No terreno em que dominava, o sexo, ela desvendou a minha alma. E enquanto ela se afastava, rindo agora alto, eu gritava:
- Volta, Mari, eu pago, eu pago.
domingo, 8 de março de 2009
Pares Trocados
Eis que, após tê-lo submetido ao escrutínio de abalisados analistas, vem a baila, publicamente, o meu primeiro conto. Mexi apenas no título. No mais, pensei e repensei e achei que a melhor forma é a primeira que sai. Pelo menos nesse caso,onde o texto saiu de uma sentada. Enhtão, vai aqui, de uma lapada também. Aos que tiverem paciência, boa leitura...
Pares Trocados
Não deveria ser assim, pensava ela. Por que, afinal, foram àquela terapeuta? Foi idéia dela. Não faziam sexo há mais de dois meses. Estava solitária demais. Queria uma solução para aquilo. Mas isso? Colocar outras pessoas na relação? Era excitante, ela não podia negar, mas assim, tão repentino, assustava. Casada há cerca de dez anos, sentia vontade de ter novas experiências. O marido era convencional demais. Ou ela pensava, pelo menos... O interesse imediato que ele demonstrou pela sugestão da analista a impressionou. Agora mesmo, enquanto seguiam no carro, ela olhava para o rosto dele. Um sorriso indisfarçável. Isso a irritava e animava a um só tempo. Quantas sensações novas, estranhas, conflitantes. Tudo isso mesclado a um medo de não sei que. Uma espécie de intuição, diriam alguns. Mas ela não era do tipo que acreditava nessas coisas. Súbito, a suposta intuição começa a se transformar. Aumentar exponencialmente. Se torna algo como medo. Um pavor que ela alimenta e ganha ares de pânico. O coração acelera. Ele, apesar de absorto em pensamentos devassos, sente a inquietude da mulher envolvê-lo. Olha para o lado. A última coisa de que ela se lembra é de ter tirado o cinto de segurança para respirar melhor; recorda também do rosto dele perguntando se está tudo bem. E tudo fica preto.
Ela acorda numa cadeira, a cabeça rodando. O quarto é escuro, avermelhado, à meia luz. Ao lado dela, um homem bonito, forte, sem camisa. Ela recorda dele, mas não sabe de onde. Como se lesse os pensamentos da moça – pois apesar dos 32 anos, Isabel não parecia ter mais que 23 – ele a recorda. É o Marcos. Será o rapaz que conhecemos na boate? Não lembrava disso, mas sabia que ele era o Marcos, o amante, e isso dava alguma confiança. A mente estava meio embaralhada quanto a essa outra parte, mas a Ana, certamente, deveria estar com ele. Ela sorri, meio sem jeito, mas excitada com as promessas daquela noite, que o medo irracional de há pouco no carro quase fizeram-na pôr por terra. Eles estão num motel. Mas e os outros dois? Olha para o lado e vê o marido dela e Ana na cama. O que eles fazem é sexo sem amor. Exatamente o que a terapeuta disse que era necessário. Sem afeto pelos outros. Os olhos de Isabel brilham e Marcos começa a beijá-la. Rasga as roupas dela. Mesmo empolgada, como sem dúvida estava, ela se assusta e grita. Ele, o marido, olha para ela com um ar de pavor. Está tudo bem, garante Ana, eles sabem o que estão fazendo. Ele se volta para ela mais uma vez. O outro, numa inflexão semelhante, repete, para Isabel, Está tudo bem, eles também sabem o que fazem. E os quatro, em pares trocados, voltam a se agarrar loucamente.
Depois do êxtase, Isabel resolve que é hora de recompensar o marido por aquela experiência. Quer ele, seu homem, junto com ela na cama. Na frente do outro casal A idéia a excita. Marcos, ainda ao lado de Isabel, quer a mesma coisa com Ana. Vai você primeiro. Fica com ele. Deixa que a Ana vem até mim. Já temos experiência nisso. Ela vai. Deita ao lado do marido, por trás dele. Começa a beijar-lhe as costas. Ele se volta para ela. Dá um sorriso estranho, um sorriso que ela nunca viu, um sorriso de liberdade. E a toma com ferocidade. Quanta excitação. Isabel se sente outra. Até seus pensamentos são diferentes. Tem idéias de coisas que nunca lhe ocorreram. Vilanias, infâmias sexuais, transgressões que ela jamais pensaria aceitar. Agora, as desejava. E com ele, seu marido, que, por algo de estranho, lhe parecia outro, novo, sentia com ele sensações novas. Era como se redescobrisse aquele corpo. Era o marido dela, sim, mas o que faziam juntos ali, pela primeira vez em dez anos de relação, não era amor. Era sexo. Sexo sem sentimento. Como ela fez com Marcos. Como ele fez com Ana. Súbito, ela grita. Sente um pavor muito maior do que o que sentira mais cedo. O marido a encara e dá um grito de terror. Seus olhos ficam vermelhos e ele chora. Empurra Isabel. Ela cai no chão. Volta o rosto para ele, que parece enlouquecido. Ele agora repete com Ana o que fez com ela. Mas a coitada não tem a mesma sorte. Ele é forte. Ana é leve, pequena. O pavor dele faz com que a garota seja arremessada intensamente contra a parede. A cabeça dela bate. O ruído de osso quebrado é inconfundível. O chão se inunda de vermelho. Ao lado dela, Marcos não parece tão preocupado. Ao contrário, parece em paz. Diz a ela que se acalme. Isso é assim mesmo. Ana gosta de ser dominada, maltratada. Ela merece, diz ele sorrindo. Isabel tenta mostrar a ele o tamanho do estrago, mas quando aponta para o local do sangue, não há mais nada lá. Apenas Ana, que se levanta. Parece tonta. Ele, o marido dela, sumiu. Marcos vai até Ana, que faz uma cara assustada. Ele corre até ela e tapa sua boca com uma mão. Na outra está uma mordaça que ele, como quem não domina esta arte, coloca na mulher com dificuldade. Isabel estranha. Se ele tinha esses instrumentos, não deveria ser a primeira vez que faziam isso? Ou seria? Ela está assustada. Quer ir embora. Quando ele chegar partiremos, pensa. Enquanto espera, ela assiste a Marcos fazer algo que não é amor nem sexo com Ana. Algo ainda mais animal, onde, sem dúvida há maldade. Ele a possui como um selvagem, por trás. Ela tem as mãos seguras. Está amordaçada e chora, um choro mudo, abafado. Os olhos, injetados, revelam um pavor real. A cena, que antes assustara, agora aquece a cabeça de Isabel. Eis que ele aparece, o marido. Está vestido. Parece assustado com a intensidade da coisa. Isabel, sentindo-se totalmente outra, o chama. Diz que ela gosta disso. Que ele sabia que estavam ali para isso. Ele sorri assustado, enquanto ela lhe arranca a roupa. De uma bolsa, que ela nem lembrava possuir, mas sabe agora que é dela, Isabel tira uma palmatória de couro e dá para ele. Quero que tire sangue de mim, como fez com ela. Ele a encara como um louco e diz ter coisa melhor para ela. Ela pressente o que será e sorri. Da mesma bolsa de onde saiu a palmatória, ele tira um chicote de ponta de aço, uma algema e um bastão de metal. Prende Isabel à cama, onde Ana é surrada e possuída por Marcos, e começa a fazer com ela coisas semelhantes, embora, ele, o marido, não consiga ver o outro casal. Isabel sente, naquelas sensações totalmente novas, algo de confortadora familiaridade. Uma espécie de certeza de que esta dor anularia as outras. Pensa na morte de um filho, que ela nunca teve. Num estupro, que nunca sofreu. Num atropelamento onde ela mata um senhor na estrada e não presta socorro, o que também jamais ocorre. Mas são lembranças reais. Como? Seria um delírio da dor lancinante, que, deliciosa, alivia? Ela sente o sangue jorrar pelas costas. Olha para Marcos e Ana. Ela desmaia. Ele segue para o banheiro. Olha para Isabel e o marido e sorri. Ela sorri de volta. Ele, o marido, está tão entretido na nova loucura, que parece nem perceber a presença de Marcos. Os dois sozinhos no quarto, já que Ana, desmaiada, é como se ali não estivesse, Isabel pede ao marido que pare um pouco e vá até a bolsa. Ela tem mais uma surpresa para aquela noite. Ele obedece. Àquela altura, nada mais parece chocá-lo. Mas o olhar que lança à Isabel, depois de verificar o que foi buscar, revela que ele estava enganado. Seria verdade? Ela diz que ele se acalme. Não mata. Ele, então, puxa um revólver. Prateado. As balas são de borracha, garante ela. Suficientes para dar prazer, mas não a morte. Excitado com aquele grau de loucura nunca sonhado, ele chega até ela e dá uma coronhada na cabeça. Ela geme de prazer e dor. Não, não. Quero um tiro. Um não. Dois, três. Pode esvaziar o tambor. Se afasta um pouco. Quero nas minhas costas. Nas feridas do chicote. Atira onde já tem sangue e vai parecer que é de verdade. Ele está louco. Excitado e apavorado quase até o desmaio pega a arma e cola nas costas dela. Assim não, diz ela, mostrando uma certeza que não sabe de onde vem. De tão perto não. Se afasta e atira. Não quero desmaiar. O tipo de desejo que ela sente, enquanto fala tudo isso, é diferente de tudo que já viveu na vida. Mistura a vontade animal a um pânico gigantesco que só é abafado por uma sensação de maldade para consigo mesma e para com todos maior do que tudo. O Marido se afasta. Olha para a arma, olha para ela. Pensa. Já está mesmo tudo perdido. E atira. Uma. Duas. Três vezes. Isabel tem
um orgasmo e sorri.
Mas eis que Marcos sai do banheiro. E Isabel enlouquece. Agora, ela é só pânico. Ele está com o bastão de metal na mão. Deve ter pego, quando ia ao banheiro, sem que o casal notasse. Ela grita ao marido. Avisa. Marcos está com o bastão atrás dele. Chega lentamente. Ele quer, ele vai fazer alguma coisa de terrível. Mas da sua boca não saem os sons que ela articula. O marido dela, na cadeira, com o revólver nas mãos, não ouve e parece também não ver. Apenas olha para o revólver. Confere que ainda há balas no tambor. Mais balasde verdade. Ela se move, desesperadamente. Ou pelo menos tenta. Não consegue. Mas não apenas por causa da algema. Devo ter ficado paralítica, pensa ela. Alguma das balas deve ter atingido minha coluna em algum lugar que gerou uma paralisia, ainda que temporária. Ela tenta explicar para si mesma, mas o seu pensamento é cortado com um baque. Semelhante ao que ela ouvira no empurrão que o marido dera em Ana. Mas desta vez, ele é que era a vítima. Marcos, com várias pancadas secas, abre-lhe a cabeça, como uma melancia. Tomada de pavor, ela desmaia.
Quando abre os olhos, não acredita no insólito do que assiste. Tenta se levantar, mas está sentada numa cadeira, onde tem as mãos amarradas. De frente para ela, três passos à frente, Marcos bafora um charuto, enquanto toma vinho tinto de uma taça cristalina. Oferece uma taça a Isabel, que recusa, dizendo não saber o que ele comemora. Em segundo plano, em cima da cama, a uns dois metros atrás dele, Ana chora abafado, amordaçada. Ao lado dela, ele, o marido, deitado, como morto, mas com a cabeça intacta. Seria reconfortante, não fosse pela paisagem aos pés da mesma cama. O Corpo de Ana, a mesma que está sobre a cama, com cabeça partida. A mancha de sangue, que há pouco, ela jurara ter sumido como mágica, estava ali, intacta, indelével. Ao lado, terror ainda maior. Ele, o marido, com a cabeça aberta, espatifada pelo bastão. O mesmo que, em cima da cama está inteiro, no chão se encontra partido. Os dois estão duplicados. Um terceiro corpo, de um homem desconhecido, estava ainda estendido no chão, de frente para a cena, com uma arma na mão e a cabeça perfurada por uma bala. O pior, porém, era aquele outro corpo. O dela. Com as costas perfuradas por tiros, que sem dúvida não foram de borracha. Mas o cabelo era de outra cor, mais claro que o dela. A mulher parecia maior também. O que estava acontecendo, pensa ela. O que é isso meu Deus?
Basta. Nada de Deus por aqui, grita Marcos. Ela não é você e, neste quarto, pelo menos por hoje, pode haver tudo, menos Deus. Graças a mim e a você, Isabel. Fomos nós que fizemos isso. E por vingança. Vamos, celebremos. Toma e bebe da tua taça.
Mais uma vez, ela recusa. Não quer? Paciência. Te relembrarei de tudo e, sem dúvida, beberá comigo, à nossa vitória.
Como um vídeo montado com várias imagens em seqüência, uma historinha começa a se formar na mente dela. Estavam de novo no caro. O marido olha para ela. Ela tira o cinto. O carro bate. Hospital. O corpo dela destruído numa mesa de cirurgia. Na sala ao lado, outra mesa. Outro corpo destruído. Ela reconhece Marcos. Na sala de espera, ele, o marido e ela, Ana. Os dois escaparam, ilesos, do acidente que deixou, de uma só vez, ambos, viúvos.
Eu estou aqui. Eu não Estou morta, ela grita.
Está sim, Ana. Estamos todos mortos. Agora, os quatro. Eles nos traíram. No hospital mesmo, lembra? Antes dos médicos dizerem que tínhamos morrido.
Não!, Isabel grita, como que num pedido, mas a cena é clara. As cirurgias dela e de Marcos duraram horas. Nesse tempo, Ana e Ele se conheceram. Conversaram, sorriram. De madrugada, no estacionamento do hospital, os dois trocaram o primeiro beijo e Ana, ali mesmo, enquanto o marido morria numa mesa de operações, mostrava a ele as delícia daquilo que não era amor, nem simplesmente sexo, mas animalidade.
Estávamos afastados dos nossos corpos. Não sobreviveríamos, explica Marcos. Eram nossas almas que assistiam tudo. Dentre tantas almas que vagam nos hospitais, Isabel, nós nos encontramos. Juntos vimos estas cenas no estacionamento. E elas se repetiram. E nós morremos e eles continuaram juntos. Nos enterraram num mesmo cemitério. Lado a lado. Em meio a tantas almas que sofrem num cemitério, poucas sofreram como as nossas. Víramos os dois na funerária, enquanto nossos corpos eram preparados, possuindo-se. Novamente no velório. No dia do enterro, quando todos foram embora. Eles se esconderam. Ficaram lá. Quando foi tudo trancado, fizeram aquilo, que para eles se tornou uma arte ou um culto, bem ao lado de onde jaziam os nossos corpos. Nos tornamos amantes também, do lado de cá, mas isso não os afetava. Foi quando decidimos procurar ela, a mulher que tomou os tiros em seu lugar. Ela foi nosso veículo, nosso médium. Nossas almas e a dela se tocavam. Os fluidos se misturavam. Sentíamos as sensações dela e ela as nossas. Você não sabia, mas seu marido sempre te traiu. Não foram os meses sem sexo, antes da terapeuta, como você quis pensar. Ele sempre te traiu. Não foi difícil seduzi-lo com ela, o nosso instrumento. Sabíamos do que seu marido gostava. Ele e a Ana. Seduzimos os dois. Levamos nosso instrumento à boate que eles freqüentavam. Ela já era, por si só, afeita ao sadismo, experiência que os dois devassos com os quais fôramos casados queriam experimentar. Ela e o marido dela. Este, que está no chão, com a cabeça perfurada de bala – com ele, você não se afinava. Sua alma e a dele não sintonizavam. Comigo, no entanto, o contato era perfeito. Éramos como um numa só carne.
Isso aconteceu hoje Isabel. Da boate, vieram os quatro para este motel. Sem saber que estavam conosco. A arma tinha balas de borracha. Mas ele, guiado por mim, trouxera balas verdadeiras. Queria mostrá-las, para realçar o pavor da brincadeira. Assim fiz que ele pensasse que seria. Quando você acordou aqui, Isabel, era no corpo dela, da sádica, que estava. Eu estava no corpo dele, o sádico, quando fizemos sexo. Mas você não sabia que ele estava aqui, o sádico. Nunca soube, até agora, da minha influência sobre ele. Você não queria que nós os matássemos Isabel. Apenas queria se dar a conhecer. Fazer que ele visse você, através da outra, o que aconteceu, e por isso ele se assustou quando mandei que fosse até ele. Desculpa, minha querida, mas tenho a alma mais forte que a sua. Por isso te fiz esquecer, com a ajuda do corpo da nossa sádica, cheio de álcool e drogas, foi fácil embotar seu espírito, te fazer lembrar apenas até o acidente. Agora, com ela morta, sem aquele instrumento sujo, você se lembra de tudo. Perda. Mas, não fosse assim, nada do que se passou hoje teria acontecido. Você não é uma assassina Isabel. Eu descobri que sou. Quando ele te empurrou no chão, Isabel, era a sádica que ele empurrava. Ele tinha visto o seu rosto nela e se apavorou. O sádico, sob o meu domínio, trocava as balas, enquanto tudo isso se passava entre vocês três. Quando você e Ana foi até ele, ele estava aterrorizado. Ainda te via no chão. Empurrou ela que, frágil, bateu a cabeça e morreu. Foi quando ele correu ao banheiro e eu fui até Ana. O sádico desmaiara quando viu a morte de Ana. Eram sádicos estúpidos, ele e a mulher dele, que também desmaiou. Éramos só nós quatro ali. Mesmo com ela desmaiada, você ainda permanecia ligada aos seus pensamentos, ao seu pânico, por isso não recuperou a memória naquele momento. Tinha a mente dela para carregar consigo. Uma mente bêbada e pesada. Com um estupro, um filho morto e completamente ébria, aquela alma era sufuciente para manter seu espírito adormecido, ainda esquecido. Foi quando você me viu me vingar. Torturar a Ana. Ela sabia que era eu. O corpo já morrera. Era a alma dela que via a minha. Para acordá-la tão rápido, usei parte da energia que aprendi a controlar, tanto assim, que quando saí de perto dela para o banheiro ela voltou ao sono dos que morreram de forma violenta. Mas, enquanto acordada, num instante, ela sabia tudo. Sabia que eu sabia. Que tinha visto, acompanhado. Ela sofreu e ainda sofre agora, nos seus pesadelos de morta. Que chore sua alma é o que desejo. Quando ela dorme entre nós, os mortos, a sádica acorda, entre os, até então, vivos. Da cama, onde estou com Ana, percebo. Misturo minha mente à de vocês e a faço desejar. Estou mais ali do que com Ana. Mas preciso estar em ambos os lugares, influenciando a vocês e mantendo a Ana acordada. Faço com que vocês se excitem. Sim. Também sou um celerado; queria matar; matar todos eles. É quando chega seu marido e vê a sádica: na verdade nós dois com ela, mas a nós ele não vê. A essa altura já está louco. Matou a amante por quem era apaixonado. Está com um casal estranho. Ele ainda desmaiado, o sádico. Quando ele, seu marido, é chamado por nós, embora vendo apenas a sádica a falar com ele, e lhe é oferecida a palmatória, ele paga o chicote e o bastão. Pretende matar os dois sádicos. Quando o revólver surge na história, para ele, parece um sonho. Ao saber que as balas são de borracha, pensa em atirar a queima roupa, para, assim, tentar matar mais rápido. Por isso ele pensa tanto, quando é mandado para longe, e fica olhando para a arma. Atira e as balas são de verdade. Sente-se aliviado, o covarde. Ele nunca me viu, seja na cama, seja deixando ela. Essa visão, que tanto excitou você, era apenas sua. Quando saí, fora animar o sádico, que acordou e viu a cena. Ana morta ao pé da cama, com a cabeça partida e, para completar, a sadicazinha dele também falecida com as costas crivadas de balas. Ele, o seu marido, pensava em matar o sádico naquele instante. Você tentou alertá-lo, quando viu o outro chegar, por trás, com o bastão. Mas você era e é apenas uma morta. E ele tomou as bastonadas com as quais pretendia matar o outro. O sádico, depois de matar, tomado por desespero e loucura, na certeza de que seria culpado por tudo aquilo, ou pelo menos pela parte que a ele era devida, pegou a arma e se matou. Agora, Isabel, é esperar que eles acordem do lado de cá: seu marido, Ana e os dois sádicos. Eles morreram por sua devassidão. Nós matamos por ela. No fim, você tem razão... Não temos o que brindar. Acabamos todos mortos e devassos.
Pares Trocados
Não deveria ser assim, pensava ela. Por que, afinal, foram àquela terapeuta? Foi idéia dela. Não faziam sexo há mais de dois meses. Estava solitária demais. Queria uma solução para aquilo. Mas isso? Colocar outras pessoas na relação? Era excitante, ela não podia negar, mas assim, tão repentino, assustava. Casada há cerca de dez anos, sentia vontade de ter novas experiências. O marido era convencional demais. Ou ela pensava, pelo menos... O interesse imediato que ele demonstrou pela sugestão da analista a impressionou. Agora mesmo, enquanto seguiam no carro, ela olhava para o rosto dele. Um sorriso indisfarçável. Isso a irritava e animava a um só tempo. Quantas sensações novas, estranhas, conflitantes. Tudo isso mesclado a um medo de não sei que. Uma espécie de intuição, diriam alguns. Mas ela não era do tipo que acreditava nessas coisas. Súbito, a suposta intuição começa a se transformar. Aumentar exponencialmente. Se torna algo como medo. Um pavor que ela alimenta e ganha ares de pânico. O coração acelera. Ele, apesar de absorto em pensamentos devassos, sente a inquietude da mulher envolvê-lo. Olha para o lado. A última coisa de que ela se lembra é de ter tirado o cinto de segurança para respirar melhor; recorda também do rosto dele perguntando se está tudo bem. E tudo fica preto.
Ela acorda numa cadeira, a cabeça rodando. O quarto é escuro, avermelhado, à meia luz. Ao lado dela, um homem bonito, forte, sem camisa. Ela recorda dele, mas não sabe de onde. Como se lesse os pensamentos da moça – pois apesar dos 32 anos, Isabel não parecia ter mais que 23 – ele a recorda. É o Marcos. Será o rapaz que conhecemos na boate? Não lembrava disso, mas sabia que ele era o Marcos, o amante, e isso dava alguma confiança. A mente estava meio embaralhada quanto a essa outra parte, mas a Ana, certamente, deveria estar com ele. Ela sorri, meio sem jeito, mas excitada com as promessas daquela noite, que o medo irracional de há pouco no carro quase fizeram-na pôr por terra. Eles estão num motel. Mas e os outros dois? Olha para o lado e vê o marido dela e Ana na cama. O que eles fazem é sexo sem amor. Exatamente o que a terapeuta disse que era necessário. Sem afeto pelos outros. Os olhos de Isabel brilham e Marcos começa a beijá-la. Rasga as roupas dela. Mesmo empolgada, como sem dúvida estava, ela se assusta e grita. Ele, o marido, olha para ela com um ar de pavor. Está tudo bem, garante Ana, eles sabem o que estão fazendo. Ele se volta para ela mais uma vez. O outro, numa inflexão semelhante, repete, para Isabel, Está tudo bem, eles também sabem o que fazem. E os quatro, em pares trocados, voltam a se agarrar loucamente.
Depois do êxtase, Isabel resolve que é hora de recompensar o marido por aquela experiência. Quer ele, seu homem, junto com ela na cama. Na frente do outro casal A idéia a excita. Marcos, ainda ao lado de Isabel, quer a mesma coisa com Ana. Vai você primeiro. Fica com ele. Deixa que a Ana vem até mim. Já temos experiência nisso. Ela vai. Deita ao lado do marido, por trás dele. Começa a beijar-lhe as costas. Ele se volta para ela. Dá um sorriso estranho, um sorriso que ela nunca viu, um sorriso de liberdade. E a toma com ferocidade. Quanta excitação. Isabel se sente outra. Até seus pensamentos são diferentes. Tem idéias de coisas que nunca lhe ocorreram. Vilanias, infâmias sexuais, transgressões que ela jamais pensaria aceitar. Agora, as desejava. E com ele, seu marido, que, por algo de estranho, lhe parecia outro, novo, sentia com ele sensações novas. Era como se redescobrisse aquele corpo. Era o marido dela, sim, mas o que faziam juntos ali, pela primeira vez em dez anos de relação, não era amor. Era sexo. Sexo sem sentimento. Como ela fez com Marcos. Como ele fez com Ana. Súbito, ela grita. Sente um pavor muito maior do que o que sentira mais cedo. O marido a encara e dá um grito de terror. Seus olhos ficam vermelhos e ele chora. Empurra Isabel. Ela cai no chão. Volta o rosto para ele, que parece enlouquecido. Ele agora repete com Ana o que fez com ela. Mas a coitada não tem a mesma sorte. Ele é forte. Ana é leve, pequena. O pavor dele faz com que a garota seja arremessada intensamente contra a parede. A cabeça dela bate. O ruído de osso quebrado é inconfundível. O chão se inunda de vermelho. Ao lado dela, Marcos não parece tão preocupado. Ao contrário, parece em paz. Diz a ela que se acalme. Isso é assim mesmo. Ana gosta de ser dominada, maltratada. Ela merece, diz ele sorrindo. Isabel tenta mostrar a ele o tamanho do estrago, mas quando aponta para o local do sangue, não há mais nada lá. Apenas Ana, que se levanta. Parece tonta. Ele, o marido dela, sumiu. Marcos vai até Ana, que faz uma cara assustada. Ele corre até ela e tapa sua boca com uma mão. Na outra está uma mordaça que ele, como quem não domina esta arte, coloca na mulher com dificuldade. Isabel estranha. Se ele tinha esses instrumentos, não deveria ser a primeira vez que faziam isso? Ou seria? Ela está assustada. Quer ir embora. Quando ele chegar partiremos, pensa. Enquanto espera, ela assiste a Marcos fazer algo que não é amor nem sexo com Ana. Algo ainda mais animal, onde, sem dúvida há maldade. Ele a possui como um selvagem, por trás. Ela tem as mãos seguras. Está amordaçada e chora, um choro mudo, abafado. Os olhos, injetados, revelam um pavor real. A cena, que antes assustara, agora aquece a cabeça de Isabel. Eis que ele aparece, o marido. Está vestido. Parece assustado com a intensidade da coisa. Isabel, sentindo-se totalmente outra, o chama. Diz que ela gosta disso. Que ele sabia que estavam ali para isso. Ele sorri assustado, enquanto ela lhe arranca a roupa. De uma bolsa, que ela nem lembrava possuir, mas sabe agora que é dela, Isabel tira uma palmatória de couro e dá para ele. Quero que tire sangue de mim, como fez com ela. Ele a encara como um louco e diz ter coisa melhor para ela. Ela pressente o que será e sorri. Da mesma bolsa de onde saiu a palmatória, ele tira um chicote de ponta de aço, uma algema e um bastão de metal. Prende Isabel à cama, onde Ana é surrada e possuída por Marcos, e começa a fazer com ela coisas semelhantes, embora, ele, o marido, não consiga ver o outro casal. Isabel sente, naquelas sensações totalmente novas, algo de confortadora familiaridade. Uma espécie de certeza de que esta dor anularia as outras. Pensa na morte de um filho, que ela nunca teve. Num estupro, que nunca sofreu. Num atropelamento onde ela mata um senhor na estrada e não presta socorro, o que também jamais ocorre. Mas são lembranças reais. Como? Seria um delírio da dor lancinante, que, deliciosa, alivia? Ela sente o sangue jorrar pelas costas. Olha para Marcos e Ana. Ela desmaia. Ele segue para o banheiro. Olha para Isabel e o marido e sorri. Ela sorri de volta. Ele, o marido, está tão entretido na nova loucura, que parece nem perceber a presença de Marcos. Os dois sozinhos no quarto, já que Ana, desmaiada, é como se ali não estivesse, Isabel pede ao marido que pare um pouco e vá até a bolsa. Ela tem mais uma surpresa para aquela noite. Ele obedece. Àquela altura, nada mais parece chocá-lo. Mas o olhar que lança à Isabel, depois de verificar o que foi buscar, revela que ele estava enganado. Seria verdade? Ela diz que ele se acalme. Não mata. Ele, então, puxa um revólver. Prateado. As balas são de borracha, garante ela. Suficientes para dar prazer, mas não a morte. Excitado com aquele grau de loucura nunca sonhado, ele chega até ela e dá uma coronhada na cabeça. Ela geme de prazer e dor. Não, não. Quero um tiro. Um não. Dois, três. Pode esvaziar o tambor. Se afasta um pouco. Quero nas minhas costas. Nas feridas do chicote. Atira onde já tem sangue e vai parecer que é de verdade. Ele está louco. Excitado e apavorado quase até o desmaio pega a arma e cola nas costas dela. Assim não, diz ela, mostrando uma certeza que não sabe de onde vem. De tão perto não. Se afasta e atira. Não quero desmaiar. O tipo de desejo que ela sente, enquanto fala tudo isso, é diferente de tudo que já viveu na vida. Mistura a vontade animal a um pânico gigantesco que só é abafado por uma sensação de maldade para consigo mesma e para com todos maior do que tudo. O Marido se afasta. Olha para a arma, olha para ela. Pensa. Já está mesmo tudo perdido. E atira. Uma. Duas. Três vezes. Isabel tem
um orgasmo e sorri.
Mas eis que Marcos sai do banheiro. E Isabel enlouquece. Agora, ela é só pânico. Ele está com o bastão de metal na mão. Deve ter pego, quando ia ao banheiro, sem que o casal notasse. Ela grita ao marido. Avisa. Marcos está com o bastão atrás dele. Chega lentamente. Ele quer, ele vai fazer alguma coisa de terrível. Mas da sua boca não saem os sons que ela articula. O marido dela, na cadeira, com o revólver nas mãos, não ouve e parece também não ver. Apenas olha para o revólver. Confere que ainda há balas no tambor. Mais balasde verdade. Ela se move, desesperadamente. Ou pelo menos tenta. Não consegue. Mas não apenas por causa da algema. Devo ter ficado paralítica, pensa ela. Alguma das balas deve ter atingido minha coluna em algum lugar que gerou uma paralisia, ainda que temporária. Ela tenta explicar para si mesma, mas o seu pensamento é cortado com um baque. Semelhante ao que ela ouvira no empurrão que o marido dera em Ana. Mas desta vez, ele é que era a vítima. Marcos, com várias pancadas secas, abre-lhe a cabeça, como uma melancia. Tomada de pavor, ela desmaia.
Quando abre os olhos, não acredita no insólito do que assiste. Tenta se levantar, mas está sentada numa cadeira, onde tem as mãos amarradas. De frente para ela, três passos à frente, Marcos bafora um charuto, enquanto toma vinho tinto de uma taça cristalina. Oferece uma taça a Isabel, que recusa, dizendo não saber o que ele comemora. Em segundo plano, em cima da cama, a uns dois metros atrás dele, Ana chora abafado, amordaçada. Ao lado dela, ele, o marido, deitado, como morto, mas com a cabeça intacta. Seria reconfortante, não fosse pela paisagem aos pés da mesma cama. O Corpo de Ana, a mesma que está sobre a cama, com cabeça partida. A mancha de sangue, que há pouco, ela jurara ter sumido como mágica, estava ali, intacta, indelével. Ao lado, terror ainda maior. Ele, o marido, com a cabeça aberta, espatifada pelo bastão. O mesmo que, em cima da cama está inteiro, no chão se encontra partido. Os dois estão duplicados. Um terceiro corpo, de um homem desconhecido, estava ainda estendido no chão, de frente para a cena, com uma arma na mão e a cabeça perfurada por uma bala. O pior, porém, era aquele outro corpo. O dela. Com as costas perfuradas por tiros, que sem dúvida não foram de borracha. Mas o cabelo era de outra cor, mais claro que o dela. A mulher parecia maior também. O que estava acontecendo, pensa ela. O que é isso meu Deus?
Basta. Nada de Deus por aqui, grita Marcos. Ela não é você e, neste quarto, pelo menos por hoje, pode haver tudo, menos Deus. Graças a mim e a você, Isabel. Fomos nós que fizemos isso. E por vingança. Vamos, celebremos. Toma e bebe da tua taça.
Mais uma vez, ela recusa. Não quer? Paciência. Te relembrarei de tudo e, sem dúvida, beberá comigo, à nossa vitória.
Como um vídeo montado com várias imagens em seqüência, uma historinha começa a se formar na mente dela. Estavam de novo no caro. O marido olha para ela. Ela tira o cinto. O carro bate. Hospital. O corpo dela destruído numa mesa de cirurgia. Na sala ao lado, outra mesa. Outro corpo destruído. Ela reconhece Marcos. Na sala de espera, ele, o marido e ela, Ana. Os dois escaparam, ilesos, do acidente que deixou, de uma só vez, ambos, viúvos.
Eu estou aqui. Eu não Estou morta, ela grita.
Está sim, Ana. Estamos todos mortos. Agora, os quatro. Eles nos traíram. No hospital mesmo, lembra? Antes dos médicos dizerem que tínhamos morrido.
Não!, Isabel grita, como que num pedido, mas a cena é clara. As cirurgias dela e de Marcos duraram horas. Nesse tempo, Ana e Ele se conheceram. Conversaram, sorriram. De madrugada, no estacionamento do hospital, os dois trocaram o primeiro beijo e Ana, ali mesmo, enquanto o marido morria numa mesa de operações, mostrava a ele as delícia daquilo que não era amor, nem simplesmente sexo, mas animalidade.
Estávamos afastados dos nossos corpos. Não sobreviveríamos, explica Marcos. Eram nossas almas que assistiam tudo. Dentre tantas almas que vagam nos hospitais, Isabel, nós nos encontramos. Juntos vimos estas cenas no estacionamento. E elas se repetiram. E nós morremos e eles continuaram juntos. Nos enterraram num mesmo cemitério. Lado a lado. Em meio a tantas almas que sofrem num cemitério, poucas sofreram como as nossas. Víramos os dois na funerária, enquanto nossos corpos eram preparados, possuindo-se. Novamente no velório. No dia do enterro, quando todos foram embora. Eles se esconderam. Ficaram lá. Quando foi tudo trancado, fizeram aquilo, que para eles se tornou uma arte ou um culto, bem ao lado de onde jaziam os nossos corpos. Nos tornamos amantes também, do lado de cá, mas isso não os afetava. Foi quando decidimos procurar ela, a mulher que tomou os tiros em seu lugar. Ela foi nosso veículo, nosso médium. Nossas almas e a dela se tocavam. Os fluidos se misturavam. Sentíamos as sensações dela e ela as nossas. Você não sabia, mas seu marido sempre te traiu. Não foram os meses sem sexo, antes da terapeuta, como você quis pensar. Ele sempre te traiu. Não foi difícil seduzi-lo com ela, o nosso instrumento. Sabíamos do que seu marido gostava. Ele e a Ana. Seduzimos os dois. Levamos nosso instrumento à boate que eles freqüentavam. Ela já era, por si só, afeita ao sadismo, experiência que os dois devassos com os quais fôramos casados queriam experimentar. Ela e o marido dela. Este, que está no chão, com a cabeça perfurada de bala – com ele, você não se afinava. Sua alma e a dele não sintonizavam. Comigo, no entanto, o contato era perfeito. Éramos como um numa só carne.
Isso aconteceu hoje Isabel. Da boate, vieram os quatro para este motel. Sem saber que estavam conosco. A arma tinha balas de borracha. Mas ele, guiado por mim, trouxera balas verdadeiras. Queria mostrá-las, para realçar o pavor da brincadeira. Assim fiz que ele pensasse que seria. Quando você acordou aqui, Isabel, era no corpo dela, da sádica, que estava. Eu estava no corpo dele, o sádico, quando fizemos sexo. Mas você não sabia que ele estava aqui, o sádico. Nunca soube, até agora, da minha influência sobre ele. Você não queria que nós os matássemos Isabel. Apenas queria se dar a conhecer. Fazer que ele visse você, através da outra, o que aconteceu, e por isso ele se assustou quando mandei que fosse até ele. Desculpa, minha querida, mas tenho a alma mais forte que a sua. Por isso te fiz esquecer, com a ajuda do corpo da nossa sádica, cheio de álcool e drogas, foi fácil embotar seu espírito, te fazer lembrar apenas até o acidente. Agora, com ela morta, sem aquele instrumento sujo, você se lembra de tudo. Perda. Mas, não fosse assim, nada do que se passou hoje teria acontecido. Você não é uma assassina Isabel. Eu descobri que sou. Quando ele te empurrou no chão, Isabel, era a sádica que ele empurrava. Ele tinha visto o seu rosto nela e se apavorou. O sádico, sob o meu domínio, trocava as balas, enquanto tudo isso se passava entre vocês três. Quando você e Ana foi até ele, ele estava aterrorizado. Ainda te via no chão. Empurrou ela que, frágil, bateu a cabeça e morreu. Foi quando ele correu ao banheiro e eu fui até Ana. O sádico desmaiara quando viu a morte de Ana. Eram sádicos estúpidos, ele e a mulher dele, que também desmaiou. Éramos só nós quatro ali. Mesmo com ela desmaiada, você ainda permanecia ligada aos seus pensamentos, ao seu pânico, por isso não recuperou a memória naquele momento. Tinha a mente dela para carregar consigo. Uma mente bêbada e pesada. Com um estupro, um filho morto e completamente ébria, aquela alma era sufuciente para manter seu espírito adormecido, ainda esquecido. Foi quando você me viu me vingar. Torturar a Ana. Ela sabia que era eu. O corpo já morrera. Era a alma dela que via a minha. Para acordá-la tão rápido, usei parte da energia que aprendi a controlar, tanto assim, que quando saí de perto dela para o banheiro ela voltou ao sono dos que morreram de forma violenta. Mas, enquanto acordada, num instante, ela sabia tudo. Sabia que eu sabia. Que tinha visto, acompanhado. Ela sofreu e ainda sofre agora, nos seus pesadelos de morta. Que chore sua alma é o que desejo. Quando ela dorme entre nós, os mortos, a sádica acorda, entre os, até então, vivos. Da cama, onde estou com Ana, percebo. Misturo minha mente à de vocês e a faço desejar. Estou mais ali do que com Ana. Mas preciso estar em ambos os lugares, influenciando a vocês e mantendo a Ana acordada. Faço com que vocês se excitem. Sim. Também sou um celerado; queria matar; matar todos eles. É quando chega seu marido e vê a sádica: na verdade nós dois com ela, mas a nós ele não vê. A essa altura já está louco. Matou a amante por quem era apaixonado. Está com um casal estranho. Ele ainda desmaiado, o sádico. Quando ele, seu marido, é chamado por nós, embora vendo apenas a sádica a falar com ele, e lhe é oferecida a palmatória, ele paga o chicote e o bastão. Pretende matar os dois sádicos. Quando o revólver surge na história, para ele, parece um sonho. Ao saber que as balas são de borracha, pensa em atirar a queima roupa, para, assim, tentar matar mais rápido. Por isso ele pensa tanto, quando é mandado para longe, e fica olhando para a arma. Atira e as balas são de verdade. Sente-se aliviado, o covarde. Ele nunca me viu, seja na cama, seja deixando ela. Essa visão, que tanto excitou você, era apenas sua. Quando saí, fora animar o sádico, que acordou e viu a cena. Ana morta ao pé da cama, com a cabeça partida e, para completar, a sadicazinha dele também falecida com as costas crivadas de balas. Ele, o seu marido, pensava em matar o sádico naquele instante. Você tentou alertá-lo, quando viu o outro chegar, por trás, com o bastão. Mas você era e é apenas uma morta. E ele tomou as bastonadas com as quais pretendia matar o outro. O sádico, depois de matar, tomado por desespero e loucura, na certeza de que seria culpado por tudo aquilo, ou pelo menos pela parte que a ele era devida, pegou a arma e se matou. Agora, Isabel, é esperar que eles acordem do lado de cá: seu marido, Ana e os dois sádicos. Eles morreram por sua devassidão. Nós matamos por ela. No fim, você tem razão... Não temos o que brindar. Acabamos todos mortos e devassos.
sábado, 7 de março de 2009
Sob o signo da pobreza
É triste, torpe, mas habitual. Paro diante do semáforo, caminho que faço diariamente para chegar em casa, e me deparo com ele fechado. Um senhora magra, carcomida, cujos andrajos transparecem a pobreza indubitável vem a mim. No rosto, um que de dor mistura-se à certeza de que ninguém vale nada no mundo, mas - às favas! - só resta a ela pedir. Mas não pede. Ao menos, não com palavras. Bate na janela do carro e olha. A expressão que traz na face fulmina e condena quem a recebe no climatizado ambiente do carro fechado. Automaticamente, sem pensar, faço um gesto de negativa, com o dedo; depois ainda procuro, mas era verdade - não tinha dinheiro para ela - mera coincidência, eu já tinha negado antes. Observo a miserável velhinha pelo retrovisor e vejo que ela reproduz a mesma cena diante de todos os carros. Sem dizer uma palavra, simplesmente bate no vidro e lança, com a crueza do seu olhar, a pobreza para o lado de cá.
Não nos adianta enganar a nós mesmos. Estamos do outro lado! Todos nós que, diante de um computador, nos pomos a filosofar, pensar sobre a vida, o fazemos às custas de uma sociedade que fomenta a miséria, que precisa da fome alheia para viver. Para que você use o seu micro, toda uma linha de trabalhadores mal pagos, nas mais diversas partes do mundo, se esfalfam de trabalhar. A globalização permite que eles sempre ganhem pouco para que paguemos menos -ainda que muito diante do ínfimo que custou fabricar os produtos que eles jamais usarão -e possamos, assim, comprar sempre. E eles, os do chão da fábrica, olham para si mesmos e dizem que vão bem. Pois conhecem o vizinho, que mora na mesma favela - sim, eles vivem em favelas. Este vizinho não deu a mesma sorte. Está do lado de fora da indústria, implorando por um biscate nos sub-empregos das empresas de bonés, camisas. Apenas prende uma etiqueta, costura um símbolo. Pode ser um jacaré da Lacoste ou a inconfundível marquinha da Nike. Ganha, por vezes, menos de cinco dólares por dia. Este, no entanto, também se dá por contente. Ele conhece o ex-vizinho. Aquele que está no andar de baixo, na sub-favelização. O que mora nas ruas, pedindo, como a velhinha do semáforo.
Em Salvador, esta miséria nos bate no rosto. Está deflagrada uma guerra urbana, ainda contida sabe-se lá por que causas ocultas. O miserável pode arrombar o vidro, mesmo porque são muitos deles e poucos de nós. Sim. Há este eles e nós, do qual queremos fugir. É confortável viver a ilusão de que, por entendermos o fenômeno, somos menos parte dele. Não é verdade. agrava o nosso ero, a nossa lamentável inépcia, o noso descaso, que com palavras dingimos não ter, pelo próximo.
Quando os Fariseus ouviram Jesus falar dos males da ignorância sobre os valores do amor para com o próximo, a solidariedade imprescindíve para que a máquina do mundo rode bem, eles vociferaram: "acaso falas de nós, Rabi?". Ao que o Cristo respondeu de pronto que não. O caso deles era ainda pior, conforme concluiu o mestre: "Se fossem ignorantes não teriam tanto pecado".
Saber é poder. E nós sabemos. Mas o que fazemos? Sentamos e escrevemos? Abrimos as comportas da nossa mente para analisar, dissecar o cotidiano? A pobreza não vai perdoar essa postura por muito tempo. Para a sorte de egoístas como nós, os miseráveis ainda são mansos, como burros que apanham no lombo e, apesar da força que têm, não fogem nem revidam. Quando se tornarem ferozes, seremos extintos, tomaremos merecidos coices ou teremos de nos adaptar a um mundo novo.
Esta semana estive, pela primeira vez na minha vida num catveiro - isto nunca ocorrera antes nos meus 13 anos de reportagem. O quarto era quente, pequeno. Tinha apenas uma cama e a corda que revelava o terror que o sequestrado viveu, amarrado ali, encapuzado, por mais de 24 até que conseguisse fugir. A vítima era um homem pobre. Dono de um mercadinho não podia pagar o resgate. Imaginar o inferno de um pobre que é sequestrado e não tem com o que que saciar a ganância dos miseráveis é algop que, de tão distante, não vale nem a pena tentar fazer, para não cair no ridículo de supor que é possível traduzir um inferno que não se vive. Ele iria morrer, caso não escapasse. Os miseráveis estão matando os pobres. Nas guerras de gangues, disputas por bocas de fumo, eles se matam, mas não apenas entre traficantes. Para tocar o terror, matam os vizinhos. Amigos de infância. Não têm amor a ninguém. A sociedade não lhes permitiu desenvolver este sentimento, como não nos permite ser mais solidários. Para que eles amassem, seria preciso abdicar das poucas possibilidades que a brutalidade ainda facultam de libertação da miséria total; bem como para que nós fôssemos solidários seria necessário reivindicar dos nossos luxos, ou mesmo pequenos przeres, quase sempre supérfluos. Cada um com seu egoísmo e a máquina vai funcionando. A roda gira, mas gira mal. Tritura, esmaga. Hoje, os miseráveis. A nossa vez, no entanto, chegará.
Mais um registro sobre o cativeiro. Não ficava num local deserto, como vemos nos filmes. Ficava entre várias casas, de onde outros pobres ouviram, certamente, os gritos de pavor, pedidos de socorro. Das suas janelas, assistiram, pois o sequestro foi à tarde, a chegada dos bandidos, a bestialidade com a qual trataram o empresário e nada fizeram. No dia que fui ao cativeiro, acompanhado por diversos agentes policiais, eles, os vizinhos, se escondiam ao perceber a nossa aproximação. Quando chegávamos antes e conseguíamos falarcom alguém, não nos respondiam ou apenas diziam não saber do que se tratava. Os vizinhos do terror, aqueles que, diferente de nós, conhecem de perto o inferno, estes, por nada, revelam o nome do diabo. Pois em Deus, alguns ainda crêem, depositam fichas num investimento futuro. Muitos, como Nietzche, porém, acreditam que ele está morto - para eles, que sofrem, e para nós, que ignoramos este sofrimento - talvez seja verdade. Quem sabe é assim que se mata Deus? O diabo, no entanto, está vivo, sorrindo às escâncaras diante deles. E, com o canto da boca, ele já faz seus primeiros gracejos para nós.
Não nos adianta enganar a nós mesmos. Estamos do outro lado! Todos nós que, diante de um computador, nos pomos a filosofar, pensar sobre a vida, o fazemos às custas de uma sociedade que fomenta a miséria, que precisa da fome alheia para viver. Para que você use o seu micro, toda uma linha de trabalhadores mal pagos, nas mais diversas partes do mundo, se esfalfam de trabalhar. A globalização permite que eles sempre ganhem pouco para que paguemos menos -ainda que muito diante do ínfimo que custou fabricar os produtos que eles jamais usarão -e possamos, assim, comprar sempre. E eles, os do chão da fábrica, olham para si mesmos e dizem que vão bem. Pois conhecem o vizinho, que mora na mesma favela - sim, eles vivem em favelas. Este vizinho não deu a mesma sorte. Está do lado de fora da indústria, implorando por um biscate nos sub-empregos das empresas de bonés, camisas. Apenas prende uma etiqueta, costura um símbolo. Pode ser um jacaré da Lacoste ou a inconfundível marquinha da Nike. Ganha, por vezes, menos de cinco dólares por dia. Este, no entanto, também se dá por contente. Ele conhece o ex-vizinho. Aquele que está no andar de baixo, na sub-favelização. O que mora nas ruas, pedindo, como a velhinha do semáforo.
Em Salvador, esta miséria nos bate no rosto. Está deflagrada uma guerra urbana, ainda contida sabe-se lá por que causas ocultas. O miserável pode arrombar o vidro, mesmo porque são muitos deles e poucos de nós. Sim. Há este eles e nós, do qual queremos fugir. É confortável viver a ilusão de que, por entendermos o fenômeno, somos menos parte dele. Não é verdade. agrava o nosso ero, a nossa lamentável inépcia, o noso descaso, que com palavras dingimos não ter, pelo próximo.
Quando os Fariseus ouviram Jesus falar dos males da ignorância sobre os valores do amor para com o próximo, a solidariedade imprescindíve para que a máquina do mundo rode bem, eles vociferaram: "acaso falas de nós, Rabi?". Ao que o Cristo respondeu de pronto que não. O caso deles era ainda pior, conforme concluiu o mestre: "Se fossem ignorantes não teriam tanto pecado".
Saber é poder. E nós sabemos. Mas o que fazemos? Sentamos e escrevemos? Abrimos as comportas da nossa mente para analisar, dissecar o cotidiano? A pobreza não vai perdoar essa postura por muito tempo. Para a sorte de egoístas como nós, os miseráveis ainda são mansos, como burros que apanham no lombo e, apesar da força que têm, não fogem nem revidam. Quando se tornarem ferozes, seremos extintos, tomaremos merecidos coices ou teremos de nos adaptar a um mundo novo.
Esta semana estive, pela primeira vez na minha vida num catveiro - isto nunca ocorrera antes nos meus 13 anos de reportagem. O quarto era quente, pequeno. Tinha apenas uma cama e a corda que revelava o terror que o sequestrado viveu, amarrado ali, encapuzado, por mais de 24 até que conseguisse fugir. A vítima era um homem pobre. Dono de um mercadinho não podia pagar o resgate. Imaginar o inferno de um pobre que é sequestrado e não tem com o que que saciar a ganância dos miseráveis é algop que, de tão distante, não vale nem a pena tentar fazer, para não cair no ridículo de supor que é possível traduzir um inferno que não se vive. Ele iria morrer, caso não escapasse. Os miseráveis estão matando os pobres. Nas guerras de gangues, disputas por bocas de fumo, eles se matam, mas não apenas entre traficantes. Para tocar o terror, matam os vizinhos. Amigos de infância. Não têm amor a ninguém. A sociedade não lhes permitiu desenvolver este sentimento, como não nos permite ser mais solidários. Para que eles amassem, seria preciso abdicar das poucas possibilidades que a brutalidade ainda facultam de libertação da miséria total; bem como para que nós fôssemos solidários seria necessário reivindicar dos nossos luxos, ou mesmo pequenos przeres, quase sempre supérfluos. Cada um com seu egoísmo e a máquina vai funcionando. A roda gira, mas gira mal. Tritura, esmaga. Hoje, os miseráveis. A nossa vez, no entanto, chegará.
Mais um registro sobre o cativeiro. Não ficava num local deserto, como vemos nos filmes. Ficava entre várias casas, de onde outros pobres ouviram, certamente, os gritos de pavor, pedidos de socorro. Das suas janelas, assistiram, pois o sequestro foi à tarde, a chegada dos bandidos, a bestialidade com a qual trataram o empresário e nada fizeram. No dia que fui ao cativeiro, acompanhado por diversos agentes policiais, eles, os vizinhos, se escondiam ao perceber a nossa aproximação. Quando chegávamos antes e conseguíamos falarcom alguém, não nos respondiam ou apenas diziam não saber do que se tratava. Os vizinhos do terror, aqueles que, diferente de nós, conhecem de perto o inferno, estes, por nada, revelam o nome do diabo. Pois em Deus, alguns ainda crêem, depositam fichas num investimento futuro. Muitos, como Nietzche, porém, acreditam que ele está morto - para eles, que sofrem, e para nós, que ignoramos este sofrimento - talvez seja verdade. Quem sabe é assim que se mata Deus? O diabo, no entanto, está vivo, sorrindo às escâncaras diante deles. E, com o canto da boca, ele já faz seus primeiros gracejos para nós.
quarta-feira, 4 de março de 2009
Crueldade x Hipocrisia
Já disse um filósofo que tudo aquilo que um homem faz os outros são capazes de fazer, por mais abjeta que seja a ação e por mais nobres que sejam os homens. A crueldade é algo atávico, que está impresso no DNA do ser humano, na bagagem cultural e anímica. Em tempos de imprensa livre e de sociedade amarga, sedenta de sangue, quando morte e tortura são expostas no dia a dia dos auto-declarados noticiosos, assistir a crueldade humana deixou de ser um exercício de imaginação, feito após leitura de romances, ou mesmo uma prática visual, porém fictícia, vislumbrada em filmes de terror. Hoje, é possível ver tortura real. Seja gravada por câmeras de circuito interno de segurança, seja pelas filmadoras de pais zelosos que suspeitam – e infelizmente confirmam – ter uma babá monstro em casa. Mais do que a exposição que a sociedade digital nos revela, o que choca é o quanto de maldade vem no bojo deste nada admirável mundo novo.
Mais há algo ainda pior que a crueldade exposta, descabida, por vezes mesmo exibida como troféu por gangues de traficantes ou torcedores. A maldade que se esconde por trás do véu da hipocrisia, esta me é mais aterradora. A maldade de um amigo que, simulando sê-lo, faz da sua vida um inferno. Trai você com a sua esposa, fazendo mal a, a ela e a si mesmo e a você, e depois convida o casal para uma viagem ou um jantar; fecha as portas para você no meio profissional, enquanto diz torcer pelo seu sucesso, ainda que para isso durma com o diretor ou faça qualquer sorte de chantagem; tortura animais de rua, enquanto finge pro mundo que é uma pessoa de bem; homens públicos que arrancam braços de empregados com serra elétrica nas suas propriedades, enquanto no púlpito senatorial defendem a honradez e a virtude.
São os sepulcros caiados dos quais já falou o Cristo. Nélson Rodrigues nos lembrou, como o messias bíblico, que a maldade dos bons é mais preocupante que dos maus. Aqueles, quando a cometem, são capazes de beber sangue de criança com groselha. Odeio essas pessoas. Mas consigo também repreender a mim mesmo por gastar os meus botões pensando nelas. Se não sou delegado, advogado, juiz ou homicida – alguém que pode pensar nessas pessoas e dar-lhes o destino merecido: a cela ou a cova -, por que ocupar-me com entes tão abjetos? Quantas vezes, ao deparar-mo-nos com tais figuras no nosso habitat, principalmente quando temos o infortúnio de sermos as vítimas da sua hipocrisia, perdemos a nossa alegria, o nosso humor, o nosso viço, o que há de mais belo naquilo que em nós nos faz humanos: a paz, cujo valor é tamanho que nada nem ninguém nos deveria poder arrancar. Que as ignoremos, isso sim. Que chafurdem sós no lixo que vive em suas almas. Que se percam e se devorem, se matem em seus infernos, apodreçam na desgraça que emanam em torno de si como uma aura pútrida. São espíritos que fedem.
A vítima não deve sofrer e sim o algoz, por isso o Cristo recomendou mansidão aos aflitos, paz aos que sofrem. Que não resistíssemos ao mal. Déssemos a cara a tapa, uma duas, três vezes. É duro. Nunca consegui. Mas, pela paz vivenciada por ele que, ainda na cruz, pediu perdão para os que assim com ele procediam, sou de pensar que tal estado de espírito, por mais inalcançável que soe, deve ser perseguido como uma utopia. Uma meta referência. Um Postulado. A paz vale mais que essa corja de canalhas. E, como disse Paulo de Tarso (hoje estou bíblico), deixe a Deus a sua vingança. Pois é. Entrego essas almas a Paulo de Tarso.
Mais há algo ainda pior que a crueldade exposta, descabida, por vezes mesmo exibida como troféu por gangues de traficantes ou torcedores. A maldade que se esconde por trás do véu da hipocrisia, esta me é mais aterradora. A maldade de um amigo que, simulando sê-lo, faz da sua vida um inferno. Trai você com a sua esposa, fazendo mal a, a ela e a si mesmo e a você, e depois convida o casal para uma viagem ou um jantar; fecha as portas para você no meio profissional, enquanto diz torcer pelo seu sucesso, ainda que para isso durma com o diretor ou faça qualquer sorte de chantagem; tortura animais de rua, enquanto finge pro mundo que é uma pessoa de bem; homens públicos que arrancam braços de empregados com serra elétrica nas suas propriedades, enquanto no púlpito senatorial defendem a honradez e a virtude.
São os sepulcros caiados dos quais já falou o Cristo. Nélson Rodrigues nos lembrou, como o messias bíblico, que a maldade dos bons é mais preocupante que dos maus. Aqueles, quando a cometem, são capazes de beber sangue de criança com groselha. Odeio essas pessoas. Mas consigo também repreender a mim mesmo por gastar os meus botões pensando nelas. Se não sou delegado, advogado, juiz ou homicida – alguém que pode pensar nessas pessoas e dar-lhes o destino merecido: a cela ou a cova -, por que ocupar-me com entes tão abjetos? Quantas vezes, ao deparar-mo-nos com tais figuras no nosso habitat, principalmente quando temos o infortúnio de sermos as vítimas da sua hipocrisia, perdemos a nossa alegria, o nosso humor, o nosso viço, o que há de mais belo naquilo que em nós nos faz humanos: a paz, cujo valor é tamanho que nada nem ninguém nos deveria poder arrancar. Que as ignoremos, isso sim. Que chafurdem sós no lixo que vive em suas almas. Que se percam e se devorem, se matem em seus infernos, apodreçam na desgraça que emanam em torno de si como uma aura pútrida. São espíritos que fedem.
A vítima não deve sofrer e sim o algoz, por isso o Cristo recomendou mansidão aos aflitos, paz aos que sofrem. Que não resistíssemos ao mal. Déssemos a cara a tapa, uma duas, três vezes. É duro. Nunca consegui. Mas, pela paz vivenciada por ele que, ainda na cruz, pediu perdão para os que assim com ele procediam, sou de pensar que tal estado de espírito, por mais inalcançável que soe, deve ser perseguido como uma utopia. Uma meta referência. Um Postulado. A paz vale mais que essa corja de canalhas. E, como disse Paulo de Tarso (hoje estou bíblico), deixe a Deus a sua vingança. Pois é. Entrego essas almas a Paulo de Tarso.
segunda-feira, 2 de março de 2009
Conformismo - vício de uma sociedade
Dos vícios, o pior, talvez, seja o de não ter ambições. O vício do conformismo. Este é o quase insanável defeito da sociedade brasileira. O brasileiro é um povo que acha que Deus é seu conterrâneo e, por ser compatriota do dono da bola, não precisa de méritos para participar da partida. E o pior: não há sequer a preocupação de jogar bonito. Basta estar no jogo. Sobreviver. De uma forma mais ou menos atávica, este vício está em todos nós, brasileiros, em grau mais ou menos acentuado. Vencer a indolência, a letargia, que se transveste de mansidão, para moralmente convencer a si mesma que um vício é uma virtude, não é tarefa fácil, mas precisa ser corriqueira nos que querem vencer, produzir, criar.
Por que para o viciado o vício parece sempre indispensável? Esta questão tem se abatido sobre mim, qual água em rochedo. Não consigo desenredar-me do novelo. É óbvio, aos não viciados, a não necesidade do vício alheio. Alguns são mesmo viciados em negar o vício dos outros. - os ditos intervencionistas, enxeridos de outrora. Mas ao viciado, seu vício é sem remédio e sem substituição. Em filmes e outras modalidades narrativas, é comum ver, tão fácil como Jesus fazer mudar água em vinho, um viciado em álcool fazer a substituição por sexo, por exemplo, sem qualquer síndrome de abstinência. Isso, porém, não é real.
O vício, quando instalado, dificilmente se descola da alma, pois, ao contrário do que se possa pensar, não é o corpo que se vicia. Este, apenas sofre as consequências. O delinquente é o espírito. É a alma que decai. Mas se esse pecado, esse vício, esse malfazer, for por demais duradouro, ele torna a carne fraca, mesmo que esteja pronto o espírito, o que só se dá, em grau extremado, nos mestres sagrados, como o Cristo, mas em grau menor, é o que se passa com todos.
Nossas carnes se enfraquecem graças à dolência de nossos espíritos débeis. E sofremos, muito e sempre. Olhamos para nós, vemos a carranca, o inferno de Bosch nos circunda. Ainda assim, persistimos. Somos o que somos, dizem os conformados clássicos. O homem tem seus atavismos, seus reflexos condicionados, suas adicções físicas e mentais, dizem os cientificistas, dados a uma lógica tão ou mais mesquinha que a estupidez dos beatamente conformados.
Me vêm a mente, então, as igrejas pentecostais e a sua capacidade de fazer com que as pessoas entrem em um estado de embriaguez, no qual, realmente, trocam um vício por outro. Quantos delinquentes pseudo-reformados há nos bancos dos templos. Mas os vícios antigos, de fato, eles abandonam. Às vezes, apenas enquanto estão no uso do vício maior. Como um ex-usuário de cocaína, que se torna dependente do crack. O pó de nada lhe serve, mas, caso falte a pedra, prontamente as migalhas da velha coca servirão, ou terão de servir. A recaída no vício é, por isso mesmo, via de regra, pior que o vício em si.
Por isso temo quando vejo amigos meus buscando tornar-se ambiciosos, vez que não o foram por uma vida inteira. Temo quando isso se dá comigo mais do que temo com os outros. Chamem de egoísmo, de auto-preservação. Estarão certos de qualquer maneira. Não é o nome que se dê a esse desejo que deve ser o foco. Este é um outro vício. O foco deve ser o desafio da transformação nasce como consequência da nova postura da alma, adotada ela seja lá por que razões for - egoístas ou altruístas, nunca, porém, automáticas. Vai dar trabalho!
Vencer as amarras que nos toldam, não sucumbir ante o mau hábito da auto-indulgência, são desafios esmagadores que precisamos enfrentar diariamente. Vencer o conformismo que temos, não com a vida, com o emprego, com o salário, mas conosco mesmo, com as nossas ambições, com as nossas potencialidades, este é o desafio maior. Às vezes é bom fazer um esforço e esquecer que somos brasileiros. Um povo que aceita a mediocridade de um ano com apenas dez meses, já que janeiro e fevereiro são ignorados no caledário das mudanças, pois precedem o carnaval.
Ouvi hoje de um conceituado advogado que estávamos no primeiro dia do ano. É algo a se lamentar. Será mesmo? Eu, então, aos 33 anos, teria perdido o que? À razão de dois meses por ano, nada mais nada menos que cinco anos e alguns quebrados de vida. Sem contar o conformismo praticado ao longo dos outros 27 que me sobrariam diante desta conta kafkiana. E o tempo de dormir, de comer, tomar banho? Será que não produzimos? Será que essa é a nossa realidade?
Não. E, se for, não pode ser. Mudemos. Arranquemos, mesmo que a fórceps, esta noção malajambrada de mundo das nossas entranhas. Extirpemos esse cancro.
Não à falsa modéstia, não à falsa humildade, não a esse vício mole, torpe, enfadonho. Demos um sim à vida. Vamos abrir as portas, ainda que pesadas, feitas de madeiras grossas e não trabalhadas; ainda que suas farpas perfurem as nossas mãos, ainda que sangremos. Vamos mudar essa história. Pois já se vão 500 anos de Brasil e, na conta tupiniquim que inutiliza janeiros e fevereiros, já temos um país octagenário (83 vetustos anos) perdido por conta deste cálculo bizarro que suprime da conta da vida producente o carnaval e suas prévias. Se cada um lutar e vencer a si mesmo, a sociedade brasileira se salva. Mas o preço é sangue e suor. Sem cerveja. Pelo menos não na acepção carnavalesca de Caetano.
Por que para o viciado o vício parece sempre indispensável? Esta questão tem se abatido sobre mim, qual água em rochedo. Não consigo desenredar-me do novelo. É óbvio, aos não viciados, a não necesidade do vício alheio. Alguns são mesmo viciados em negar o vício dos outros. - os ditos intervencionistas, enxeridos de outrora. Mas ao viciado, seu vício é sem remédio e sem substituição. Em filmes e outras modalidades narrativas, é comum ver, tão fácil como Jesus fazer mudar água em vinho, um viciado em álcool fazer a substituição por sexo, por exemplo, sem qualquer síndrome de abstinência. Isso, porém, não é real.
O vício, quando instalado, dificilmente se descola da alma, pois, ao contrário do que se possa pensar, não é o corpo que se vicia. Este, apenas sofre as consequências. O delinquente é o espírito. É a alma que decai. Mas se esse pecado, esse vício, esse malfazer, for por demais duradouro, ele torna a carne fraca, mesmo que esteja pronto o espírito, o que só se dá, em grau extremado, nos mestres sagrados, como o Cristo, mas em grau menor, é o que se passa com todos.
Nossas carnes se enfraquecem graças à dolência de nossos espíritos débeis. E sofremos, muito e sempre. Olhamos para nós, vemos a carranca, o inferno de Bosch nos circunda. Ainda assim, persistimos. Somos o que somos, dizem os conformados clássicos. O homem tem seus atavismos, seus reflexos condicionados, suas adicções físicas e mentais, dizem os cientificistas, dados a uma lógica tão ou mais mesquinha que a estupidez dos beatamente conformados.
Me vêm a mente, então, as igrejas pentecostais e a sua capacidade de fazer com que as pessoas entrem em um estado de embriaguez, no qual, realmente, trocam um vício por outro. Quantos delinquentes pseudo-reformados há nos bancos dos templos. Mas os vícios antigos, de fato, eles abandonam. Às vezes, apenas enquanto estão no uso do vício maior. Como um ex-usuário de cocaína, que se torna dependente do crack. O pó de nada lhe serve, mas, caso falte a pedra, prontamente as migalhas da velha coca servirão, ou terão de servir. A recaída no vício é, por isso mesmo, via de regra, pior que o vício em si.
Por isso temo quando vejo amigos meus buscando tornar-se ambiciosos, vez que não o foram por uma vida inteira. Temo quando isso se dá comigo mais do que temo com os outros. Chamem de egoísmo, de auto-preservação. Estarão certos de qualquer maneira. Não é o nome que se dê a esse desejo que deve ser o foco. Este é um outro vício. O foco deve ser o desafio da transformação nasce como consequência da nova postura da alma, adotada ela seja lá por que razões for - egoístas ou altruístas, nunca, porém, automáticas. Vai dar trabalho!
Vencer as amarras que nos toldam, não sucumbir ante o mau hábito da auto-indulgência, são desafios esmagadores que precisamos enfrentar diariamente. Vencer o conformismo que temos, não com a vida, com o emprego, com o salário, mas conosco mesmo, com as nossas ambições, com as nossas potencialidades, este é o desafio maior. Às vezes é bom fazer um esforço e esquecer que somos brasileiros. Um povo que aceita a mediocridade de um ano com apenas dez meses, já que janeiro e fevereiro são ignorados no caledário das mudanças, pois precedem o carnaval.
Ouvi hoje de um conceituado advogado que estávamos no primeiro dia do ano. É algo a se lamentar. Será mesmo? Eu, então, aos 33 anos, teria perdido o que? À razão de dois meses por ano, nada mais nada menos que cinco anos e alguns quebrados de vida. Sem contar o conformismo praticado ao longo dos outros 27 que me sobrariam diante desta conta kafkiana. E o tempo de dormir, de comer, tomar banho? Será que não produzimos? Será que essa é a nossa realidade?
Não. E, se for, não pode ser. Mudemos. Arranquemos, mesmo que a fórceps, esta noção malajambrada de mundo das nossas entranhas. Extirpemos esse cancro.
Não à falsa modéstia, não à falsa humildade, não a esse vício mole, torpe, enfadonho. Demos um sim à vida. Vamos abrir as portas, ainda que pesadas, feitas de madeiras grossas e não trabalhadas; ainda que suas farpas perfurem as nossas mãos, ainda que sangremos. Vamos mudar essa história. Pois já se vão 500 anos de Brasil e, na conta tupiniquim que inutiliza janeiros e fevereiros, já temos um país octagenário (83 vetustos anos) perdido por conta deste cálculo bizarro que suprime da conta da vida producente o carnaval e suas prévias. Se cada um lutar e vencer a si mesmo, a sociedade brasileira se salva. Mas o preço é sangue e suor. Sem cerveja. Pelo menos não na acepção carnavalesca de Caetano.
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