Hoje fui almoçar em família. Eu, minha mulher, minha mãe e meu irmão mais novo. À Exceção de meu irmão, estávamos os três um pouco mais bem vestidos. Minha mãe vinha das compras, eu e minha mulher iríamos fazer as nossas depois. Meu irmão, no entanto, estava em casa, brincando comigo, antes de saírmos. Estava me aplicando alguns golpes de judô - ele batendo em mim, o que é meio humilhante, mas natural, afinal, apesar del ter apenas 12 anos e eu 33, ele é faixa cinza, quase faixa azul, além de ser do meu tamanho e, provavelmente, mais pesado que eu. Minha experiência no judô resume-se a assistir à aplicação dos golpes mais básicos e estudar suas técnicas, tudo na internet. Começo a treinar de verdade esta semana.
Voltando ao almoço, através do qual chegaremos às castas, eu, que já não tinha tomado café, fiquei assoberbado defome após o meu treino com meu irmão. Fiz ele se vestir às pressas para saírmos. Ele pegou uma camisa meio surrada da seleção brasileira, um short e um par de sandálias não lá muito novas também. Minha mãe até mandou ele vestir uma roupa melhor. Eu não concordei. Achei desnecessário. Iríamos apenas a um restaurante a quilo, razoavelmente bem frequentado, mas, ainda assim, um restaurante a quilo. Nada demais, depois voltaríamos para casa. Não julguei necessário.
Um fato, porém, omiti até agora, por tornar-se relevante apenas neste momento da narrativa. Meu irmão é negro. Adotado.
Na porta do restaurante, o porteiro, também negro, fardado, com um punhado de tíquetes na mão, liberava a entrada dos clientes entregando-lhes aquele papel onde ficam registrados os ítens consumidos, para o óbvio pagamento posterior. Quando meu irmão ia entrar, por pouco não foi barrado. O porteiro olhou para ele, pensou, repensou, e acabou percebendo que ele estava conosco e liberando a entrada. Estava tão nervoso que chegou a rasgar o papel que entregou a meu irmão. Acontece que eu não percebi nada disso acontecendo. Minha mulher me contou agora há pouco, à noite.
Que raiva senti. Pensei na sorte de eu não ter percebido. Não sorte minha, mas do atendente. Desejei ter notado, para perguntar a ele se julgava que meu irmão, por ser negro, como ele, não tinha o direito de estar ali. Senti vntade de vociferar ao funcionário que, com a sua idade, meu irmão estaria num trabalho para profissionais de nível superior, universitário. Senti raiva daquele cidadão que validava um sistema de castas no qual ele está num patamar baixo e quer destratar os que julga estarem em padrão inferior. Ele, atendente, poderia usar do seu pequeno poder para barra o acesso daquele negro mal-vestido, se porventura fosse ele uma criança pobre. É como alguns motoristas de ônibus que, em dias de chuva, propositadamente, passam por cima de poças de água e molham os pobres como ele que esperam no ponto. Senti mesmo vontade de ter notado para ...
Para o que? Colocar o atendente no lugar dele? Mostrar que, apesar de negro como ele, meu irmão pertencia a uma casta superiror e, portanto, ele lhe devia respeito? Meu Deus. Também eu estava a pensar com base no mesmo sistema de castas que levou o garçon a se comportar daquela maneira. Ele, talvez, temesse que a criança de fato estivesse sozinha, não pudesse pagar e ele, atendente, depois, viesse a ser questionado quando aquele menino não pudesse pagar ou pedisse, lá dentro, que alguém o fizesse, incomodando os membros da outra casta, inclusive, e sobretudo, o dono do restaurante, que poderia punir o atendente que, afinal de contas, está na portaria para evitar situações como esta. Para permitir aos que entram a ilusão de que lá dentro não há diferença de castas. Ou melhor, para garantir-lhes que não haja de fato. Ele está ali como um filtro social. Seu preconceito é desculpável. Ele está ali para isso.
O meu, no entanto, é imperdoável. Ao sentir a raiva do atendente, eu validava o sistema de catsas sim. Claro que a raiva veio do ato instintivo de defender os meus. Meu irmão menor, adotado, que está numa posição mais frágil. Mas o atendente também está.
No final das contas, foi bom eu não ter notado nada. Não ter dado vazão à minha raiva. Não ter feito o meu papel, pelo menos não hoje, para solidificar, validar esse inextricável, inescapável sistema opressivo de castas que rege a nossa sociedade.
domingo, 1 de março de 2009
sábado, 28 de fevereiro de 2009
Quem tem mãe não tem madrasta
Faço porque não passo,
caço.
Mato porque não corro,
morro.
E se não fosse um estouro,
estocada a dar-se em touro,
espadada em porco mouro,
usaria algo de couro,
ou ouro.
Tudo, porém, me afasta...
Ignorasse eu a nefasta
casta que me desgasta,
me daria um belo basta.
Quem tem mãe não tem madrasta!
Basta, amigos.
Hasta.
caço.
Mato porque não corro,
morro.
E se não fosse um estouro,
estocada a dar-se em touro,
espadada em porco mouro,
usaria algo de couro,
ou ouro.
Tudo, porém, me afasta...
Ignorasse eu a nefasta
casta que me desgasta,
me daria um belo basta.
Quem tem mãe não tem madrasta!
Basta, amigos.
Hasta.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Menos 15 quilos depois
Este é o meu tempo atual. Menos 15 quilos depois. Algo como antes e depois de Cristo. Meu marco zero foi os 90 quilos, peso soberbo, estúpido para uma pessoa de apenas 1,73m de estatura. Hoje peso 75. E caindo...
Esse emagrecimento, que se deu em pouco mais de três meses, e foi, portanto, bastante perceptível, até mesmo para mim, me fez refletir sobre o que escrevo aqui agora.
Quando pensei em emagrecer, queria, como querem todos, mais saúde, uma estética melhor e, no meu caso, que trabalho no vídeo, mais oportunidades profissionais, além de menos chances de passar por ridículos cotidianos.
Hoje, 15 quilos a menos depois, percebo que o que consegui, além de tudo aquilo que almejava, é o que realmente faz a mim e a todos que emagrecem mais felizes. Não é a saúde, a estética, a sensação deleveza. Não. É algo que vem com isso e está, ao mesmo tempo, muito além. É algo mais profundo, que perpassa os anseios de todos os seres humanos e, por isso, provoca efeito tão forte.
Virei outra pessoa.
Todos precisam o tempo inteiro ser outra pessoa. Alguns fazem isso sendo gentis no trabalho e tiranos domésticos - ou vice-versa. Outros, optam por ter duas famílias, trair a mulher. Os mais convencionais satisfazem-se em tornarem-se cavaleiros medievais, em suas armaduras metalizadas de quatro (ou duas) rodas, no trânsito, gritando, fechando, xingando e até mesmo atirando nos outros.
Mas ao me olhar no espelho hoje, enquanto escolhia uma roupa quatro númerosmenor do que eu usava há apenas três meses, percebi que é possível obter a mesma satisfação - a da transformação, apenas emagrecendo. E é disso, creio, que todos, mesmo sem saber, mais gostam ao emagrecer. Tornar-se outro. Olhar no espelho e não reconhecer seu rosto. Perceber-se mais jovem. Ver as roupas antigas deixarem de servir. Ver algumas mais novas, que dois meses antes você comprou pensando "será que vai caber algum dia?" irem junto pro passado, com a arroba que se foi.
Há várias formas de ser outro. Emagrecer, no início, parece difícil. Mas o prazer de ser outro vale todo o esforço. Só temo que, depois de atingida a meta final do meu emagrecimento (que não colocarei aqui, para poder mentir que era outra inferior a ela, caso não a alcance), eu queira virar outro de novo. Desta vez, engordando. Enfim, são os riscos da vida.
Até.
Esse emagrecimento, que se deu em pouco mais de três meses, e foi, portanto, bastante perceptível, até mesmo para mim, me fez refletir sobre o que escrevo aqui agora.
Quando pensei em emagrecer, queria, como querem todos, mais saúde, uma estética melhor e, no meu caso, que trabalho no vídeo, mais oportunidades profissionais, além de menos chances de passar por ridículos cotidianos.
Hoje, 15 quilos a menos depois, percebo que o que consegui, além de tudo aquilo que almejava, é o que realmente faz a mim e a todos que emagrecem mais felizes. Não é a saúde, a estética, a sensação deleveza. Não. É algo que vem com isso e está, ao mesmo tempo, muito além. É algo mais profundo, que perpassa os anseios de todos os seres humanos e, por isso, provoca efeito tão forte.
Virei outra pessoa.
Todos precisam o tempo inteiro ser outra pessoa. Alguns fazem isso sendo gentis no trabalho e tiranos domésticos - ou vice-versa. Outros, optam por ter duas famílias, trair a mulher. Os mais convencionais satisfazem-se em tornarem-se cavaleiros medievais, em suas armaduras metalizadas de quatro (ou duas) rodas, no trânsito, gritando, fechando, xingando e até mesmo atirando nos outros.
Mas ao me olhar no espelho hoje, enquanto escolhia uma roupa quatro númerosmenor do que eu usava há apenas três meses, percebi que é possível obter a mesma satisfação - a da transformação, apenas emagrecendo. E é disso, creio, que todos, mesmo sem saber, mais gostam ao emagrecer. Tornar-se outro. Olhar no espelho e não reconhecer seu rosto. Perceber-se mais jovem. Ver as roupas antigas deixarem de servir. Ver algumas mais novas, que dois meses antes você comprou pensando "será que vai caber algum dia?" irem junto pro passado, com a arroba que se foi.
Há várias formas de ser outro. Emagrecer, no início, parece difícil. Mas o prazer de ser outro vale todo o esforço. Só temo que, depois de atingida a meta final do meu emagrecimento (que não colocarei aqui, para poder mentir que era outra inferior a ela, caso não a alcance), eu queira virar outro de novo. Desta vez, engordando. Enfim, são os riscos da vida.
Até.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Vale um conto?
Hoje escrevi um conto. Não mais um dos meus contos, mas um conto do qual gostei. É verdade que os meus "outros contos" são poucos, até porque, como deles não gostava muito, nunca dei seguimento. Esse que erscrevi hoje gostei. Uma idéia que há um tempo maturava. Conto curto, sem pretensões, mas com sua originalidade. Pretendo publicá-lo aqui, por partes. Primeiro, dependo da aprovação de algumas pessoas da minha mais alta estima. O filho se mostra primeiro à família... Farei os ajustes necessários e colocarei aqui.
Não sei de quem é a frase, me escapa agora, mas, pela primeira vez, compreendo o seu significado. Ela diz algo assim: Todo escritor só publica suas obras para se livrar delas. Não fosse assim, as revisaria e teria algo a melhorar sempre.
Ainda vou revisar e melhorar alguns pontos...
Não sei de quem é a frase, me escapa agora, mas, pela primeira vez, compreendo o seu significado. Ela diz algo assim: Todo escritor só publica suas obras para se livrar delas. Não fosse assim, as revisaria e teria algo a melhorar sempre.
Ainda vou revisar e melhorar alguns pontos...
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Virose
É a nova solução universal dos médicos para todos os problemas.... Virose. Antes, tempos idos, eramos examinados, fazíamos testes. Afinal, febre, dor de garganta, podem ser sintomas de muitas e muitas coisas. Mas os médicos têm uma solução mais prática:
Virose.
Hoje, doente, fui a um médico. Estava com um mal estar terrível, que já me acompanha, em um crescendo gradual, há alguns dias. Hoje se avolumou e se fez presente em forma de doença. Fiquei prostrado. Eis que fui ao médico. Relatei meus sintomas. Disse há quanto tempo me sentia assim. Que hoje estava pior um pouco e com sensação de que poderia piorar mais. Ele me passou apenas um remédio para a garganta. Um remédio desses gerais para gripes mais fortes e foi taxativo no porquê da prescrição:
"É virose. Tá atacando todo mundo. Descanse uns dois dias e fica bom. Qualquer coisa, volte."
Que tal?
C´est quand même un pêut fort, ahn?... como diriam os franceses.....
Salut
Vou descansar e torcer que a virose passe, como vento....
Virose.
Hoje, doente, fui a um médico. Estava com um mal estar terrível, que já me acompanha, em um crescendo gradual, há alguns dias. Hoje se avolumou e se fez presente em forma de doença. Fiquei prostrado. Eis que fui ao médico. Relatei meus sintomas. Disse há quanto tempo me sentia assim. Que hoje estava pior um pouco e com sensação de que poderia piorar mais. Ele me passou apenas um remédio para a garganta. Um remédio desses gerais para gripes mais fortes e foi taxativo no porquê da prescrição:
"É virose. Tá atacando todo mundo. Descanse uns dois dias e fica bom. Qualquer coisa, volte."
Que tal?
C´est quand même un pêut fort, ahn?... como diriam os franceses.....
Salut
Vou descansar e torcer que a virose passe, como vento....
sábado, 31 de janeiro de 2009
In Vino Veritas. Americanos, bahh.... saudades de mestre Mencken
Henry Louis Mencken foi um dos maiores jornalistas da história desta laboriosa profissão. Viveu até os anos 50 (56, mais precisamente) e criticou política, arte, sobretudo cultura,no sentido socialmente mais amplo do termo. Foi uma glasnost, nas palavras de Paulo Francis - o nosso Mencken Brasileiro. Mencken era um mestre em radiografar sistemas, coisas, pessoase povos, mais que tudo, ainda bem, o povo americano.
Bom, vamosao vinho, ao néctar, à seiva das linhas de hoje, vez que, como já consagraram os antigos, In Vino Veritas.
Ao longo de décadas, durante as quais acompanhou o que há de mais imbecil nos Estados Unidos - seus presidentes -, Mencken pôde, como poucos, notar a fragilidade coginitiva e moral desta tíbia raça que até hoje nos domina - nós, não os Brasileiros, mas o mundo como um todo. Em alguns de seus pensamentos, essa noção fica clara.
Pensemos: como é comum hoje, para nós, terráqueos do século XXI, consumidores de cinema e seriados americanos, do Amercan-Way-Of-Life, que em tudo nos circunda - venha de Nova Iorque ou do Canindé -, como é mesmo prosaico vermos, como realidade eterna, pétrea, basal, o fato de ser in, cult, chique, un act de noblesse même, o fato de se beber vinho - tinto de preferência - seco, inevitavelmente. Na Europa é costume milenar. Nos Estados Unidos nem poderia sê-lo, pois é nação de séculos, como a nossa. Pois bem. Revela Mencken, entretanto, que o é de poucas décadas e nos mostra onde e porque está a raiz do beber vinho como "forma de ser mais" para os americanos. E, como sempre, o faz com classe e em em uma frase, onde analisa a lei seca imposta naquele basto e vasto país, nos idos de 30 e tantos. Ei-la cá:
"Antes da proibição, o povo americano bebia pouquíssimo vinho".
E depois, ainda se acha quem fale que os vinhos californianos, sempre novos, de frágil bouquet e, acima de tudo, sem personalidade, são, segundo tais cultores, melhores que alguns franceses. Eles que sonhem em se comparar aos Argentinos. Não. Uruaios e olhe lá. Isso, se não levarmos em conta a uva Tanat. Pois aí, até dos Uruguaios eles perdem...
Bom, vamosao vinho, ao néctar, à seiva das linhas de hoje, vez que, como já consagraram os antigos, In Vino Veritas.
Ao longo de décadas, durante as quais acompanhou o que há de mais imbecil nos Estados Unidos - seus presidentes -, Mencken pôde, como poucos, notar a fragilidade coginitiva e moral desta tíbia raça que até hoje nos domina - nós, não os Brasileiros, mas o mundo como um todo. Em alguns de seus pensamentos, essa noção fica clara.
Pensemos: como é comum hoje, para nós, terráqueos do século XXI, consumidores de cinema e seriados americanos, do Amercan-Way-Of-Life, que em tudo nos circunda - venha de Nova Iorque ou do Canindé -, como é mesmo prosaico vermos, como realidade eterna, pétrea, basal, o fato de ser in, cult, chique, un act de noblesse même, o fato de se beber vinho - tinto de preferência - seco, inevitavelmente. Na Europa é costume milenar. Nos Estados Unidos nem poderia sê-lo, pois é nação de séculos, como a nossa. Pois bem. Revela Mencken, entretanto, que o é de poucas décadas e nos mostra onde e porque está a raiz do beber vinho como "forma de ser mais" para os americanos. E, como sempre, o faz com classe e em em uma frase, onde analisa a lei seca imposta naquele basto e vasto país, nos idos de 30 e tantos. Ei-la cá:
"Antes da proibição, o povo americano bebia pouquíssimo vinho".
E depois, ainda se acha quem fale que os vinhos californianos, sempre novos, de frágil bouquet e, acima de tudo, sem personalidade, são, segundo tais cultores, melhores que alguns franceses. Eles que sonhem em se comparar aos Argentinos. Não. Uruaios e olhe lá. Isso, se não levarmos em conta a uva Tanat. Pois aí, até dos Uruguaios eles perdem...
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